Vivendo no mundo sem ser do mundo

Daniel Lima

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Uma nova polêmica atingiu o povo de Deus nesta última semana. A popular provedora de filmes, Netflix, lança na época do Natal dois filmes do grupo “Porta dos Fundos” que satirizam a pessoa de Jesus Cristo. Por um lado, alguns cristãos muito bem-intencionados estão promovendo um movimento de cancelamento de assinaturas por parte dos crentes; por outro, um número de crentes critica os primeiros pois devemos perdoar os que nos ofendem. Enquanto isso, talvez a maioria dos crentes ou não liga ou corre para casa para assistir o conteúdo.

É evidente que a intenção da Netflix e do grupo Porta do Fundos é ganhar dinheiro, por isso procuram oferecer filmes que atinjam os mais altos níveis de audiência. Uma sátira é definida em qualquer dicionário como “uma técnica literária ou artística que ridiculariza um determinado tema”. O propósito, apesar de ser meramente econômico, usa da técnica de ridicularizar não só os cristãos, mas Jesus Cristo. Na verdade, este evento demonstra algo que qualquer cristão sério já sabe: há uma conspiração satânica que influencia a cultura em geral a uma postura hostil aos ideais cristãos.

Pessoalmente, estamos avaliando se vamos cancelar nossa assinatura. Com isso não estou odiando a equipe do Portas do Fundo, não estou promovendo um ataque aos escritórios da Netflix e nem sequer entendo que seja uma questão de perdão versus não perdão. O que deveríamos esperar de pessoas que não conhecem o Senhor Jesus? O que devemos esperar de um mundo que jaz no Maligno? Estamos avaliando cancelar, pois não quero contribuir com uma empresa que justamente na época do Natal lança um filme que ridiculariza meu Senhor. O mesmo Senhor que, “pela alegria que lhe fora proposta, suportou a cruz, desprezando a vergonha, e assentou-se à direita do trono de Deus” (Hebreus 12.2). Não fiquei pessoalmente ofendido. Vejo apenas um grupo de artistas, brilhantes por sinal, promovendo uma sátira à causa que defendo, ao Senhor a quem amo. Não me sinto bem apoiando-os com minha pequena contribuição.

O que deveríamos esperar de pessoas que não conhecem o Senhor Jesus? O que devemos esperar de um mundo que jaz no Maligno?

O dilema maior para mim, no entanto, não é cancelar ou não a assinatura – inclusive porque não creio que os outros provedores de programas semelhantes sejam necessariamente melhores. Eu creio que como cristãos somos chamados a salgar a terra e iluminar o mundo (Mateus 5.13-16). Isso não significa promover cruzadas e inquisições, cobrando atitudes cristãs de incrédulos; ao mesmo tempo, não significa passividade e silêncio diante de ataques ao cristianismo por medo de parecer retrógrado.

O apóstolo Paulo afirma com clareza que “todos os que desejam viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos” (2Timóteo 3.12). Eu entendo os filmes do Porta dos Fundos lançados na época do Natal como uma perseguição à minha fé. Se o lançamento deles nesta época não te incomoda, preciso perguntar se você tem vivido piedosamente ou não. A questão central, no entanto, parece ser: como devemos reagir? Há reações equivocadas tanto em protestos como em um silêncio que não aproveita o momento para promover um diálogo ou pelo menos um posicionamento profético.

Central a esta discussão é um trecho da oração sacerdotal de Cristo registrada em João 17.14-17:

14Dei-lhes a tua palavra, e o mundo os odiou, pois eles não são do mundo, como eu também não sou. 15Não rogo que os tires do mundo, mas que os protejas do Maligno. 16Eles não são do mundo, como eu também não sou. 17Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade.

O texto indica algumas verdades que, creio eu, se aplicam a este debate:

  1. Cristo nos deu sua Palavra. Resta saber se temos preservado e permanecido em sua Palavra ou se temos cultuado e apresentado ao mundo uma outra “palavra”, devidamente adaptada para não ferir os ouvidos sensíveis dos incrédulos.

  2. Cristo nos enviou ao mundo, assim como ele mesmo foi enviado. Cristo não foi enviado para atacar e destruir, mas para resgatar este mundo sem deixar-se contaminar pelas suas filosofias vãs.

  3. Protegidos do Maligno. Não somos do mundo (cuidado para não assumir uma identidade que não é a nossa), mas o mundo é terreno hostil, e nosso inimigo não é o mundo em si, mas o Maligno, o próprio Satanás.

  4. Santificados na Palavra da verdade. O pedido de Jesus é que sejamos santos. O critério de santidade não se resume às nossas opiniões e ao que está na moda (mesmo no mundo dito gospel) – a Palavra é a verdade. Este é o critério de nossa santificação.

Não sei o que você vai fazer com a Netflix, caso seja assinante. Parece-me que momentos assim pedem de nós um posicionamento. Como seguidores de Jesus, nosso posicionamento deve sempre ser resgatador e não “afastador”. Não creio que a Netflix ou o “Porta dos Fundos” ficarão ofendidos com meu cancelamento. Nem é esta minha intenção. Minha intenção é me posicionar como seguidor de Jesus em um mundo caído. E este posicionamento não é tudo que faço para proclamar meu Jesus, é apenas mais um ato, mais uma ação que faço em amor ao meu Deus e amor àqueles que não conhecem a Jesus. Fico atento para que este evento e meu posicionamento pessoal abram portas para conversas resgatadoras. Oro para que nós tomemos posição em amor ao nosso Senhor Jesus Cristo!

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Daniel Lima foi pastor de igreja local por mais de 25 anos. Formado em psicologia, mestre em educação cristã e doutorando em formação de líderes no Fuller Theological Seminary, EUA. Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida por 5 anos, é autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem 4 filhos e vive no Rio Grande do Sul desde 1995.

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