O produto da fé

J. Dwight Pentecost

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“Ora, a fé é a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos. Pois foi por meio dela que os antigos receberam bom testemunho” (Hebreus 11.1-2). Nessa introdução tão familiar, em vez de tentar definir a fé em si, o autor da carta aos Hebreus procura mostrar a conexão entre fé e paciente perseverança. A partir do capítulo 11, ele passa a mostrar que a fé olha para a frente, para o futuro, para o que se espera e crê. Uma vez que o futuro, com todas as suas esperanças, ainda não se concretizou, isso envolve perseverança. Assim, o autor não está tentando definir fé, pois esse conceito já estava tão claro para seus leitores que dispensava uma definição aqui. Antes, ele mostra que quem vive pela fé tem paciência para perseverar.

Uma vez que no original a palavra “fé” aparece sem artigo, ela se refere ao princípio em si, não à fé cristã em especial. Mostra assim que fé lida com o que está no futuro, as coisas que esperamos, mas que ainda não se concretizaram. A palavra “certeza” era usada, na literatura grega, para títulos de propriedade. O título em si não tem valor, mas é uma garantia da posse. A realidade da posse não é estabelecida pelo título, mas este a certifica. Da mesma forma, a fé não estabelece a realidade do que se espera, mas reconhece o que se espera. Precisamos ter o cuidado de não interpretar o uso dessa palavra como indicando que a realidade objetiva depende da fé da pessoa, pois isso não é verdade. Embora alguns asseverem que “crer torna realidade”, não é isso que o autor sugere. É melhor interpretar a palavra “certeza” como significando garantia, confiança ou segurança (cf. 2Coríntios 9.4; 11.17; Hebreus 3.14). Assim, fé é o que dá confiança ou segurança a respeito do que se espera.

Quem vive pela fé tem paciência para perseverar. Fé é o que dá confiança ou segurança a respeito do que se espera.

Na Escritura, “esperança” nunca é apenas um desejo, um sonho, uma fantasia. Esperança é a confiança segura que domina o filho de Deus que, pela fé, agarra-se às promessas do Senhor e se apropria pessoalmente delas. A esperança precisa de uma base, e na Escritura o alicerce da esperança sempre é aquilo que Deus prometeu. A palavra “prova” inclui a ideia de convicção, um firme sentimento de segurança. Essa convicção refere-se a coisas que ainda estão no futuro, pois “não [as] vemos”. Se, pela fé, temos certeza, confiança e convicção, a necessidade nos levará a perseverar com paciência até obtermos o que esperamos com tanta firmeza. 

A história do Antigo Testamento testifica que os ancestrais dos leitores receberam uma promessa de Deus, apropriaram-se dela pela fé e então perseveraram pacientemente até que ela estivesse cumprida. Em momento algum, as promessas se concretizaram sobre outra base. Ele não está dizendo que os antepassados deram testemunho da vida de fé; antes, que sua forma de vida pela fé foi observada por outras pessoas.

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Para a fé, é necessário que ela opere igualmente tanto em relação ao que está no passado quanto ao que está no futuro. Não havia testemunhas humanas presentes no momento da Criação. Por isso, precisamos depositar nossa fé no testemunho do Criador a respeito da forma pela qual os mundos foram moldados. Vê-se isso de modo vívido no discurso de Deus a Jó, quando o Senhor perguntou: “Onde você estava quando lancei os alicerces da terra?” (Jó 38.4a). Evidentemente, as hostes angelicais presenciaram a obra da criação, já que Jó 38.7 menciona especificamente “as estrelas matutinas” e “os anjos” como testemunhas. Mas os anjos nunca contaram aos homens o que viram ali, por isso não fomos chamados a depositar nossa fé na palavra deles. No entanto, ao longo de toda Escritura Deus deu testemunho de que tudo veio à existência por ordem dele. É nesse fato que somos chamados a crer. A credibilidade da palavra a respeito da criação na qual devemos crer baseia-se na pessoa que fez essa revelação. No âmbito natural, é impossível que algo venha a existir do nada. Mas o Deus em cuja palavra devemos crer é um Deus que pôde trazer do nada todos os seres à existência. Um Deus tão poderoso é digno de nossa fé.

Se a fé é suficiente para o que já está no passado, certamente basta também para o que ainda está no futuro.

Se a fé é suficiente para o que já está no passado, certamente basta também para o que ainda está no futuro. “Ninguém jamais viu a Deus” (João 1.18), e mesmo assim cremos que ele existe com base em tudo o que criou, de forma que a mera existência da criação continua a falar da realidade da pessoa infinita que é seu Autor. Mesmo sem ter visto a Deus, pela fé sabemos que ele existe.

O escritor percorreu toda a gama de experiências humanas em Hebreus 11 para mostrar que a fé pode triunfar em qualquer circunstância. Quem passou por elas precisava demonstrar perseverança e paciência, pois “nenhum deles recebeu o que havia sido prometido” (verso 39). Durante essas fases de prova de fé, esperavam pelo que Deus lhes prometera. O destino que Deus prometeu a Abraão (verso 10) sustentou-o em meio ao seu sofrimento. E os leitores dessa carta eram participantes da mesma promessa. Por isso, o escritor encorajou-os a se apropriarem dela pela fé e serem perseverantes. Afinal, se essa expectativa conseguira sustentar os que tinham sofrido conforme descrevem os versículos 33-38, ela certamente conseguiria sustentá-los em seus conflitos atuais. As provações que seus ancestrais passaram não os levaram a abandonar a fé nem a deixar de andar por ela. Antes, viveram pela fé e foram pacientes e perseverantes, aguardando pelo cumprimento da promessa de Deus.

Da mesma forma, os leitores da carta devem manifestar paciência em seus sofrimentos, até que recebam o cumprimento da promessa de Deus. Se seus antepassados já tivessem recebido o que esperavam, de forma que a promessa estivesse exaurida, não teria restado nada para os leitores da carta aguardarem. Mas, como seus antepassados ainda não tinham recebido aquilo pelo que aguardavam, os leitores deveriam imitar sua perseverança e paciência. A unidade do plano de Deus exige que todos os seus filhos assumam sua herança juntos. Pela fé, nós e eles aguardamos, juntos, pela consumação da promessa. E, ainda que os leitores originais da carta estivessem de fato sofrendo, suas dificuldades não se comparavam às aflições daqueles que vieram antes deles. Se a fé sustentou seus ancestrais, certamente os sustentaria também – e sustentará também a nós.

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J. Dwight Pentecost (Th.D., Dallas Theological Seminary) nasceu nos EUA em 1915. Ensinou assuntos bíblicos academicamente por cerca de 60 anos no Philadelphia College of Bible e no Dallas Theological Seminary. Além disso, foi pastor por 35 anos e autor de 21 livros com enfoque principal em escatologia. Casado com Dorothy Harrison, com quem teve duas filhas e dois netos, foi ao encontro do Senhor em 2014, aos 99 anos.

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