Se Deus é Bom e Poderoso, Por Que Existe o Mal?

Daniel Lima

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É consenso entre educadores de todas as linhas partidárias que o fechamento das escolas durante a pandemia tem gerado um atraso de anos na educação de muitas crianças brasileiras. Segundo a Unicef, o Brasil corre o risco de regredir duas décadas no acesso à educação. Imagine então o atraso na educação de crianças na Ucrânia, que, logo após a pandemia, enfrenta desde o começo do ano um ataque sistemático a escolas e outras infraestruturas fundamentais à educação. Ainda segundo a Unicef (nem sempre a agência mais confiável), “a cada dia, uma média de cinco crianças são mortas ou feridas na Ucrânia. Desde a escalada da guerra, há quase seis meses, pelo menos 972 menores foram vítimas dos confrontos”.

E isso é apenas mais um país, mais uma guerra. Poderíamos falar de crianças abusadas, usadas por exploradores sexuais, vítimas de doenças ainda incuráveis etc. Qualquer pessoa com o mínimo de sensibilidade passa em algum momento pela pergunta exposta no título deste artigo. Como pode um Deus bom permitir tanto sofrimento?

O filósofo grego Epicuro apresentou assim o dilema:

  • Se Deus deseja remover o mal e não consegue, é um Deus fraco.

  • Se Deus é capaz de remover o mal, mas não deseja, é um Deus mau.

  • Se Deus não deseja nem é capaz de remover o mal, ele não é Deus.

  • Se ele deseja remover o mal e é capaz de fazê-lo, por que não faz?

Embora essas três afirmativas (Deus é bom, Deus é poderoso e o mal existe) pareçam contraditórias, elas na verdade expressam um mistério. Uma contradição é uma afirmação que nega a si mesma, um mistério é um conjunto de afirmações que desafiam nossa capacidade de conciliá-las. Assim, se afirmamos que Jesus é Deus e, ao mesmo tempo, que Jesus não é Deus, temos uma contradição. Se afirmamos que Jesus é Deus e, ao mesmo tempo, que Jesus é homem, temos um mistério. A fé é repleta de mistérios, desde a Trindade, até o problema do mal.

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Essa argumentação pode oferecer uma resposta lógica ao problema do mal, ou seja, precisamos afirmar tanto a bondade de Deus (Marcos 10.18), como seu poder (Romanos 1.20), como a existência do mal (1João 5.19). Mas esse raciocínio não traz consolo ao coração que enfrenta o sofrimento. Um pai que tem que acompanhar seu filho a sessões aparentemente intermináveis de quimioterapia não se consola com afirmações sobre a bondade de Deus, por mais verdadeiras que sejam.

A fé é repleta de mistérios, desde a Trindade, até o problema do mal.

A reação emocional ao sofrimento, ao mal, é ilustrada de forma evidente nas palavras de Jesus em Marcos 15.34: “Eloí, Eloí, lemá sabactani?”, que significam: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”. Jesus estava citando o primeiro verso do salmo 22, que é um salmo de lamento. Esse tipo de salmo compõe um terço do livro. No entanto, não são os mais celebrados e lembrados. Salmos de lamento são expressões de uma alma angustiada. Expressam cansaço, inquietude, aflição. Como uma amiga disse certa vez: “São desabafos da alma”. Nesses salmos o autor reclama, apresenta sua queixa e em alguns momentos pergunta: “Por que me abandonaste?”. No entanto, não devem ser confundidos com falta de fé ou blasfêmia. O autor Jonas Madureira escreve:

“A lamentação é o contrário de uma oração ‘bonitinha’, politicamente correta. Ela é feia, melancólica, questionadora e às vezes chega a ser quase petulante. Mas não confunda lamentação com murmuração! A murmuração é uma oração vil, sempre presente na boca de um incrédulo, de um descrente. É a afirmação de uma fé que se perdeu; por isso não passa de verborragia agressiva, apóstata e irremediavelmente revoltada contra a soberania de Deus. Na murmuração, não há amor nem fé; só ressentimento, ódio de Deus, ofensa barata e comparações gratuitas.”

Salmos de lamento são expressões de uma alma angustiada. Expressam cansaço, inquietude, aflição. São desabafos da alma.

Acredito que evitamos os salmos de lamento pois estes evidenciam nossa fragilidade e dependência de Deus. É exatamente nos momentos de sofrimento, de enfrentarmos o mal, que nossa relação com o Pai, com o Bom Pastor, se torna mais nítida. Sentimos a presença do Pastor nos pastos verdejantes, mas no vale de sombra e morte nos “penduramos” em suas mãos.

O problema do mal é um tema vasto e complexo (os temas mais profundas da vida sempre são). Minha oração por mim e por você é que saibamos recorrer ao autor e consumador de nossa fé em todos os momentos, especialmente quando enfrentamos um mal que nos surpreende.

Notas

  1. “As principais consequências da pandemia na educação”, Instituto Alicerce, 14 jan. 2022. Disponível em: https://blog.institutoalicerceedu.org.br/universo-instituto-alicerce/cenario-educacional/as-principais-consequencias-da-pandemia-na-educacao/?gclid=CjwKCAjwqJSaBhBUEiwAg5W9p7_eRygXDMnoNpb_mOVnlluzB55T-G6vOXEQt-SRzke0pezaHHZX0hoCO3UQAvD_BwE.

  2. “Unicef: guerra na Ucrânia deixou quase mil crianças mortas ou feridas”, ONU News, 22 ago. 2022. Disponível em: https://news.un.org/pt/story/2022/08/1798762.

  3. Jonas Madureira, Inteligência Humilhada (São Paulo: Vida Nova, 2017), edição do Kindle, p. 170.

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Daniel Lima (D.Min., Fuller Theological Seminary) serviu como pastor em igrejas locais por mais de 25 anos. Também formado em psicologia com mestrado em educação cristã, Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida (SBPV) por cinco anos. É autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem quatro filhos, dois netos e vive no Rio Grande do Sul desde 1995. Ele estará presente no 25º Congresso Internacional Sobre a Palavra Profética, organizado pela Chamada.

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