Os três reis magos eram “três reis magos”?

David A. Croteau

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“Três reis magos do oriente a sós, com presentes viemos nós. Entre montes, campos, fontes, de linda estrela após.” Provavelmente composta em 1857, mas aparecendo impressa somente em 1863, essa famosa canção de Natal foi escrita por John Henry Hopkins, que se tornou sacerdote da Igreja Episcopal. Foi a música de destaque em um concurso de Natal que ele organizou. O reverendo Hopkins conseguiu escrever uma letra e compor uma melodia que capturaram muito bem o texto da Escritura. Que música maravilhosa!

A primeira linha desse hino traz três perguntas à mente:

  1. “Três” – Havia realmente três?
  2. “Reis” – Eles eram reis?
  3. “Do oriente” – Eles vieram do oriente?

Quando eu estava na faculdade, estava ouvindo J. Vernon McGee no rádio enquanto dirigia para a casa de um amigo. Ao ensinar sobre Mateus 2, ele mencionou que não havia três reis magos. Meu carro desviou na estrada enquanto eu exclamava em voz alta: “Não são três reis magos?!”. Todas as cenas da manjedoura que eu já havia visto tinham três reis magos. Perguntei-me se ele estava negando a Bíblia. Então, ele leu o versículo, e eu pensei: por que eu achava que havia três reis magos? Fiquei simplesmente estupefato, abalado em minha fé.

Quero investigar a primeira linha dessa canção de Natal e compará-la com o que está escrito na Escritura. Mateus 2.1 diz: “Tendo Jesus nascido em Belém da Judeia, nos dias do rei Herodes, eis que vieram uns magos do Oriente a Jerusalém”. O versículo 7 diz: “Com isto, Herodes, tendo chamado os magos para uma reunião secreta, perguntou-lhes sobre o tempo exato em que a estrela havia aparecido”. O versículo 16 menciona os magos mais duas vezes, do total de quatro vezes nessa passagem. O que podemos extrair a respeito dos “três reis do oriente” em Mateus 2.1? A palavra utilizada, “magos”, referindo-se a sacerdotes da antiga Média e Pérsia, está no plural; logo, havia mais de um. Outras versões traduzem por “sábios”. Nenhuma tradução utiliza “reis”. O texto original também diz que eles vieram do “leste”; não há menção ao “Oriente”. Isso é o que a Escritura diz.

Textos de apoio sobre os magos

A maioria dos estudiosos acredita que a menção a três presentes fez que muitas pessoas na história da igreja presumissem que havia três magos. De fato, os “três reis magos” receberam nomes: Melquior (supostamente rei da Arábia), Baltazar (supostamente rei da Pérsia) e Caspar ou Gaspar (supostamente rei da Índia). Três documentos antigos mencionam alguns detalhes sobre esses “três reis”. O Evangelho armênio da infância de Jesus, que foi escrito por volta de 600 d.C., menciona os três nomes. O segundo documento é um texto grego escrito em Alexandria, no Egito, por volta de 500 d.C. A tradução para o latim (intitulada Excerpta Latina Barbari) também inclui esses nomes. Algumas pessoas propuseram que esses são textos legítimos, sobre os quais se pode basear essa conclusão, mas há outro documento com o qual muitas pessoas não estão tão familiarizadas: a Revelação dos magos. Esse documento foi escrito no século VIII em siríaco. Foi mantido na biblioteca do Vaticano por muitos anos e recentemente traduzido para o inglês.1 O tradutor acredita que o texto remonta a um documento da metade do século II (eu permaneço sem me convencer). Ele foi escrito como se os próprios magos fossem seus autores. Embora não seja uma fonte confiável para interpretar a Escritura, possui alguns detalhes interessantes a respeito desses homens. Primeiro, o que caracteriza os magos é que eles oram em silêncio, o que era anormal durante aquela época. Segundo, há doze ou mais magos, talvez até quarenta ou cinquenta no grupo. Terceiro, eles eram de “Shir”, possivelmente uma referência à China. Quarto, eles eram descendentes de Sete, o terceiro filho de Adão e Eva. Por serem descendentes de Sete, eles tinham conhecimento de uma antiga profecia transmitida oralmente de geração em geração, sobre uma estrela que apareceria proclamando que Deus viria em forma humana. Esses são alguns pontos de destaque da Revelação dos magos, uma fonte não confiável para se interpretar o texto do Novo Testamento.

Todas as teorias e tradições que defendem que havia três magos são baseadas em documentos tardios e duvidosos. Uma tradição alternativa afirma que havia pelo menos doze, mas não há uma tradição uniforme ao longo da história da igreja.

Não há motivo razoável para se crer que houvesse três magos.

Creio que é improvável que houvesse apenas três magos. Embora eu não tenha provas, penso que existem evidências convincentes. Não há motivo razoável para se crer que houvesse três magos. Por um lado, se três homens estivessem viajando centenas de quilômetros com presentes caros, não teria sido sábio que eles fossem em um grupo de apenas três. Por outro lado, eles poderiam ter levado uma comitiva consigo. Embora, teoricamente, pudessem ser três, também poderiam ser trinta. Simplesmente não sabemos o número preciso.

Quem eles eram e de onde vieram?

Esses homens eram reis, magos ou sábios? Eles são conhecidos como reis por causa da canção de Natal, mas o pai da igreja Tertuliano (m. 225 d.C.) também se referiu a eles como reis. Não sabemos ao certo por que ele acreditava nisso. Independentemente, em Daniel 2, a palavra grega para magos é usada para traduzir um termo hebraico que significa “astrólogo” (cf. Daniel 2.2,10). Várias centenas de anos antes do Novo Testamento, magos referia-se a astrólogos, mas palavras podem mudar de significado ao longo do tempo. Na época do Novo Testamento, os magos eram muito provavelmente não judeus, religiosos e (possivelmente) sacerdotais. Eles eram habilidosos em várias áreas, incluindo astronomia, astrologia, interpretação de sonhos, adivinhação do futuro e mágica ou divinação. Isso é o que caracterizava os magos.

Os magos em Mateus 2 provavelmente não eram judeus, uma vez que não conheciam as Escrituras do Antigo Testamento. Eles pediram a Herodes que os informasse a respeito do local de nascimento do Messias. Eles aparentam ser eruditos religiosos com habilidade em astronomia. Eles tiveram alguns sonhos enquanto visitavam Jesus; então, ao que parece, conseguiam interpretar sonhos. Eles provavelmente interpretaram que as estrelas indicavam que um grande rei judeu estava para nascer. O estudioso do Novo Testamento Craig Blomberg diz: “Eles combinaram observação astronômica com especulação astrológica”.2

Os magos eram do Oriente? A resposta pode depender do que você quer dizer com a palavra “Oriente”. Anos atrás, essa palavra referia-se a qualquer lugar a leste do Mediterrâneo. Agora, refere-se geralmente ao leste da Ásia, próximo à China. Se a intenção for utilizar a última definição, então a resposta é provavelmente não. Contudo, eles eram de uma área a leste de Israel. Dado que a astronomia era prevalente na Pérsia, e isso parece ter desempenhado um papel na condução dos magos a Israel, talvez se possa argumentar que eles realmente vieram da Pérsia. Contudo, os três presentes que eles trouxeram (ouro, incenso e mirra) os conecta à Arábia. Uma vez que parecem saber algo sobre o judaísmo, talvez houvesse uma comunidade de judeus em sua terra natal que lhes forneceu passagens do Antigo Testamento (como Nm 24.17), as quais os levaram a ler as estrelas como apontando para o nascimento de um rei judeu.3 Isso indicaria a Babilônica como sua origem. No final das contas, não podemos ter certeza, mas penso que a Babilônia e a Arábia são mais prováveis. Essa jornada provavelmente teria levado vários meses, desde decidir que queriam partir, arranjar os suprimentos e empreender a longa viagem.

Pode ter havido três magos, ou pode ter havido trinta. Eles não eram reis, mas astrônomos, astrólogos e intérpretes de sonhos. Eles eram do leste, mas o termo “Oriente” é enganoso.

O ponto principal de Mateus 2: adorar o Rei

O foco de Mateus não é no número, origem ou identidade dos magos, e é provavelmente por isso que ele é tão ambíguo quanto alguns dos detalhes que queremos saber. Seu ponto principal é comunicar que esses homens não judeus vieram adorar a Jesus, o rei. Mateus 2.2 diz: “Onde está o recém-nascido Rei dos judeus? Porque vimos a sua estrela no Oriente e viemos para adorá-lo”. Eles estão procurando adorar um rei.

O foco de Mateus não é no número, origem ou identidade dos magos. Seu ponto principal é comunicar que esses homens não judeus vieram adorar a Jesus, o rei.

A adoração recebida por Jesus é um tema que se repete algumas vezes no evangelho de Mateus. É mencionada pelo menos seis vezes, incluindo essa passagem (Mateus 2.2,8,11; 14.33; 28.9,17). Perto do início do evangelho, em 2.2, Mateus menciona os magos vindo de fora da terra de Israel para adorar a Jesus como rei. Herodes recusou-se a adorar a Jesus, mas os magos buscaram adorá-lo. Depois, no final do evangelho, em Mateus 28.17, Mateus menciona que os discípulos adoraram a Jesus. Isso é seguido por uma ordem para os discípulos saírem da terra de Israel, a fim de ensinarem outros sobre Jesus. Os temas em 2.2 e 28.17 são sobrepostos: pessoas de fora da terra de Israel e a adoração a Jesus conectam essas duas passagens.

Outro tema no evangelho de Mateus é Jesus como rei. Em Mateus 2, discute-se a respeito de dois reis. Em 2.1, o autor menciona que Herodes era o rei. Em 2.2, faz-se referência a Jesus como “Rei dos judeus”. O próximo versículo e 2.9 mencionam Herodes como rei. Mateus 2 tem quatro referências a “rei”, e apenas uma delas refere-se a Jesus. Mateus está preparando o cenário para o conflito de Herodes com Jesus e a matança dos meninos de dois anos para baixo em Belém e nas redondezas (Mateus 2.16).

O Antigo Testamento possui uma profecia a respeito da vinda de um rei na linhagem de Davi. Mateus apresenta Jesus como o cumprimento dessa profecia, particularmente em três lugares. Mateus 1.6 fornece uma genealogia, declarando Jesus como um descendente do “rei Davi”. Mateus 21.5 cita uma profecia de Zacarias 9.9 (“Eis que o seu Rei vem até você...”), a qual é cumprida por Jesus. O evangelho conecta explicitamente Jesus à profecia do Antigo Testamento sobre um rei que viria. O retrato de Mateus da crucificação de Jesus inclui diversas referências ao tema de Jesus como rei. Em 27.11, Pilatos pergunta a Jesus se ele é “o rei dos judeus”. Em 27.29, Jesus é zombado como rei. Em 27.37, a acusação para a crucificação, colocada em uma placa pendurada na cruz, diz: “Este é Jesus, o Rei dos Judeus”. Alguns versículos depois (27.42), Jesus sofre zombarias como “rei de Israel”. Toda a cena da crucificação está repleta desse tema de Jesus sendo escarnecido como rei. Mateus 2 e a visita dos magos serve para reforçar o tema do evangelho, de Jesus como rei.

Aplicação

Jesus é nosso rei. Como tal, ele governa sobre tudo, incluindo a nossa vida. Portanto, devemos viver em submissão ao nosso rei soberano.

Jesus também merece nossa adoração. Embora ela deva ser reservada somente a Deus, Jesus merece nossa adoração por ser Deus. Deveríamos adorá-lo com toda a nossa vida, pensamentos, decisões, relacionamentos, atitudes e emoções. Estejamos trabalhando ou descansando, toda a nossa vida deveria ser considerada um ato de adoração.

Notas

  1. Brent Landau, Revelation of the Magi: The Lost Tale of the Wise Men’s Journey to Bethlehem (Nova York: HarperOne, 2010).
  2. Craig Blomberg, Matthew, New American Commentary (NAC) (Nashville: B&H, 1992), p. 62.
  3. Allen C. Myers, ed., “Wise Men”, The Eerdmans Bible Dictionary (Grand Rapids: Eerdmans, 1987), p. 1061. Veja tb. Chad Brand, Charles Draper, Archie England, et al., eds., “Magi”, Holman Illustrated Bible Dictionary (Nashville: B&H, 2003), p. 1066.

Este artigo foi adaptado de Lendas Urbanas do Novo Testamento, por David A. Croteau.

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David A. Croteau (Ph.D., Southeastern Baptist Theological Seminary) é deão do seminário e da escola de ministério da Columbia International University desde 2021. Ele leciona cursos de Novo Testamento e grego e é membro da Evangelical Theological Society. Dr. Croteau já ensinou em vários países ao redor do mundo.

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