O grosseiro, o descontrolado e o sábio

Daniel Lima

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O tema da masculinidade está em franco debate nestes dias. Por um lado, movimentos progressistas denunciam que praticamente qualquer diferenciação entre masculino e feminino é “masculinidade tóxica”, por outro lado, movimentos conservadores defendem a ideia do guerreiro e chamam os homens a assumir papéis de defesa e até mesmo posturas hostis.

Na semana passada, fomos expostos a um evento lamentável na noite da premiação do cinema em Hollywood, conhecida como a festa do Oscar. Após uma piada de mau gosto a respeito de uma mulher, o marido desta subiu ao palco e agrediu o comediante. Logo depois, o agressor foi aconselhado por um amigo e, mais tarde, recebeu o prêmio de melhor ator, vencendo inclusive o amigo que o aconselhara.

Muito já foi discutido sobre o evento com defensores e detratores de ambos os personagens (comediante e agressor). Opiniões lidaram inclusive com a possibilidade de que toda a constrangedora situação tenha sido encenada para aumentar índices de audiência. É possível (eles são especialistas em encenação, lembra?), mas o que eu gostaria de destacar aqui são os fatos observáveis e tecer comentários sobre como eles refletem a percepção da masculinidade.

Masculinidade saudável está ligada a proteger o vulnerável e não fazer piada a seu respeito.

O comediante fez uma piada grosseira. A vítima de sua piada foi uma mulher que tem perdido seus cabelos devido a uma doença. Tecer comentários depreciativos sobre alguém que sofre de alguma enfermidade é cruel e injustificável. É verdade que homens têm a tendência de fazer piadas uns com os outros e essas piadas com frequência são depreciativas. É também verdade que todo comediante tenta se aproximar ao máximo da linha do inadequado. Parece que há uma competição entre eles de quem consegue ser mais ousado, mais chocante, mais debochado. No entanto, o limite da brincadeira e da humilhação com frequência fica confuso. A piada fica pesada, a pessoa alvo da piada se sente ofendida, o que era para divertir se torna constrangedor. Afinal, rir às custas de alguém mais fraco contraria valores universais. Masculinidade saudável está ligada a proteger o vulnerável e não fazer piada a seu respeito. Há homens a quem Deus deu o temperamento e mesmo o talento de fazer piadas, de divertir amigos com frases e histórias divertidas. A estes eu lembraria do cuidado expresso em Provérbios 26.18-19: “Como o louco que lança fogo, flechas e morte, assim é aquele que engana o seu próximo e diz: ‘Fiz isso por brincadeira’”.

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“Vocês sabem estas coisas, meus amados irmãos. Cada um esteja pronto para ouvir, mas seja tardio para falar e tardio para ficar irado. Porque a ira humana não produz a justiça de Deus.”

O marido a princípio tentou rir, mas, aparentemente, ao perceber o constrangimento de sua esposa, subiu ao palco e desferiu um tapa no rosto do comediante. Muito embora pudesse ser interpretado como uma reação justificada em defesa da esposa, seu gesto demonstrou descontrole. Pessoalmente, eu acredito que um cristão tem o direito de usar até mesmo força letal para defender aqueles a quem deve proteger. Ao mesmo tempo, sem entrar na polêmica argumentação de resposta proporcional, agredir alguém por uma piada demonstra perda de controle e uma distorção da capacidade dada por Deus ao homem de reagir com força física. Em outras palavras: se alguém entrar na minha casa e ameaçar minha esposa, eu usarei de todos os recursos disponíveis para impedi-lo, mesmo que esses recursos incluam violência. No entanto, imagine se o marido subisse ao palco e, tomando o microfone, repreendesse o comediante, explicando a situação da doença de sua esposa, deixando claro que esse tipo de piada é inaceitável. Essa seria uma resposta compatível. Para aqueles que, como eu, tendem a responder ofensas com uma força maior do que a necessária ou adequada, eu lembro da passagem de Tiago 1.19-20: “Vocês sabem estas coisas, meus amados irmãos. Cada um esteja pronto para ouvir, mas seja tardio para falar e tardio para ficar irado. Porque a ira humana não produz a justiça de Deus”.

Há um terceiro homem envolvido na história. Este procurou o agressor logo após o acontecido e, mesmo concorrendo ao mesmo título de melhor ator, lhe disse: “Tome cuidado! Em seus melhores momentos é quando o Diabo vem atrás de você”. Se o primeiro apresentou uma masculinidade distorcida ao fazer uma piada às custas de uma mulher doente e o segundo apresentou uma masculinidade igualmente distorcida recorrendo à violência em uma situação em que esta era descabida, o terceiro trouxe à tona o que há de melhor na masculinidade. Denzel Washington, um cristão declarado, procurou o agressor em um momento adequado, não se aproveitou da competição pelo Oscar de melhor ator e lhe deu um conselho que demonstra autocontrole e atenção à realidade espiritual. Como estímulo a todos nós homens que buscam exercer sua masculinidade de uma forma que exalte nosso Deus, eu lembro da passagem de Gálatas 6.1-3:

Irmãos, se alguém for surpreendido em alguma falta, vocês, que são espirituais, restaurem essa pessoa com espírito de brandura. E que cada um tenha cuidado para que não seja também tentado. Levem as cargas uns dos outros e, assim, estarão cumprindo a lei de Cristo. Porque, se alguém julga ser alguma coisa, não sendo nada, engana a si mesmo.

Minha oração é que eu e você possamos refletir e demonstrar nossa masculinidade não em abuso dos mais fracos ou violência desnecessária, mas em um espírito de sabedoria e autocontrole. A humanidade precisa ver exemplos de homens como Cristo que, sabendo quem ele era, não fez questão de se aproveitar disso, mas seguiu o plano de Deus e, por fim, deu sua vida por aqueles que não podiam salvar-se (Filipenses 2.5-11). Que eu e você sejamos como o sábio desta história!

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Daniel Lima foi pastor de igreja local por mais de 25 anos. Formado em psicologia, mestre em educação cristã e doutor em formação de líderes no Fuller Theological Seminary, EUA. Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida por 5 anos, é autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem 4 filhos, uma neta e vive no Rio Grande do Sul desde 1995.

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