Nossa Herança Familiar

Daniel Lima

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Como você se sente com respeito à sua família de origem? Alguns cristãos falam de sua família de origem com grande orgulho, seja por membros importantes, seja por uma longa história de fé.  Há comunidades cristãs onde uma pergunta típica é: de qual família você é? Muito embora uma herança e formação familiar saudável seja algo bom e certamente uma benção, temos que olhar essa questão mais de perto.

Como ponto de partida, precisamos reconhecer que não existe família perfeita. Abrão negou-se a proteger sua esposa, apresentando-a como sua irmã. Algum tempo depois, aceitou ter relações com uma serva para gerar um filho e, ainda por cima, quando o conflito entre as duas se estabeleceu, ele não soube o que fazer. Seu filho Isaque, por sua vez, lidou com conflitos entre seus dois filhos e foi enganado pela própria esposa. Jacó tinha um filho favorito e lidou com a rebeldia dos demais. Davi adulterou com a vizinha e mandou matar seu marido. E a lista pode continuar... 

A ideia promovida de família perfeita está alinhada com o orgulho e a arrogância dos judeus por serem descendentes de Abraão. A Bíblia denuncia esse orgulho como algo perverso. Jesus disse que até das pedras Deus podia chamar descendentes de Abraão (Mateus 3.9). Paulo, por sua vez, revela que os verdadeiros descendentes de Abraão são aqueles que têm fé (Gálatas 3.7).

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Fica evidente que o Espírito Santo, ao inspirar os autores bíblicos a escreverem a genealogia de Jesus, não fez nenhuma tentativa de ocultar ou minimizar os problemas das mulheres (ou dos homens) ali citadas. Repare que esses problemas não trazem a aprovação de Deus, mas é também claro que não desqualificam essas famílias para servirem aos propósitos dele. É muito provável que Deus lidou com cada uma das famílias listadas aqui. Temos um exemplo claro no caso de Davi e Bate-Seba (2Samuel 12). O foco do relato bíblico é no programa redentor de Deus, e não em cada detalhe individual.

Os problemas dessas famílias não trazem a aprovação de Deus, mas é também claro que não as desqualificam para servirem aos propósitos dele.

Como então podemos encarar essa questão sobre heranças familiares? Uma das passagens mais reveladoras sobre o tema está em 1Pedro 1.18-20:

“Sabendo que não foi mediante coisas perecíveis, como prata ou ouro, que vocês foram resgatados da vida inútil que seus pais lhes legaram, mas pelo precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro sem defeito e sem mácula. Ele foi conhecido antes da fundação do mundo, mas foi manifestado nestes últimos tempos, em favor de vocês.” 

Pedro deixa claro que fomos redimidos pelo precioso sangue de Jesus de uma vida inútil. Isso não é novidade para cristãos evangélicos. Afirmamos com razão que fomos resgatados de uma vida sem significado e sem rumo, pelo precioso sangue de Cristo. O que torna essa passagem um destaque é a frase “que seus pais lhes legaram”. A expressão aponta para o fato de que até mesmo antepassados piedosos nos deixam o legado de uma “vida inútil”. Isso não significa que pais nunca passam uma herança saudável e mesmo santa. Significa que nossos pais, por mais bem intencionados que sejam, sempre passarão, junto com uma herança santa, as lutas e conflitos com os quais lidaram ao seguir a Jesus. Um pai que luta com ira, por exemplo, mesmo que se arrependa e ensine seu filho sobre o pecado da ira e suas consequências negativas terá também, mesmo sem querer, ensinado ao filho a ira como uma reação possível à frustração. Uma mãe que luta contra murmuração e, sendo piedosa, confessa e pede perdão aos seus filhos por seu pecado, terá exemplificado para estes a distorção de um caminho de murmuração.

Nossos pais, por mais bem intencionados que sejam, sempre passarão, junto com uma herança santa, as lutas e conflitos com os quais lidaram ao seguir a Jesus.

Como fazer então com as heranças negativas que recebemos? Creio que podemos resumir em 3 passos:

  1. Reconhecer que não somos obrigados a seguir os caminhas e lutas de nossos pais, pois fomos redimidos destes pelo precioso sangue de Jesus.

  2. Reconhecer que nossa família, mesmo que tenha sido exemplo de piedade, ainda manifesta a luta de todo cristão contra a influência do pecado.

  3. Passar aos nossos filhos a verdade de que temos lutas mesmo sendo seguidores de Cristo e que, ainda que tenhamos sido lavados e perdoados destas, ainda sofremos seus efeitos.

Minha oração é que você possa reconhecer as bençãos passadas por seus familiares (Efésios 6.1-3). Oro também para que, caso seus pais tenham sido cristãos, possamos reconhecer a luta destes em viver uma vida digna de nosso Senhor Jesus, arrependendo-se, confessando e entregando a Deus cada pecado ou maneira vazia de viver (Romanos 7.24). E, por fim, que sejamos exemplos sinceros aos nossos filhos, ensinando a eles tanto a necessidade de uma vida santa, como a provisão de Deus para as vezes em que pecamos (1João 2.1-2).

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Daniel Lima foi pastor de igreja local por mais de 25 anos. Formado em psicologia, mestre em educação cristã e doutor em formação de líderes no Fuller Theological Seminary, EUA. Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida por 5 anos, é autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem 4 filhos, uma neta e vive no Rio Grande do Sul desde 1995.

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