O abraço da discórdia

Daniel Lima

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Nesta semana, em um noticiário de grande alcance, após entrevistar um presidiário que se identifica como transexual, um médico deu-lhe um abraço carinhoso. Por que esse gesto causou uma grande comoção?

A história é bem mais complexa do que as breves linhas acima. O médico tem assumido uma postura de defesa de melhores condições para presidiários. Qualquer um que conheça o sistema penitenciário neste país concorda que estes são mais depósitos de gente e “escolas do crime” do que centros de recuperação. Certamente há exageros e distorções, mas a dignidade humana do condenado e o propósito declarado de “recuperar” exigem que se ofereça condições minimamente humanas.

Por outro lado, a revolta em muitos círculos foi a opção de omitir o crime pelo qual o presidiário em questão foi preso. Ele, apesar de se apresentar como travesti, tem vários casos registrados de pedofilia e há cerca de nove anos estuprou e matou um menino de 9 anos; deixou seu cadáver na sala da casa onde morava, e após 48 horas arrastou o cadáver até próximo da casa do menino. Hoje, ele está condenado a mais de 38 anos de cadeia.

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A apresentação de apenas um lado da história, retratando a tragédia da vida deste presidiário, promove uma distorção que tem interesses políticos e ideológicos. Se alguém assistir apenas essa reportagem, certamente o sentimento que é promovido é de comoção. A seleção das informações é intencional e ideológica, pois os dados do caso não são secretos. Qualquer jornalista responsável teria acesso aos dois lados da história. Em um artigo de 2017 sobre estupro, o mesmo médico acusa o ato como uma violência contra a mulher e aponta a cultura machista como uma das causas. No final do artigo ele diz:

O impacto do estupro sofrido em casa ou fora dela tem consequências físicas e psicológicas terríveis e duradouras. O estuprador pratica um crime hediondo que não merece condescendência e exige punição exemplar. Uma sociedade que cala diante de tamanha violência é negligente e covarde. [1]

Como explicar um discurso tão duro contra o estupro de mulheres e uma postura tão condescendente e silenciosa sobre um estupro seguido do assassinato de um menino? A única explicação é que o segundo caso não dá sustentação aos seus argumentos ideológicos. Afinal, se a cultura machista é uma das causas dos estupros, como explicar este caso?

Infelizmente, mais uma vez as discussões nas mídias são as mais polarizadas possíveis. Acusações são lançadas com tanta ferocidade quanto parcialidade. Alguns acreditam que essa condição é merecida por ser fruto de escolhas; no outro extremo estão aqueles que acreditam que é uma perseguição hipócrita contra os transgêneros. Mas o que se pode dizer diante de um quadro desses? Como a Bíblia nos instrui a reagir de uma forma ao mesmo tempo justa, equilibrada e amorosa? Muito embora bem mais possa ser considerado e escrito, quero sugerir as seguintes observações:

  1. Por um lado, a reportagem trata da condição miserável em que vivem pessoas que se identificam como transgênero. A Bíblia nos ensina que a condição do homem longe de Deus é miserável (Efésios 2.12; Apocalipse 3.17). Ao mesmo tempo, só vai ficar pior (Mateus 25.41)! Infelizmente o programa é mais uma tentativa de que os “mortos sepultem os seus próprios mortos” (Lucas 9.60). Ou seja, pessoas sem Deus tentando resolver dramas típicos do ser humano. Em um depoimento posterior, o médico afirma que não soube como reagir ao ouvir o relato sobre a vida miserável que o presidiário vive. Eu entendo: quem não está em Cristo não sabe como reagir, não tem esperança para dar, não tem uma solução.
     
  2. A Bíblia também aponta para o fato de que crimes cometidos serão punidos (Gálatas 6.7). Esta é exatamente a essência do evangelho. Somos perdoados pois Jesus tomou sobre si a punição por nossos pecados (Colossenses 2.13-15). Os presidiários apresentados no programa cometeram crimes. Alguns crimes hediondos. Mesmo sua prisão nunca restaurará a vida do menino ou a integridade de sua família. Infelizmente, a reportagem decidiu olhar apenas para o sofrimento deste grupo, que embora seja um sofrimento verdadeiro, é apenas um lado da história.
Não importa quais pecados ou atrocidades cometemos, existe esperança de sermos “lavados”, “santificados” e “justificados” em Cristo.
  1. A Bíblia também é muito clara (vide artigo “Homoafetividade: Um tema difícil”) ao afirmar que uma vida de homossexualidade é pecado (Romanos 1.18-27). A emissora e o médico há muito tempo tentam promover este estilo de vida como normal e adequado. Negar a realidade de Deus sempre resulta em relatos distorcidos, tendenciosos e, em última análise, mentirosos. Deus não nos chama a odiar ou maltratar pecadores, mas sim afirma que aqueles que se entregam a este ou outro pecado receberão “em si mesmos o castigo merecido” (Romanos 1.27).
     
  2. Por outro lado, nós, cristãos, temos esperança e perspectiva para aqueles que mataram, estupraram ou cometeram outros crimes. O apóstolo Paulo afirma em 1Coríntios 6.9-11:

    Vocês não sabem que os perversos não herdarão o Reino de Deus? Não se deixem enganar: nem imorais, nem idólatras, nem adúlteros, nem homossexuais passivos ou ativos, nem ladrões, nem avarentos, nem alcoólatras, nem caluniadores, nem trapaceiros herdarão o Reino de Deus. Assim foram alguns de vocês. Mas vocês foram lavados, foram santificados, foram justificados no nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito de nosso Deus.

    Reparem o início do verso 11: “Assim foram alguns de vocês”. A ênfase da palavra é no passado. Não importa quais pecados ou atrocidades cometemos, existe esperança de sermos “lavados”, “santificados” e “justificados” em Cristo. Isso não nos isenta de lidarmos com as consequências de nossos pecados.

  3. Como cristãos, também temos uma palavra bíblica para as inúmeras vítimas de crimes violentos cometidos por esses e outros presidiários. Deus nos chama a compreender o valor de passar por uma provação ao seu lado (Tiago 1.2-8). Para aqueles que o chamam de pastor, há inúmeras promessas de que, mesmo que andemos por um vale de sombra e morte, ele estará conosco (Salmo 23).

Não é difícil compreender a revolta daqueles que se indignaram com uma reportagem tão distorcida, que aborda um tema complexo por um só ângulo. Tampouco deveria haver entre nós, cristãos, qualquer oposição a atos de misericórdia e compaixão por quem sofre, neste caso criminosos, que estão recebendo a merecida consequência de seus atos. No meio do caos e de inúmeras vozes que se levantam acusando, atacando e promovendo discórdia e mesmo o ódio, que a nossa seja a voz de pacificadores, promovendo a justiça, sentindo compaixão por quem sofre, seja a família, seja o criminoso, e pregando o Príncipe da Paz. Que, assim como Jesus, nossa mensagem ofereça arrependimento aos pecadores, graça aos arrependidos e acolhimento motivado pela graça e pelo amor de nosso Deus.

Nota

  1. Drauzio Varella, “O estupro”, Drauzio, 4 set. 2017. Disponível em: <https://bit.ly/3cN9Yzn>. Acesso em: 10 mar. 2020.
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Daniel Lima foi pastor de igreja local por mais de 25 anos. Formado em psicologia, mestre em educação cristã e doutorando em formação de líderes no Fuller Theological Seminary, EUA. Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida por 5 anos, é autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem 4 filhos, uma neta e vive no Rio Grande do Sul desde 1995.

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