Naufrágio na Fé

Daniel Lima

Ouvi recentemente de mais um líder cristão que desistiu... Este não se suicidou atentando contra seu corpo. Este cometeu um suicídio diferente: ele causou o naufrágio de sua fé. Não sei quando foi, nem o que o levou a isso. Seu suicídio foi descoberto, ou melhor, revelado por ele mesmo diante de condições que nem ele mesmo suporta mais: vida dupla, promiscuidade, indiferença quanto à esposa, aos filhos, a Deus... O lapso de tempo entre seus primeiros passos neste suicídio foi de vários anos.

Ainda não consegui conversar com ele, nem sei se ele vai querer conversar, mas sua história – contada pela esposa – me pareceu tristemente familiar com uma passagem em que o apóstolo Paulo descreve alguns de seus antigos companheiros de ministério:

18Timóteo, meu filho, dou a você esta instrução, segundo as profecias já proferidas a seu respeito, para que, seguindo-as, você combata o bom combate, 19mantendo a fé e a boa consciência que alguns rejeitaram e, por isso, naufragaram na fé. 20Entre eles estão Himeneu e Alexandre, os quais entreguei a Satanás, para que aprendam a não blasfemar. (1Timóteo 1.18-20)

A semelhança desta passagem com a vida deste meu amigo está no verso 19, na expressão “naufragaram na fé”. No tempo em que Paulo escreveu, um naufrágio era algo descoberto muito tempo depois pelo fato do navio nunca chegar ao destino. Os naufrágios raramente eram súbitos, mas sim o resultado de anos de infiltrações e descuido do barco. O porão ia enchendo de água e, de repente, o navio não podia mais flutuar. Meu amigo naufragou na fé; com isso, deixou destroços por todo lado, seja na vida de sua esposa, mulher forte e inteligente que dedicou toda a sua vida ao ministério do marido, seja na vida dos filhos, alguns agora estabelecendo suas próprias famílias. Não faltaram ao meu amigo oportunidades de buscar ajuda, de encontrar apoio, de tentar de alguma forma um resgate. Até no momento em que revelou seu naufrágio à esposa, ela ainda afirmou que estava disposta a buscar alguma reconstrução possível... mas a fé dele já havia naufragado. É difícil, senão impossível, resgatar um navio naufragado.

Os naufrágios raramente eram súbitos, mas sim o resultado de anos de infiltrações e descuido do barco.

Não sei se consigo imaginar o que levou meu amigo ao naufrágio, mas sei o que a Bíblia diz que pode prevenir um naufrágio. E, como me percebo um navio frágil, suscetível a infiltrações e rupturas, quero cuidar de minha flutuação. O texto de Paulo afirma no próprio verso 19 que Timóteo deveria manter duas coisas: fé e boa consciência. A construção é curiosa, pois o texto afirma que rejeitando a boa consciência pode-se naufragar na fé.

O que significa rejeitar a boa consciência? Consciência é definida como “o sentido ou a percepção que o ser humano possui do que é moralmente certo ou errado”. A Bíblia afirma que todos temos consciência (Romanos 2.12-15). No entanto, alguns podem, por conta de sua criação, incluir em sua consciência maus hábitos. Conta-se a história de um líder de uma aldeia na Índia que praticava o costume de queimar o corpo de um morto juntamente com sua esposa viva! Ao ser confrontado pelas autoridades, ele afirmou: “Tenho minha consciência limpa, creio que a esposa deve servir ao seu marido nesta e na outra vida”. Sua consciência podia sentir-se limpa, mas não era uma consciência boa.

O termo usado por Paulo é uma consciência “boa”. Esta consciência não é somente ativa, mas também alimentada por valores bons. Como cristãos, afirmamos que valores bons são os valores do nosso Deus, que é o único referencial daquilo que é verdadeiramente bom!

Nesse sentido, se alguém rejeita continuamente uma boa consciência, o que ele ou ela estão fazendo é continuamente rejeitar a vontade de Deus. Estão desobedecendo de forma deliberada e intencional o que Deus tem proposto para eles. Se alguém faz isso por tempo suficiente, sua fé começa a se encher de água. Penso que a razão principal é que, ao rejeitar o que Deus me pede, fica claro que não confio nele, mas creio que tenho as melhores soluções para meu coração. Um homem ou mulher assim vai acordar um dia e perceber que não crê mais em Deus.

Como cristãos, afirmamos que valores bons são os valores do nosso Deus, que é o único referencial daquilo que é verdadeiramente bom!

Antes que alguém conclua que isso significa perder a salvação, deixe-me dizer que mesmo um navio naufragado continua pertencendo ao seu legítimo dono. Ele é, no entanto, inútil para seu dono e se torna apenas um obstáculo à navegação.

Não sei o que levou meu amigo a naufragar na fé. Não sei quando começou a infiltração em seu casco. Sei que em algum momento ele começou a rejeitar a boa consciência. Talvez da primeira vez ficou assustado e arrependido. Depois, contornou os avisos do Espírito Santo, cauterizando sua consciência. Continuou em seus caminhos errados, rejeitando de novo e de novo os avisos do Espírito Santo. Com o tempo isso se tornou um hábito. Hoje ele rejeita a própria fé que o salvou.

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Como disse, ainda estou sob o impacto da notícia. Não me considero melhor que meu amigo. Sei que também posso iniciar um processo de naufragar na fé. Sabendo que você, leitor, tem o mesmo potencial, visto que é humano, minha oração é que cultivemos a boa consciência. Que eu e você alimentemos nossa mente dos valores de Deus. Que nossos ouvidos estejam atentos à direção do Espírito Santo e que possamos afirmar no final da vida como Paulo:

Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé. (2Timóteo 4.7)

Daniel Lima foi pastor de igreja local por mais de 25 anos. Formado em psicologia, mestre em educação cristã e doutorando em formação de líderes no Fuller Theological Seminary, EUA. Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida por 5 anos, é autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem 4 filhos e vive no Rio Grande do Sul desde 1995.

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