Quando Acabe Assume o Trono

Daniel Lima

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Entre as trechos da Bíblia, um que sempre me assombra é a linhagem dos reis de Israel do reino do norte. Dos dezenove reis, todos, sem exceção, fizeram o que Deus reprovava. O sistema político da época não era democrático, mas monárquico e autoritário. Ou seja, o povo não decidia quem iria reinar. No entanto, como hoje, o povo sofria as consequências das decisões de suas autoridades. Dentre essa coleção de reis perversos, um ocupa um lugar de destaque. Segundo 1Reis 21.25-26: 

“Nunca existiu ninguém como Acabe que, pressionado por sua mulher, Jezabel, vendeu-se para fazer o que o Senhor reprova. Ele se comportou da maneira mais detestável possível, indo atrás de ídolos, como faziam os amorreus, que o Senhor tinha expulsado de diante de Israel.”

Há algum tempo, preguei uma mensagem sobre como devemos reagir quando Acabe assume o trono. Diante da grande reação negativa de tantos cristãos quanto ao resultado das eleições, eu gostaria de traçar aqui algumas considerações. Apresso-me a dizer que não estou necessariamente comparando Acabe com o presidente recém-eleito, mas com a frustração de muitos ao ver alguém que consideram ímpio assumir o governo da nação. Minha pergunta é: “Como devemos reagir diante da frustração quanto a nossos governantes?”. Creio que a Bíblia tem muito a nos ensinar a esse respeito.

1. Viver como cidadão do reino

A primeira consideração que encontramos na Bíblia é que nossa cidadania não é daqui. Paulo, em Filipenses 1.27-28a, nos exorta:

“Não importa o que aconteça, exerçam a sua cidadania de maneira digna do evangelho de Cristo, para que assim, quer eu vá e os veja, quer apenas ouça a seu respeito em minha ausência, fique eu sabendo que vocês permanecem firmes num só espírito, lutando unânimes pela fé evangélica, sem de forma alguma deixar-se intimidar por aqueles que se opõem a vocês.”

Ser cidadão do reino não significa sermos omissos na terra, mas significa que nossa lealdade, em última análise, está com o evangelho, e não com uma ou outra proposta política. Isso significa que seja um governo ou outro que esteja no poder, meu modo de viver deve ser digno, não deste governo, mas do evangelho. 

Seja um governo ou outro que esteja no poder, meu modo de viver deve ser digno, não deste governo, mas do evangelho. 

Repare ainda os dois conselhos adicionais de Paulo: unidade e ousadia. Unidade no sentido de que, como igreja, não podemos nos deixar dividir por alianças político-partidárias. Ainda que você concorde mais com uma linha do que com outra, permitir que essa perspectiva o afaste ou o faça rejeitar irmãos em Cristo indica que não estamos vivendo nossa cidadania de maneira digna do evangelho.

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O segundo conselho de Paulo é que não sejamos intimidados por aqueles que se opõem. Percebo em muitos um medo muito grande do que o futuro nos reserva. Entendo isso e, em parte, compartilho desse medo, mas, por outro lado, entendo que a Bíblia já nos avisou que dias piores virão antes do fim e também que o próprio Deus estará conosco nesses dias. Acredito que, nestes dias, somos chamados a confiar naquele que prometeu nunca nos abandonar.

2. Respeito às autoridades

A Bíblia também nos instrui a respeitar autoridades. No clássico texto de Romanos 13.1, Paulo escreve: “Todos devem sujeitar-se às autoridades governamentais, pois não há autoridade que não venha de Deus; as autoridades que existem foram por ele estabelecidas”. Cumpre lembrar que, ao escrever este texto, inspirado pelo Espírito Santo, Paulo vivia sob o governo do Império Romano, famoso por sua corrupção, arbitrariedade, autoritarismo, e onde o racismo era política pública. Ou seja, Paulo não estava escrevendo a partir de uma situação ideal, onde governantes professassem qualquer simpatia pelo evangelho ou por cristãos. Pelo contrário, cristãos eram perseguidos com o apoio do estado.

“Todos devem sujeitar-se às autoridades governamentais, pois não há autoridade que não venha de Deus; as autoridades que existem foram por ele estabelecidas”. (Romanos 13.1)

A Bíblia é clara ao afirmar que devemos respeitar as autoridades. Isso não significa concordar, bajular, ou, de alguma forma, atribuir a estas qualquer qualidade sobre-humana. É possível sim, respeitar sem concordar, respeitar mesmo se opondo ou criticando. Para muitos de nós, cristãos, seremos testados nesse quesito durante os próximos anos.

3. Oração

Por fim, uma terceira consideração deve ser feita com respeito ao nosso papel diante de um governo com o qual não concordamos. É a exortação de Paulo em 1Timóteo 2:1-2: “Antes de tudo, recomendo que se façam súplicas, orações, intercessões e ações de graças por todos os homens; pelos reis e por todos os que exercem autoridade, para que tenhamos uma vida tranquila e pacífica, com toda a piedade e dignidade”.

Afirmando que nosso Deus continua soberano (ele não foi derrotado nas eleições), todo cristão deve voltar-se para ele, não só apresentando suas súplicas, mas também deixando-se moldar pela ação do seu Santo Espírito. Somos chamados a exercer o papel de sacerdotes ao interceder por todos os homens, especialmente por governantes. O propósito final é que tenhamos uma vida tranquila e pacífica. 

Não sei como está o seu coração, mas eu gostaria de encorajá-lo a se voltar ao Pastor de nossas almas. Ele tem o nosso futuro garantido. Busque a Deus, confie que, apesar de tempos turbulentos, ele continua Deus todo-poderoso e todo amoroso. Minha oração é que eu e você possamos nos render a ele e sermos exemplos e proclamadores de sua graça e de seu amor.

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Daniel Lima (D.Min., Fuller Theological Seminary) serviu como pastor em igrejas locais por mais de 25 anos. Também formado em psicologia com mestrado em educação cristã, Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida (SBPV) por cinco anos. É autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem quatro filhos, dois netos e vive no Rio Grande do Sul desde 1995. Ele estará presente no 25º Congresso Internacional Sobre a Palavra Profética, organizado pela Chamada.

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