Quando é legítimo julgar?

Daniel Lima

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Como seres humanos, vamos sempre ter divergências de opinião entre nós. Pode ser algo tão prosaico como passas na comida ou tão relevante como limites em relacionamentos. Algumas dessas divergências são mais motivo de piadas e risadas, outras, no entanto, chegam a causar conflitos e mesmo rupturas. Apesar do que possa parecer, ninguém gosta de conflitos.

Existem duas soluções comuns para se evitar esses conflitos. Uma é simplesmente não conviver com pessoas. Embora possa parecer uma solução simplista, deixe-me dizer que muitos (mesmo em nossas igrejas) optam por manter um distanciamento. Essa é, obviamente, uma solução tola, pois ao mesmo tempo em que evita conflitos você evita também os prazeres e benefícios de um relacionamento humano. Outra solução igualmente simplista, mas também ingênua, é nunca discordar de ninguém. Mais uma vez, essa postura talvez evite conflitos com outros, mas de forma geral faz com que o relacionamento se torne superficial e tenha um componente de falsidade.

Afinal, o que fazer? Jesus realmente afirma em Mateus 7.1: “Não julguem, para que vocês não sejam julgados”. Como pastor, já fui acusado de quebrar esse mandamento ao confrontar um irmão que estava em flagrante pecado. Acredito que o mandamento acima se refere a “condenar” pessoas. Realmente, não nos cabe condenar outros, pois somos tão pecadores como a próxima pessoa. 

Essa é uma primeira e fundamental instrução quanto a julgamentos: não julgar pela aparência.

Há, no entanto, pelo menos duas passagens que devem ser estudadas ao se considerar a questão do julgamento de outros. A primeira é João 7.24, onde Jesus, ao ser confrontado pelos judeus por realizar milagres no sábado, responde que também eles realizavam suas obras no sábado. Finalmente, ele conclui: “Não julguem segundo a aparência, mas julguem pela reta justiça”. É evidente que Jesus não está condenando o julgamento, mas qualificando que um julgamento não deve se basear apenas na aparência, mas sim na justiça de Deus. Essa é uma primeira e fundamental instrução quanto a julgamentos: não julgar pela aparência. Essa é uma tendência muito comum e infelizmente muito praticada em nossas igrejas. Toda vez que fazemos um julgamento precipitado e baseado em aparências ofuscamos a justiça de Deus (Tiago 1.19-20).

Uma segunda passagem que trata diretamente da questão do julgar é 1Coríntios 5.9-13:

Na outra carta, já escrevi a vocês que não se associassem com os impuros. Refiro-me, com isto, não propriamente aos impuros deste mundo, aos avarentos, ladrões ou idólatras, pois, neste caso, vocês teriam de sair do mundo. Mas, agora, escrevo a vocês que não se associem com alguém que, dizendo-se irmão, for devasso, avarento, idólatra, maldizente, bêbado ou ladrão; nem mesmo comam com alguém assim. Pois com que direito haveria eu de julgar os de fora? Mas será que vocês não devem julgar os de dentro? Os de fora, esses Deus julgará. Expulsem o malfeitor do meio de vocês.

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Paulo está lidando com pecado escandaloso no meio da igreja. Pecado que estava sendo tolerado e talvez até apontado como expressão de liberdade. Ele, movido pelo Espírito Santo, confronta essa atitude e afirma que devemos afastar essa pessoa da comunhão. Rapidamente, ele qualifica que não está falando a respeito de incrédulos ou não cristãos. Quando esses pecam, estão apenas manifestando sua natureza. Sua instrução é diretamente com respeito aos irmãos que, dizendo-se seguidores de Jesus, negam seu poder e sua autoridade ao se entregarem a uma vida imoral.

No verso 12 ele apresenta um aparente paradoxo: “Pois com que direito haveria eu de julgar os de fora? Mas será que vocês não devem julgar os de dentro?”. A instrução é clara para não julgarmos os de fora. No verso 13, ele explica que Deus os julgará. No entanto, a mesma clareza é usada quanto aos de dentro, os quais somos chamados a julgar. É importante destacar uma vez mais que esse julgamento não é condenatório. Somente Deus pode condenar alguém e sobre nós cristãos não há mais condenação (Romanos 8.1). 

Uma igreja que não exerce seu chamado para disciplinar aquele que não se arrepende não está só desobedecendo ao Senhor, como também sacrificando sua própria saúde espiritual.

Como igreja, somos chamados sim a avaliar e discernir comportamentos que se alinham com a santidade de Deus e comportamentos que ofendem ao nosso Deus. Uma vez identificado um comportamento “desalinhado” com a santidade de Deus, devemos abordar esse irmão e incentivá-lo a retornar aos caminhos de Deus (2Timóteo 2.24-26). Com frequência ao fazer isso tenho sido testemunha de confissões, arrependimentos sinceros e declarações de desejo de continuar caminhando rumo à santidade, mesmo com erros e recaídas. Infelizmente, também houve várias vezes em que aquele que se dizia irmão rejeitou a exortação, justificou seu pecado e afirmou que continuaria neste. Esses são os contextos em que os versos acima se aplicam. Esses são os contextos em que a igreja deve exercer disciplina. Uma igreja que não exerce seu chamado para disciplinar aquele que não se arrepende não está só desobedecendo ao Senhor, como também sacrificando sua própria saúde espiritual.

Minha oração é que, como cristãos, evitemos os dois extremos. Por um lado, uma atitude julgadora e condenatória. Precisamos nos lembrar que nossa justiça está em Cristo e que longe de Cristo somos os piores pecadores. A outra atitude a evitarmos é a posição tão defendida pelos “politicamente corretos”, onde não podemos discordar de nada e não podemos confrontar ninguém, pois isso seria “julgamento”. Que nossos discernimentos sejam baseados na Palavra e expressos no mais profundo amor.

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Daniel Lima foi pastor de igreja local por mais de 25 anos. Formado em psicologia, mestre em educação cristã e doutor em formação de líderes no Fuller Theological Seminary, EUA. Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida por 5 anos, é autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem 4 filhos, uma neta e vive no Rio Grande do Sul desde 1995.

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