Preconceito e Segurança

Daniel Lima

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O horário passava das dez horas da noite. Havíamos acabado de sair de um evento em uma igreja. Éramos cerca de duas dúzias de pessoas de várias idades na calçada, conversando antes de irmos para casa. De repente avistamos três adolescentes negros vestindo roupas simples, bonés e capuzes. Caminhavam rindo e falando alto e iriam passar pela calçada onde estávamos. A reação do grupo, temendo um assalto, foi entrar rapidamente de volta na igreja. Eu e outro amigo ficamos na calçada e, quando os jovens passaram, um deles falou em voz alta: “Isso mesmo, crente é tudo preconceituoso”! Meu amigo foi atrás dos jovens e começou uma conversa que terminou com os jovens aceitando um convite para entrar na igreja e fazer um lanche. Fiquei pensando em como é que um grupo de seguidores de Jesus, comprometidos com o amor dele e com alcançar pessoas perdidas, pode reagir com tanto preconceito? A única justificativa foi o tema segurança.

O ser humano tem uma tendência natural ao reducionismo. Explico: tendemos a simplificar ou reduzir todo problema que enfrentamos. Na verdade, isso é um mecanismo para “economizar” o cérebro. A mente humana classifica ao longo da vida situações de perigo. Essa classificação é feita por meio de sinais que aprendemos a identificar como perigosos. Esse processo ocorre para que possamos reagir com maior rapidez às situações que nossa história identifica como perigosas ou desconhecidas. Por exemplo, uma pessoa que já passou perto de se afogar terá medo de entrar na água, mesmo que seja rasa.

Andar em fé significa caminhar desafiando nossos preconceitos, arriscando amar e se aproximar daqueles que fomos ensinados a não amar.

O problema ocorre quando levamos este processo de identificação do perigo e de reações habituais para o âmbito dos relacionamentos. Por exemplo, podemos ao longo da vida aprender que certo tipo de pessoa é perigoso, seja por experiência própria, seja por valores passados por família e sociedade. (Mas não devemos ser ingênuos, e eu aconselharia qualquer pessoa, numa situação em que se sinta ameaçada, a reagir com todo cuidado.) Ao mesmo tempo, eu sei que esses sinais podem estar completamente errados.

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Esse é o problema do preconceito. É quando eu generalizo uma percepção e amplio a todo um grupo. Isso se torna ainda mais nefasto quando toda uma sociedade afirma esses temores. A partir daí o preconceito se torna estrutural. O que a Bíblia nos ensina sobre preconceitos? Como podemos e devemos reagir de forma a sermos cuidadosos, pois não queremos ser tolos, mas ao mesmo tempo demonstrar nossa confiança em Deus e nosso compromisso em demonstrar seu amor? Como a Bíblia nos orienta quanto ao nosso reducionismo? Deixe-me alistar algumas considerações:

  1. Deus está sempre cuidando de nós. O apóstolo Paulo afirma em Romanos 8.28 que tudo coopera para o nosso bem. O fato é que, como cristãos morando em cidades, seremos assaltados, seremos ameaçados, enfrentaremos situações de risco. No entanto, cremos que nosso Deus soberano está conosco em cada uma dessas situações (Salmo 23). Sendo assim, nossa reação a qualquer situação deve incluir esse cuidado de Deus sobre nós. Ou seja, o simples sentimento do perigo não deve determinar uma reação hostil; afinal, Deus mesmo decidiu correr o risco de nos amar.

  2. Devemos ser cuidadosos. Provérbios 22.3 diz: “O prudente percebe o perigo e busca refúgio; o inexperiente segue adiante e sofre as consequências”. É óbvio que o fato de sermos cuidados por Deus não é argumento para sermos negligentes quanto ao perigo. O autor de Provérbios diz que os inexperientes (ou tolos) é que fazem isso. Devemos tomar cuidado dentro de nossas possibilidades, mesmo reconhecendo que nunca poderemos evitar todo e qualquer perigo. Depois de termos tomado todo o cuidado que podemos, devemos confiar o restante a Deus.

  3. Cuidado com o preconceito. Ao mesmo tempo, Pedro nos ensina, em 1Pedro 1.18, que fomos “redimidos da sua maneira vazia de viver, transmitida por seus antepassados”. Muito do que herdamos de nossa cultura é “maneira vazia de viver”, mesmo quando ensinado com as melhores intenções. A Palavra nos exorta em Tiago 2.1: “Meus irmãos, como crentes em nosso glorioso Senhor Jesus Cristo, não façam diferença entre as pessoas, tratando-as com parcialidade”. Por sermos crentes em Cristo, somos chamados a não fazer diferença entre pessoas, mesmo sob o pretexto da segurança.

  4. Caminhe em fé. Nossa jornada neste mundo não é baseada no que vemos, mas na fé (2Coríntios 5.7). A fé de que nosso Senhor está cuidando de cada aspecto das nossas vidas. A Palavra nos exorta a tratarmos pessoas sem distinção (Tiago 2.1), nos ensina que em Cristo não há distinção (Gálatas 3.28), nos chama a amar não apenas nossos amigos e semelhantes, mas também os estrangeiros, os diferentes (Mateus 5.46-47). Andar em fé significa caminhar desafiando nossos preconceitos, arriscando amar e se aproximar daqueles que fomos ensinados a não amar.

O tema do preconceito é muito mais amplo, mas um princípio bastante seguro é que somos chamados primariamente a amar a Deus e o nosso próximo. O desafio desta reflexão é que você e eu ousemos no Senhor ao enfrentar nossos preconceitos e realizarmos atos de amor verdadeiro por aqueles de quem, normalmente, não nos aproximaríamos.

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Daniel Lima foi pastor de igreja local por mais de 25 anos. Formado em psicologia, mestre em educação cristã e doutorando em formação de líderes no Fuller Theological Seminary, EUA. Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida por 5 anos, é autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem 4 filhos, uma neta e vive no Rio Grande do Sul desde 1995.

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