Massacre é coisa do Diabo!

Daniel Lima

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Na semana passada tivemos mais uma versão brasileira de um massacre escolar. Dois indivíduos fortemente armados invadiram uma escola e mataram pelo menos oito pessoas para, logo em seguida, se suicidar. Os detalhes são muito semelhantes ao que já nos acostumamos a ver. Após o evento, várias pessoas tentaram obter ganhos políticos com críticas ao atual ou aos antigos governos; ao mesmo tempo, muita gente tentou compreender o que acontece na mente e coração de alguém para cometer um ato desses. Agredir e até matar alguém em um acesso de raiva, ou por uma ofensa, é algo atroz, mas segue uma lógica – ainda que distorcida. No entanto, invadir uma escola e matar crianças de modo indistinto entra no campo da insanidade.

A resposta da insanidade parece bastante razoável e remove de cena uma possibilidade muito assustadora: que nós seres humanos “normais” somos capazes de atrocidades. Assim, fico me perguntando se insanidade, neste caso, pode ser uma desculpa que nos isenta como sociedade de lidar com alguns fatores que têm um grande poder influenciador em atos assim. Neste texto, gostaria de propor que um massacre como esse é coisa do Diabo! Por favor, não estou dizendo que um ou outro dos rapazes estavam “possuídos por um demônio” (por “possuídos” quero dizer no sentido de que não sabiam o que faziam ou que seus corpos obedeciam a uma outra entidade que não eles mesmos).

Apesar de difícil, esse e outros atentados assim realmente me parecem coisa do Diabo. Não estou buscando inocentar ninguém, mas tentar ver o que há por trás de tais atos. E vejo um plano diabólico, pois a Bíblia fala com clareza que Satanás veio para “roubar, matar e destruir” (João 10.10). Eu vejo este plano que desemboca em massacres em muitos atos que como sociedade aprendemos a tolerar e achar muito normal.

Por exemplo, videogames de extrema violência – aqueles onde cometer atos de sadismo resultam numa pontuação maior – são veículos que promovem a agenda de Satanás. Quem produz, quem vende e quem joga jogos assim, quer conscientemente ou não, está promovendo uma agenda satânica. O mesmo pode ser dito de filmes ou séries que, de maneira muito hábil, elaboram um enredo em que a única solução é a violência extrema. Isso não significa que todo mundo que assiste a um filme violento vai reproduzir estes atos na vida real; no entanto, deixar que cenas assim sejam registradas em seu cérebro no mínimo aumenta nossa tolerância com esta mesma agenda. Não importa se o enredo justifica a violência, ou se o contexto faz com que atos de violência sejam percebidos como atos de justiça.

A Bíblia fala com clareza que Satanás veio para roubar, matar e destruir.

Uma outra área em que a agenda satânica é promovida são nossos relacionamentos. Há famílias em que os pais, seja por simples cansaço e desinformação, seja por conflitos pessoais ou por opções quanto a um estilo de vida, são afastados de um convívio mínimo com seus filhos. Há situações em que indivíduos são ridicularizados, traumatizados, violentados... sem que exista consequências para quem pratica tais delitos, ou acompanhamento para quem os sofre. De alguma forma, tanto o abandono daqueles que deveriam dar afeto quanto o abuso de companheiros em geral são também parte de uma agenda satânica.

Some-se a isso os repetidos escândalos em que criminosos julgados conseguem escapar com poucas ou nenhuma consequência, perpetuando a impressão de que “não dá nada mesmo”, e temos uma sociedade que promove um contexto de violência, abuso e impunidade. Por que estamos chocados com massacres assim? Ou talvez a pergunta melhor seria: por que ficamos indignados com este evento (o que certamente deveríamos) e não com suas bases (violência, abuso e impunidade)? Será que como sociedade podemos então simplesmente riscar nossa responsabilidade designando de insanidade um ato de tamanha crueldade? Paulo, ao escrever a Timóteo, lança este alerta:

1Saiba disto: nos últimos dias sobrevirão tempos terríveis. 2Os homens serão egoístas, avarentos, presunçosos, arrogantes, blasfemos, desobedientes aos pais, ingratos, ímpios, 3sem amor pela família, irreconciliáveis, caluniadores, sem domínio próprio, cruéis, inimigos do bem, 4traidores, precipitados, soberbos, mais amantes dos prazeres do que amigos de Deus, 5tendo aparência de piedade, mas negando o seu poder... (2Timóteo 3.1-5)

A descrição acima parece se aplicar com facilidade à nossa própria sociedade. Deixe-me destacar apenas 3 palavras. No verso 2 Paulo afirma que os homens serão “egoístas” (amantes de si mesmos). Temos visto isso crescer e inclusive tornar-se base de legislação. Um dos mais fortes argumentos pró-aborto é que ter uma criança “interfere nos direitos reprodutivos da mulher”. Seguindo essa lógica, podemos terminar uma vida para que “eu” não seja prejudicado. Outra palavra é traduzida por “sem amor pela família”. A palavra no original significa sem afeto ou sem carinho. Podia ser traduzida por insensíveis. Mais uma vez, isso é visto com extrema frequência em nossa sociedade. Basta ouvir como pais se referem a seus filhos, e vice-versa. Por fim, no verso 3 temos, entre outras palavras que descrevem a falta de domínio próprio, o termo “cruéis”. A palavra no original significa não civilizado, bárbaro ou brutal. Este termo, dentre outros, descreve o massacre: foi um ato bárbaro, não civilizado, brutal ou cruel.

Não podemos, como sociedade, plantar violência, abuso e impunidade e esperar colher paz, harmonia e gentileza.

É impossível pensar neste massacre, olhar o estado de nossa sociedade e não lembrar de outra advertência do apóstolo Paulo: “De Deus não se zomba. Pois o que o homem semear isso também colherá” (Gálatas 6.7). Não podemos, como sociedade, plantar violência, abuso e impunidade e esperar colher paz, harmonia e gentileza.

Para nós cristãos, que nem sempre destoamos de algumas destas atitudes de nossa sociedade, nos resta continuar a ler a exortação de Paulo a Timóteo até os versos 16 e 17 do mesmo capítulo da segunda carta a Timóteo: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça, para que o homem de Deus seja apto e plenamente preparado para toda boa obra”.

O massacre foi de uma extrema tristeza. Orei pelas famílias de todos os que perderam a vida de modo tão estúpido. Minha sincera oração é que nossa sociedade seja confrontada com suas próprias opções e se volte para o único que pode nos trazer a verdadeira paz. Não há outro caminho. Sem um quebrantamento, vamos testemunhar mais e mais massacres como este ou eventos tão trágicos quanto ele.

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Daniel Lima foi pastor de igreja local por mais de 25 anos. Formado em psicologia, mestre em educação cristã e doutorando em formação de líderes no Fuller Theological Seminary, EUA. Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida por 5 anos, é autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem 4 filhos e vive no Rio Grande do Sul desde 1995.

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