Nova Bênção – Também em Tempos de Crise?

Dieter Steiger

Inicialmente gostaria de lembrar das condições lamentáveis, da trágica situação política, econômica, social e religiosa no quinto maior país do mundo. Há pessoas decepcionadas em relação às igrejas e aos cristãos: “Estou um pouco desacreditado no homem que tem o título de pastor. Sim, creio em Deus e naquilo que Deus pode fazer na nossa vida e por nós, só creio nele. Hoje tudo gira em torno das mensagens bíblicas, o homem manipula financeiramente ao seu favor. Deus tenha misericórdia deles” (mensagem recebida por e-mail).

A partir das diversas experiências do povo de Israel, no Antigo Testamento, podemos hoje aprender a como viver em tempos de crise e mesmo assim ser abençoado pelo Senhor, assim como também a transmitir essa bênção aos outros.

Eram inesquecíveis dias de comemorações em Jerusalém. Após sete anos de construção, o templo havia ficado pronto. A vistosa obra brilhava ao Sol. O rei Salomão havia falado ao povo ali reunido. As pessoas haviam vindo de todos os lugares da terra, de todas as tribos de Israel. Depois disso, o rei se separou do povo e dirigiu-se ao templo, à presença de Deus, para apresentar todas as suas petições numa longa oração ao Deus de Abraão, Isaque e Jacó e de seu pai Davi (veja 1Rs 8.22-53). Foi um ponto absolutamente alto na história do povo de Deus. Quando os sacerdotes colocaram a Arca da Aliança e os objetos sagrados no templo, a glória do Senhor (Shekinah) encheu o templo de maneira que os sacerdotes não conseguiam desempenhar seu serviço (1Rs 8.11).

Chegou a noite, e Salomão estava sozinho no palácio real quando ouviu a voz de Deus: “Ouvi sua oração e escolhi este lugar para mim, como um templo para sacrifícios” (2Cr 7.12). Entendemos que o templo era o lugar em que Deus desejava ter um encontro com o seu povo – o Deus santo com o homem pecador. Por isso ele falou a Salomão do templo para sacrifícios, porque todos os sacrifícios, cada um deles no AT, deveriam apontar para o sacrifício maior de seu Filho Jesus Cristo para a nossa reconciliação! Mais adiante Deus fala em tempos maus e difíceis: “Se eu fechar o céu para que não chova...” – podemos imaginar as consequências que um longo período de estiagem causa para um povo dependente da agricultura – “... ou mandar que os gafanhotos devorem o país ou sobre o meu povo enviar uma praga...” (2Cr 7.13). Observem que o próprio Deus seria o responsável por todos esses juízos que seriam ordenados por ele para o seu povo. Qual seria a finalidade disso, para quê esses baques doloridos, por que esses prejuízos e infortúnios?

É evidente que Deus também dá uma resposta alentadora ao profundamente assustado Salomão, quando diz: “... se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar e orar, buscar a minha face e se afastar dos seus maus caminhos, dos céus o ouvirei, perdoarei o seu pecado e curarei a sua terra” (2Cr 7.14). A Bíblia Anotada traz o seguinte comentário sobre isso: “Este versículo bastante conhecido expressa as condições divinas para receber sua bênção: humildade, oração, devoção e arrependimento”. Deus quer muito abençoar o seu povo. No entanto, o como e de que maneira é determinado por ele, e não por nós! Todavia, analisemos esse conhecido versículo detalhadamente:

Deus aqui fala claramente: se o meu povo. Naquela época Israel e hoje a Igreja de Jesus, formada por judeus e gentios, são sua propriedade, comprada pelo alto preço do sangue de Jesus Cristo, derramado na cruz por todos nós. Ninguém pertence a ele automaticamente, talvez por ser filho de pais que são ou foram crentes, ou porque cumpriu certos ritos, como batismo infantil, confirmação, casamento cristão, etc., ou porque participa ativamente em várias atividades em sua igreja, porque contribui financeiramente ou porque, às vezes, lê a Bíblia ou ora antes da refeição... Sem dúvida, tudo isso diz respeito à vida de Salomão, e muito mais. Quando ainda era rei jovem, ele teve um início muito bom enquanto seguia os passos de seu pai Davi. Deus aprovou o seu pedido e o abençoou além das medidas, de modo que nenhum rei se igualou a ele naquela época. Ele superou a todos e a rainha de Sabá exclamou profundamente impressionada: “Tudo o que ouvi em meu país acerca de tuas realizações e de tua sabedoria é verdade. Mas eu não acreditava no que diziam, até ver com os meus próprios olhos. Na realidade, não me contaram nem a metade; tu ultrapassas em muito o que ouvi, tanto em sabedoria como em riqueza” (1Rs 10.6-7). “Não me contaram a metade”, essa exclamação encontramos novamente em uma canção: Salomão tinha tanta prata que ela nem era mais pesada e contabilizada (veja 1Rs 10.21)! Apesar disso, o Senhor Jesus se expressou, em relação a Salomão: “A rainha do Sul se levantará no juízo com esta geração e a condenará, pois ela veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria de Salomão, e agora está aqui o que é maior do que Salomão” (Mt 12.42). Jesus é infinitamente maior do que Salomão!

Infelizmente, a vida de Salomão não terminou como a do seu pai Davi, nem como a do apóstolo Paulo. Dele não foram registradas “últimas palavras” como as de Davi (2Sm 23.1-7) ou uma confissão triunfal como a em 2Timóteo 4.7-8: “Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé. Agora me está reservada a coroa da justiça, que o Senhor, justo Juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amam a sua vinda”. De que “dia” o apóstolo Paulo fala aqui? Não fala de um dia de 24 horas, mas do “Dia” do Senhor Jesus Cristo, no qual buscará sua Igreja para si por meio do arrebatamento e em cuja sequência haverá o julgamento dos galardões diante do “tribunal de Cristo” (2Co 5.10)! Sem dúvida, ele deseja que todos os seus redimidos sejam vitoriosos e recebam uma coroa!

Que incentivo para nós justamente nessa época de crise, de tempos difíceis, com tentações e sofrimentos, com decepções e derrotas, mesmo assim podermos manter diante de nós essas virtudes: “humildade, oração, devoção e arrependimento”. Ninguém é humilde por natureza, pois todos nós somos orgulhosos desde o nascimento. O orgulho foi o pecado de Satanás, como lemos: “Você, que dizia no seu coração: ‘Subirei aos céus; erguerei o meu trono acima das estrelas de Deus; eu me assentarei no monte da assembleia, no ponto mais elevado do monte santo. Subirei mais alto que as mais altas nuvens; serei como o Altíssimo’” (Is 14.13-14). Foi esse veneno do coração orgulhoso que nós trouxemos junto para o mundo. Por isso, “humildade” ou “ser humilde” significa concordar com aquilo que o espelho da Palavra de Deus me mostra: um coração rebelde e um ser orgulhoso. Quando nos convertemos ao Senhor Jesus, certamente reconhecemos alguns pecados, erros e culpa diante de pessoas e de Deus. Quanto mais seguimos o Mestre, mais reconhecemos a exemplo de Paulo: “Sei que nada de bom habita em mim, isto é, em minha carne. Porque tenho o desejo de fazer o que é bom, mas não consigo realizá-lo” (Rm 7.18). Os reformadores reconheceram isso profundamente. Nesse ano completam-se 500 anos desde que Martinho Lutero publicou suas 95 teses na igreja de Wittenberg. Juntamente com Ulrico Zuínglio e João Calvino ele proclamava: salvação somente por meio de Jesus Cristo!

Humildade não significa manter uma postura serviçal, uma atitude religiosa ou algo que nós mesmos pudéssemos apresentar, pois é o Espírito Santo que pode e quer promover isso em nós. Somos artistas natos e entendemos muito bem da arte de nos colocarmos sob os holofotes e de zelar pela nossa imagem. Somos desafiados a renunciar a toda hipocrisia e artificialismo cristão, pois “Deus se opõe aos orgulhosos, mas concede graça aos humildes” (1Pe 5.5). Devemos confessar nossas falhas diante do Senhor, abandonar todo o orgulho e altivez, toda inveja e ciúmes, também todos os falatórios e julgamentos, toda dúvida e descrença e tudo que nos detém ou atrapalha de seguirmos a nosso Senhor de todo o coração, para que possamos produzir frutos que permanecem eternamente! Sim, devemos orar como Davi: “Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me e conhece as minhas inquietações. Vê se em minha conduta algo te ofende e dirige-me pelo caminho eterno” (Sl 139.23-24).

A segunda condição para sermos abençoados por Deus é a oração! Quem não ora demonstra com isso: eu consigo fazer tudo sozinho, eu não necessito de Deus. Filhos de Deus que oram pouco recebem poucas bênçãos. Nosso fundador e, por longos anos, diretor, Wim Malgo (1922-1992), foi uma pessoa que orou muito em sua vida e em seu ministério. Sem dúvida, foi o segredo da bênção para a Obra. Ele também escreveu dois livros sobre o tema: Chamado a Orar e Oração e Despertamento. Ao término de alguma reunião importante, ele dizia: “Vamos orar, ainda!”, e se ajoelhava espontaneamente. Gostaria ainda de acrescentar uma citação de um livro, de Nicola Vollkommer, Leben am reich gedeckten Tisch (Vivendo diante da mesa farta):

Não existe nada mais importante para um cristão e para uma comunidade cristã do que a oração [...]. Como acontece em muitas áreas da vida, a parte mais importante é aquela que não se vê e com a qual não se consegue impressionar os outros. A preparação de Josué para uma das mais legendárias campanhas militares da história mundial – a entrada do povo de Israel na Terra Prometida – não aconteceu nos campos de treinamento de uma academia militar, mas no tabernáculo, onde permaneceu durante horas na presença de Deus, como “guardião na tenda” (Êx 33.11) [...]. O fator decisivo foi que ele investiu tempo para estar na presença de Deus. A oração mais célebre da Bíblia, logo de início, nos lembra que Deus é nosso Pai: “Pai nosso, que estás nos céus!”. Segue então a adoração: “Santificado seja o teu nome” (Mt 6.9). Para aquele que ora seriamente, o Pai é o ponto de partida para toda conversa com Deus. A sua glória é o que conta. Primeiramente o seu nome deve ser engrandecido nesta terra. Somente depois disso é que são apresentados os pedidos que um filho de Deus pode e deve trazer, a qualquer hora, diante do trono da graça: os pedidos de perdão, proteção e das providências diárias (Mt 6.11-13). A maioria das traduções da oração do Pai Nosso, antes do “Amém”, encerra lembrando ao intercessor sobre o Reino de Deus e a sua glória, enfatizando aquilo que deve ser o ponto central.

Você sente falta de bênçãos em sua vida, em sua família ou igreja? Leia o que Tiago, o irmão de Jesus, escreveu a respeito: “... Não têm, porque não pedem. Quando pedem, não recebem, pois pedem por motivos errados, para gastar em seus prazeres” (Tg 4.2-3). Ao orarmos, deveríamos constantemente nos perguntar: qual é a minha motivação? Procuro apenas pelo meu bem-estar ou busco glorificar a Deus? Eu me reúno com outros para orar por novas bênçãos? Apoiem-se na promessa: “Também digo que, se dois de vocês concordarem na terra em qualquer assunto sobre o qual pedirem, isso será feito a vocês por meu Pai que está nos céus” (Mt 18.19). Estejamos atentos para que haja unidade em nossas reuniões de oração, isto é, dizer nosso “Amém” de todo o coração para a oração de nosso irmão ou irmã! Não devemos tolerar a permanência em nosso coração de qualquer coisa que possa atrapalhar essa unidade. Lembremo-nos constantemente da passagem de 2Coríntios 13.14: “A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos vocês”.

Devoção e arrependimento – vamos comentar sobre esses dois conceitos conjuntamente, porque um depende do outro. Mesmo sabendo que a nossa fé necessita de nutrição diária, com frequência nos descuidamos do alimento espiritual, de ler e ouvir a Palavra de Deus! Isso se estende como um fio escarlate através de toda a Bíblia, iniciando em Gênesis e alcançando o Apocalipse: Deus fala e o homem ouve!

Acaso ainda nos recordamos de como inicialmente tínhamos fome pela Palavra de Deus, quando o Senhor Jesus, por meio do Espírito Santo, tomou conta de nossa vida? Nada nos bastava, líamos mais e mais, além disso, aproveitávamos cada oportunidade para ouvir mais sobre o conteúdo da Bíblia em cultos, estudos bíblicos, conferências, etc. O arrependimento faz parte do verdadeiro “ouvir”, isto é, concordando com Deus que o pecado ainda está presente em minha vida e que sou incapaz, por mim mesmo, de levar uma nova vida. Somente mediante verdadeira e sincera conversão e dedicação, na qual eu reconheço minha absoluta fraqueza, dou oportunidade para que o Espírito Santo me transforme na imagem de Jesus Cristo e assim se modifica o meu modo de pensar e de agir, como lemos em João 16.14 sobre a ação do Espírito Santo: “Ele me glorificará, porque receberá do que é meu e o tornará conhecido a vocês”.

Deus promete sua presença ao lado de Josué, mas imediatamente o orienta para sua Palavra divina. Com isso se expressa uma confissão importante: o povo de Deus é fiel à sua missão e determinação na medida em que tiver em seu meio a Palavra de seu Senhor, e nada mais. Somente o fará na medida em que não se orientar por nada além da bússola da Palavra de Deus. Há somente uma autoridade válida para o povo de Deus: a Palavra! [...] Quanto mais firme o povo de Deus se mantiver à Palavra do seu Senhor, com mais certeza poderá seguir seu caminho. Somente se ele utilizar sua Palavra como a única arma, o povo poderá estar seguro da presença de seu senhor ao seu lado. (T. Sorg)

Devoção e arrependimento garantem a presença poderosa e operante de Deus em nossa vida pessoal, bem como na nossa igreja! Que Deus nos conceda sua graça para que, diariamente, tenhamos essa mentalidade e atitude! Sem dúvida, ele deseja nos dar bênçãos completamente novas! — Dieter Steiger

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