O problema do pecado

Daniel Lima

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O velho apóstolo já tinha quase 80 anos. Tanto já tinha acontecido! Primeiro seu mestre e depois cada um de seus companheiros havia sido morto ou desaparecido. Ele havia dedicado sua vida ao cuidado da igreja que tanto amava. Afinal, se o seu Senhor havia dado a vida por essa igreja, como não poderia ele dedicar cada instante seu para cuidar dela, ensiná-la e edificá-la? Com esse intuito ele já havia escrito um relato da vida de Cristo destacando os discursos e eventos que comprovavam que Jesus Cristo era realmente o filho de Deus (João 20.31).

No entanto, agora, já no final de sua vida, ele observava que a amada igreja estava sendo atacada. Não se tratava de ataques físicos e perseguições. Ele mesmo já havia sentido isso na pele e já havia visto e ouvido de tantos irmãos e irmãs queridos que padeceram torturas e sofrimentos indescritíveis. Não, mais uma vez o ataque era de ideias e ensinos distorcidos. Homens que se declaravam profetas (alguns até se diziam apóstolos!), mas que ensinavam um “outro evangelho”. Contra estes o amado e polêmico irmão Paulo já havia advertido: “Eu sei que, depois da minha partida, aparecerão no meio de vocês lobos vorazes, que não pouparão o rebanho. E que até mesmo entre vocês se levantarão homens falando coisas pervertidas para arrastar os discípulos atrás de si...” (Atos 20.29-30).

Com essa percepção, João se senta para escrever à igreja em Éfeso a carta que conhecemos como 1João. A heresia que estava sendo disseminada seria mais tarde conhecida como gnosticismo. Era um produto do dualismo grego que afirmava que o espírito é santo e a matéria é impura. Sendo assim, Jesus não podia ser o Cristo, filho de Deus. Uma das mentiras mais conhecidas era de que Jesus era um homem que foi “possuído” pelo espírito de Cristo no momento do batismo. Por meio desse espírito ele operou milagres, mas na hora da crucificação o espírito o deixou. Como resultado, Jesus não ressuscitou, mas apenas seu espírito é que foi manifesto após o terceiro dia.

Essa heresia contrariava não só a pessoa de Jesus Cristo, mas a verdade da encarnação, da concepção pelo Espírito Santo, do nascimento virginal, e da própria ressurreição! Havia ainda duas distorções práticas que eram promovidas. A primeira era daqueles que afirmavam que não pecavam e que um cristão verdadeiro que tivesse atingido um certo nível de maturidade espiritual era sem pecado.

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João desconstrói essa mentira na passagem de 1João 1.8-10:

“Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos enganamos, e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça. Se dissermos que não cometemos pecado, fazemos dele um mentiroso, e a sua palavra não está em nós.”

Primeiramente, ele explica que, ao afirmar que não peca, essa pessoa está tentando se enganar, negar um fato evidente. Isso é inclusive desnecessário, pois em Cristo temos o perdão, se confessarmos... Ainda mais, afirmar que estamos sem pecado equivale a afirmar que Deus mentiu, pois a morte de Jesus é justamente para nos libertar do pecado.

Afirmar que estamos sem pecado equivale a afirmar que Deus mentiu, pois a morte de Jesus é justamente para nos libertar do pecado.

Uma outra faceta dessa heresia na prática da vida cristã era daqueles que afirmavam que eram puros no espírito e, se havia algum pecado, era no corpo. Como o corpo era considerado impuro, o pecado era não só tolerável, mas compreensível. Com isso viviam vidas de devassidão, entregando-se a todo tipo de pecado e, ao mesmo tempo, alegando serem cristãos maduros, pois seu espírito era puro.

João confronta essa postura na passagem de 1João 3.4-10:

“Filhinhos, não se deixem enganar por ninguém. Aquele que pratica a justiça é justo, assim como ele é justo. Aquele que pratica o pecado procede do diabo, porque o diabo vive pecando desde o princípio. Para isto se manifestou o Filho de Deus: para destruir as obras do diabo. Todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática de pecado, porque nele permanece a semente divina; esse não pode viver pecando, porque é nascido de Deus. Nisto são manifestos os filhos de Deus e os filhos do diabo: todo aquele que não pratica a justiça não procede de Deus, e o mesmo vale para aquele que não ama o seu irmão.”

Se alguém permanece em Cristo, ele não vive habitualmente no pecado. Um cristão verdadeiro não consegue ficar em paz pecando.

Nessa passagem, João estabelece que uma vida de pecado não é compatível com o cristão. Ao afirmar isso, ele não está dizendo que um cristão nunca peca, pois isso seria cair no mesmo erro que ele corrigiu na passagem mencionada acima. Seu argumento é que, se alguém permanece em Cristo, ele não vive habitualmente no pecado. Na verdade, ainda mais do que isso: um cristão verdadeiro não consegue ficar em paz pecando. Se ele ou ela permanecem no pecado, ou não são cristãos, ou estão em profunda negação e conflito.

Há muito ainda que podemos falar sobre esse tema, mas gostaria de encerrar este texto orando por mim e por você. Em primeiro lugar, oro para que sejamos sensíveis ao mover do Espírito em nossas vidas, especialmente quando somos confrontados a deixarmos algum caminho pecaminosos (Salmos 139.23-24). Por outro lado, oro para que em nossa caminhada cristã sejamos persistentes em nos despirmos da velha natureza e nos revestirmos de nossa nova natureza em Cristo (Colossenses 3.1-17).

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Daniel Lima foi pastor de igreja local por mais de 25 anos. Formado em psicologia, mestre em educação cristã e doutor em formação de líderes no Fuller Theological Seminary, EUA. Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida por 5 anos, é autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem 4 filhos, uma neta e vive no Rio Grande do Sul desde 1995.

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