Normas da Casa: Parte 2 – Falar com Graça

Daniel Lima

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Recentemente, presenciei uma conversa entre um casal que, eu creio, estava apaixonado. Após um bom jogo de mesa, a esposa, brincando, comentou que, em casa, para ter uma conversa inteligente, ela precisava falar consigo mesma. O marido ficou ofendido com a brincadeira e o conflito só foi resolvido na manhã seguinte. Experiências assim mostram como brincadeiras, ou mesmo o mero tom de voz, podem ser tão impactantes que o que deveria ser uma conversa normal deteriora em um conflito. Quantos de nós não fomos constrangidos por indiretas, ironia, sarcasmos e mesmo frases com duplo sentido?

Toda casa deve ter suas normas, seus costumes, seu modo de agir que expressa princípios e valores. Em nossa casa, oramos de mão dadas, em outras, ninguém começa a comer até que todos estejam servidos, em outras ainda, todos tiram os sapatos na porta. Tradições ou normas são importantes como “veículos” para transmitir valores mais profundos. Em um artigo anterior, falei sobre o princípio da comunicação direta, que deve ser traduzido em um modo de se comportar ou uma norma da casa. Hoje, gostaria de comentar sobre “falar com graça”.

É muito interessante como seres humanos reagem quando frustrados. Meu neto de um ano e pouco, quando frustrado, cerra os punhos, “fecha a cara” e faz um rugido. Obviamente, esse descontrole é não só compreensível, como esperado nessa idade. O problema é que ele precisa, com o tempo, aprender como expressar sua frustração de um modo gracioso. Isso visa proteger tanto a paz familiar como a ele mesmo em suas interações fora de casa no futuro. Uma característica da maturidade e da vida em sociedade é descobrir maneiras adequadas de expressar frustração.

“Nenhuma palavra torpe saia da boca de vocês, mas apenas a que for útil para edificar os outros, conforme a necessidade, para que transmita graça aos que a ouvem” (Efésios 4.29).

Falando sobre vida em comunidade, debaixo de uma ótica tanto de corpo de Cristo como de famílias de Deus, Paulo estabelece um princípio que deve se tornar uma norma em nossas casas e igrejas: “Nenhuma palavra torpe saia da boca de vocês, mas apenas a que for útil para edificar os outros, conforme a necessidade, para que transmita graça aos que a ouvem” (Efésios 4.29). Vamos examinar essa passagem.

Paulo começa afirmando que palavra torpe (de qualidade pobre, ruim, imprópria para o uso) não deve nem sair de nossa boca. A realidade é que a boca fala do que está cheio o coração (Mateus 12.34). Portanto, devemos nos esforçar para, em primeiro lugar, ter nosso coração renovado diante de Deus. Enquanto estamos em processo, é nosso dever guardar nossos lábios de falar palavras que possam destruir outros. Repare que nem só o conteúdo, mas o momento de falar, o tom de voz e o modo como falamos faz toda a diferença. Tendo alertado quanto ao que não fazer, Paulo passa a nos instruir sobre as características que devem marcar nossa fala:

  1. Útil para edificar – O termo usado para edificar tem, em sua raiz, a palavra oikos, que se refere à casa, mas no sentido mais social, ou seja, ao grupo familiar. A primeira marca de um falar gracioso é pensar na edificação da família, naquilo que é melhor para o amadurecer do grupo. Isso tem tanto um aspecto negativo, ou seja, não falar algo que não edifica, como positivo, pois há temas que têm de ser falados ou tratados. Em nossa cultura, com frequência evitamos temas constrangedores, deixamos passar queixas e acertos que precisam ser examinados. No entanto, o alvo é a edificação do lar, ou do grupo, e não a mera defesa de meus interesses (Filipenses 2.3-4).
  2. Conforme a necessidade – Preciso falar isso? Essa pergunta, se feita e respondida com sinceridade e honestidade, pode evitar uma multidão de conflitos. Pessoas como eu, que têm uma inclinação para compartilhar suas opiniões, têm uma responsabilidade enorme de refletir se o que temos a dizer é necessário. Pessoas mais tímidas e que costumam evitar fazer comentários, têm a responsabilidade de refletir sobre se podem deixar de falar algo que talvez seja muito importante.
  3. Transmita graça – Essa é talvez a característica que “fecha” o versículo. Somos o povo da graça, e não da lei ou dos direitos. Verdadeiramente, a graça só faz sentido a partir de um Deus santo e justo. Mas a base de nosso relacionamento com Ele e uns com os outros é a graça, é o fato de sermos perdoados. Confesso que inúmeras vezes falei sem conceder graça, mas julgamento. Em todas essas vezes, o propósito de Deus não avançou, não foi comunicado. Uma vez mais, graça sem um padrão de santidade é o que Bonhoeffer chama de “graça barata”, que não é graça, mas licenciosidade.

Falar com graça deve ser a norma entre cristãos. Deveria ser o modo como expressamos o fato de termos sido acolhidos pela graça.

Falar com graça deve ser a norma entre cristãos. Deveria ser o modo como expressamos o fato de termos sido acolhidos pela graça. Minha oração é que tanto eu como você sejamos conhecidos por um falar que transmita graça, mesmo ao tratarmos de questões delicadas e temas constrangedores.

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Daniel Lima (D.Min., Fuller Theological Seminary) serviu como pastor em igrejas locais por mais de 25 anos. Também formado em psicologia com mestrado em educação cristã, Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida (SBPV) por cinco anos. É autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem quatro filhos, dois netos e vive no Rio Grande do Sul desde 1995. Ele estará presente no 25º Congresso Internacional Sobre a Palavra Profética, organizado pela Chamada.

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