Quem sabe não foi para um momento como este?

Daniel Lima

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Tenho amigos que cancelaram a cerimônia de casamento devido à pandemia; ouvi de outro casal que decidiu adiar o casamento inteiro, não só a cerimônia. Pessoalmente, a quase totalidade de meus compromissos para pregar e para conferências (de onde vem metade do meu sustento) foi cancelada ou adiada indefinidamente. Viagens são desmarcadas; lançamento de produtos, suspensos; investimentos em novas oportunidades, abandonados... Em resumo, a pandemia transtornou no mínimo a agenda de todo mundo.

Com isso é natural para aqueles que perderam uma excelente oportunidade o questionamento: por que eu? Por que agora? Por que essa pandemia não veio há um ou dois anos ou daqui um ou dois anos? Eu creio que crises revelam caráter. Nossas reações diante das crises podem desenvolver nosso caráter. Auto proteção pode não ser sempre a melhor resposta.

Lendo Moisés, Vendo Jesus

Esta situação me fez lembrar da história da rainha Ester, no livro do mesmo nome na Bíblia. A história é bem conhecida. Hamã, principal dos nobres, conseguiu a aprovação do rei Assuero de um plano para exterminar os judeus. O primo de Ester, Mardoqueu, conseguiu falar com ela e pediu que ela intercedesse diante do rei pelo povo judeu. A resposta de Ester foi relembrar seu primo que ninguém podia entrar na presença do rei sem ser chamado. A pena para este ato poderia ser a morte, a não ser que o rei concedesse o perdão.

Em uma situação assim, casada com um rei pagão, meio paranoico, para quem o mero entrar em sua presença sem ser chamado era passível de pena de morte, eu diria que ela foi muito sensata! Ela poderia pensar: “Deus me colocou nesta posição para um propósito e não para arriscar minha vida”. Proteger minha vida e usar minha posição e meus recursos para influenciar é a melhor mordomia, ou não? Para responder, quero me concentrar na resposta de Mardoqueu. Em Ester 4.13-14 lemos que, após ouvir os temores da jovem que criara como filha, ele diz:

Não pense que pelo fato de estar no palácio do rei, você será a única entre os judeus que escapará, pois, se você ficar calada nesta hora, socorro e livramento surgirão de outra parte para os judeus, mas você e a família do seu pai morrerão. Quem sabe se não foi para um momento como este que você chegou à posição de rainha?

Sua resposta apresenta alguns princípios sobre os quais nós também devemos refletir:

  1. Não busque a auto proteção como prioridade. Esta é nossa tendência humana. O instinto de sobrevivência é muito forte. Nosso primeiro pensamento diante de uma crise está em proteger a nós mesmos e aos nossos queridos. Nesta crise, quando ameaças tanto de doença como de escassez financeira vêm à mente, qual é seu primeiro pensamento: como posso ser útil para Deus, ou como posso garantir o que é meu?

  2. Aproveite a oportunidade de ser bênção. Mardoqueu não tinha dúvida que Deus iria trazer livramento. Sua única consideração era se Ester queria ser bênção ou não. Não sabemos tudo o que Deus vai fazer. É bem provável que tenhamos muito sofrimento no futuro. Nós queremos ser parte da solução? Eu creio que o desafio de Deus para nós é sermos generosos, é nos arriscarmos pelo bem-estar de outros. Deus vai fazer algo e, mesmo com temor, eu quero ser parte da benção que ele vai trazer.

  3. Deus te colocou onde você está com um propósito. Eu creio que Ester não havia chegado à posição de influência sobre o rei por acaso – e o livro demonstra que ela era uma peça chave na solução de Deus. Por que Deus nos concedeu os recursos que ele concedeu? Para termos mais conforto? Por que ele nos colocou nas posições que colocou? Para que tivéssemos mais privilégios? Ou será que ele nos colocou onde colocou para sermos bênçãos?

Eu temo que – em tempos de crise – muitos cristãos ficarão no palácio orando pelos judeus que serão massacrados, mas não terão ousadia de se colocar nas mãos de Deus para que ele nos use como quiser. A decisão de Ester é corajosa. Repare que ela não só pede um período de oração como conclui: “Depois disso irei ao rei, ainda que seja contra a lei. Se eu tiver que morrer, morrerei”.

Deus permitiu essa pandemia exatamente nesta época. Você não está vivo e na posição em que está por acaso. Eu creio que Deus coordenou toda a existência para que, estando onde você está, você fosse parte da bênção que ele quer trazer. Sua parte pode ser cuidar de alguém vulnerável, pode ser dedicar horas a mais em seu emprego na área da saúde ou em alguma outra função essencial. Sua participação pode ser olhar seu armário, sua despensa ou seus investimentos e se perguntar: “Quem sabe não foi para um momento como este?”. Minha oração é que a sua resposta e a minha resposta sejam como a da jovem Ester: “Vou me dispor nas mãos de Deus. Se tiver que morrer, morrerei!”.

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Daniel Lima foi pastor de igreja local por mais de 25 anos. Formado em psicologia, mestre em educação cristã e doutorando em formação de líderes no Fuller Theological Seminary, EUA. Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida por 5 anos, é autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem 4 filhos, uma neta e vive no Rio Grande do Sul desde 1995.

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