Uma tragédia, muitas considerações

Daniel Lima

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A vida nos apresenta dilemas de difícil explicação. São ocasiões em que somos colocados diante de situações sem saída. É como se alguém lhe perguntasse se você prefere uma facada ou um tiro. Como enfrentar o drama da menina que foi estuprada, engravidou e agora passou por um aborto? O que esta tragédia revela sobre nosso país, nossas posições, nossas leis e nossa fé? O que Deus tem a dizer sobre isso?

Em primeiro lugar, este não é um caso isolado, mas aponta uma realidade a qual lidamos pouco como sociedade. Infelizmente, abusos infantis são uma realidade ainda pouco falada, comentada e tratada. Como sociedade, ainda promovemos a sexualização infantil; basta ouvir as músicas e as gírias que, em nome da liberdade de expressão, ainda estão por aí. Como sociedade, ainda tratamos sexo como pura e inconsequente diversão, algo a que não atrelamos vínculos ou cuidados maiores. Ainda mantemos uma conspiração do silêncio alimentada por observações maldosas, preconceitos e impunidade. A respeito desta cultura de estupro dissimulada, do silêncio conivente ou amedrontado da sociedade, da alienação de familiares, professores, vizinhos e mesmo da igreja, creio que Deus nos diz: há duas coisas que Eu odeio: absolver o ímpio e condenar o inocente (Provérbios 17.15).

Uma segunda consideração é a vida desta menina. Tenho quatro filhos e uma neta e, assim que li a notícia, meu coração se voltou aos meus e depois para a menina em si. Como está o coração de uma menina destas? Como estava este coração antes de engravidar? Quais as marcas que ela vai carregar por toda a sua vida? Como vai lidar com os sentimentos de culpa e de valor pessoal? Que perspectiva de vida, de confiança, de relacionamentos ela tem e terá? Oro por ela, assim como oro por mais esta tragédia (o aborto) pelo qual ela passou. Quanto à dor desta menina, Deus nos diz em Isaías 57.15b:

Habito num lugar alto e santo, mas habito também com o contrito e humilde de espírito, para dar novo ânimo ao espírito do humilde e novo alento ao coração do contrito.

Uma terceira consideração é pelo estuprador. Tenho lido palavras de muito ódio contra esse homem, mas antes de me deixar levar pela corrente do ódio (a qual sinceramente seria fácil seguir), deixe-me dizer que cada um de nós poderia estar no mesmo lugar. Bastaria escolhermos um passo após o outro em direção a este ou outro caminho de injustiça. Não vou discutir opção sexual, ou desvios psicológicos, mas vou condenar os ataques contínuos sobre uma criança que certamente não tinha condições de lidar com suas manipulações e ameaças. Não faço isso de uma posição de alguém que se julga superior, mas de alguém que, pela graça de Deus, seguiu outro caminho o qual tem me levado em outra direção. A este homem Deus diz em Mateus 18.6:

... se alguém fizer cair no pecado um destes pequeninos que creem em mim, melhor lhe seria amarrar uma pedra de moinho no pescoço e se afogar nas profundezas do mar.

Por último, tenho de considerar o bebê que foi morto. Tenho lido as considerações jurídicas, médicas, ideológicas. Mas, no final de tudo isso, uma criança foi morta. O fato de ser legal (juridicamente falando) não torna isso correto. Entendo as considerações de saúde, muito embora eu saiba que neste, como em outros casos, opiniões médicas são divergentes. No entanto, crendo que a vida começa na concepção, não posso aprovar um procedimento que encerre a vida. Não digo isso sem considerar a dor da menina, não digo isso apontando um caminho mais fácil, me posiciono assim pensando indicar um caminho mais justo para com este bebê de 5 meses. A este bebê (uma menina), com base no Salmo 139, eu imagino Deus dizendo:

“Eu te fiz de modo especial e admirável, minha pequena. Tu não foste meramente fruto de um estupro, mas uma expressão do meu próprio coração. Minhas obras são maravilhosas e tu também o és! Disso tenho plena certeza. Teus ossos não estavam escondidos de mim quando em secreto te formei e teci. Eu te vi ainda como embrião; toda tua curta vida estava anotada em meus livros antes de qualquer deles existir. Até mesmo o dia em que homens decidiram que era mais fácil te eliminar do que lidar com o custo da tua existência.”

Eventos assim me fazem ansiar pelo dia em que toda lágrima será enxugada (Apocalipse 21.4), dia em que autoridades não tenham que decidir entre tragédia ou morte. Enquanto isso, ao tomar conhecimento de eventos assim, a saudade de casa aperta meu coração... Minha oração é que tanto esta menina, como sua família e até mesmo este abusador venham a conhecer a salvação e o perdão de pecados em Jesus. Então naquele dia vamos todos estar diante de Deus perdoados, restaurados e transformados pelo sangue de Jesus. Até lá, querida bebê, seja acolhida nos braços do teu verdadeiro Pai.

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Daniel Lima foi pastor de igreja local por mais de 25 anos. Formado em psicologia, mestre em educação cristã e doutorando em formação de líderes no Fuller Theological Seminary, EUA. Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida por 5 anos, é autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem 4 filhos, uma neta e vive no Rio Grande do Sul desde 1995.

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