O que me impede de ouvir a Deus?

Daniel Lima

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Nesses últimos dias tenho lutado com um ouvido entupido (às vezes até os dois). Isso é resultado de algumas condições que tenho tratado. No entanto, percebo como a limitação da audição tem efeito sobre mim. Fico irritado por não ouvir o que está acontecendo ao meu redor e ter que pedir que as pessoas repitam o que disseram me deixa constrangido. No final, eu acabo optando por me isolar enquanto a condição, graças a Deus temporária, durar.

Ao mesmo tempo, Deus tem me falado nessas últimas semanas sobre a importância de ouvi-lo. Tenho lido alguns livros sobre isso, e minha leitura bíblica tem me chamado a atenção para o tema. Até mesmo em uma série de estudos que pude ministrar no Uruguai, para um grupo de missionários em formação, o assunto principal foi justamente ouvir a Deus. Para culminar, no domingo passado o tema da mensagem em nossa igreja foi novamente ouvir a Deus. Quando temas assim “surgem” e continuam surgindo em minha vida eu entendo que Deus tem algo de especial para me mostrar a respeito. Eu também acredito que uma mensagem de Deus tem que primeiro tocar meu coração para que eu possa ministrá-la a outros com fidelidade. Se uma mensagem ainda não tocou meu coração, posso até ensiná-la, mas percebo que seu impacto é limitado. Deixe-me então compartilhar com você algumas das lições que tenho aprendido. 

Em primeiro lugar, o tema do ouvir a Deus é central em toda a Bíblia. Deus criou o mundo por sua palavra (Salmos 33.6,9). O relato da Criação em Gênesis 1 e 2 apresenta um Deus que fala e, ao falar, coisas vêm à existência. De maneira correlata, Eva foi tentada por um discurso. Nessa conversa com a serpente, ela decidiu (assim como Adão) não dar ouvidos às palavras de Deus, mas ouvir a serpente. Adão (Gênesis 3.17) é repreendido por ter dado ouvidos à sua mulher (relegando as palavras de Deus a um segundo plano). Daí em diante toda intervenção de Deus vem por meio de seu falar. Ele fala com Caim (Gênesis 4.6,10), fala com Noé (Gênesis 6.13), faz uma aliança com Noé por meio de sua palavra (Gênesis 9.8-17). Ele fala com Abrão estabelecendo sua aliança. A partir dessa aliança, Deus continua falando a esse povo que escolheu para si. O restante do Antigo Testamento é um relato do falar insistente de Deus, diretamente ou por meio de anjos ou profetas.

Sem dúvida, Deus fala. Se o Criador do universo, que trouxe tudo à existência por meio de sua Palavra, deseja falar conosco, nossa única reação deveria ser ouvir e, consequentemente, obedecer. No entanto, desde Adão e Eva, a reação humana é de um ouvir que começa sendo seletivo, e logo evolui (ou involui) para uma surdez total à voz de Deus. O ser humano se recusa a ouvir à voz do Criador. Assim, busca ou decide ouvir outras vozes, em geral promovidas pelo enganador.

Se o Criador do universo, que trouxe tudo à existência por meio de sua Palavra, deseja falar conosco, nossa única reação deveria ser ouvir e, consequentemente, obedecer.

Em Cristo, somos então apresentados à sua Palavra personificada (João 1.14). Jesus Cristo é a representação exata de Deus, sendo ele mesmo Deus. Paulo expressa muito claramente essa realidade ao escrever em Colossenses 1.15: “Ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação”. Também o autor de Hebreus nos mostra Jesus como o ápice da revelação do “falar” de Deus em Hebreus 1.3: “O Filho, que é o resplendor da glória de Deus e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela sua palavra poderosa...”.

No entanto, mesmo nós, cristãos habitados pelo Espírito Santo em seu ministério de revelar toda a verdade, nos deparamos com situações em que não ouvimos a Deus. Na verdade, em meu trabalho pastoral, posso dizer com segurança que o tema de ouvir a Deus é talvez o mais sensível e delicado na vida da maioria dos cristãos. É claro, há situações em que cristãos, mesmo sabendo o que Deus está dizendo, simplesmente escolhem fazer algo diferente. Mas há também muitos cristãos que tentam sinceramente ouvir a Deus e mesmo assim enfrentam dificuldade.

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Mesmo nós, cristãos habitados pelo Espírito Santo em seu ministério de revelar toda a verdade, nos deparamos com situações em que não ouvimos a Deus.

A Bíblia aponta para vários impedimentos que podem nos fazer “surdos” à voz de Deus. Uma das passagens que me vem à mente é Marcos 8.14-21. Ali, Marcos registra uma situação em que Cristo e os discípulos estavam cruzando o mar da Galileia logo após a segunda multiplicação de pães. Jesus começa a ensiná-los, mas eles estão discutindo sobre a falta de pão! Não é incrível? Eles acabaram de assistir a multiplicação de sete pães em milhares. Se Jesus quisesse, poderia multiplicar o pão que tinham até naufragar o barco por excesso de pães! No entanto, eles não estavam ouvindo a voz de Deus, estavam perdendo essa oportunidade única de ouvir a Jesus.

A razão principal, talvez a única razão verdadeira, que faz com que eles não ouçam a voz de Deus, é o coração endurecido. Repare nas palavras de Jesus em Marcos 8.17-18:

Por que vocês estão discutindo sobre o fato de não terem pão? Vocês ainda não percebem nem compreendem? Têm o coração endurecido? Tendo olhos, não veem? E, tendo ouvidos, não ouvem? Não se lembram...?

Jesus demonstra surpresa e espanto. Tinham ouvidos, mas não ouviam... Sua pergunta é reveladora: “[Vocês] têm o coração endurecido?”. Precisamos examinar mais de perto o que faz com que nosso coração se endureça. Precisamos identificar em nossas vidas o que nos faz “surdos” para a voz de Deus. No próximo artigo pretendo examinar mais de perto essa questão. Oro para que tanto eu como você estejamos atentos à voz de Deus e que cuidemos para que nossos corações não endureçam! 

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Daniel Lima foi pastor de igreja local por mais de 25 anos. Formado em psicologia, mestre em educação cristã e doutor em formação de líderes no Fuller Theological Seminary, EUA. Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida por 5 anos, é autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem 4 filhos, uma neta e vive no Rio Grande do Sul desde 1995.

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