Mantendo um ritmo devocional em um mundo alucinado

Daniel Lima

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Não sei se você já viu ou mesmo participou de uma corrida de grande escala. Como marido e apoiador, além de fã incondicional, de uma corredora, já participei de duas maratonas e algumas corridas menores. A organização é, em geral, surpreendente. São centenas de voluntários, policiais e contratados para que um evento de grande porte seja realizado com profissionalismo e harmonia. No entanto, há uma tensão que mesmo o mais organizado evento não consegue manter sob controle. É a explosão da largada.

Em algumas corridas você chega a ter 10 mil participantes. Os tempos em que era importante largar na frente já são parte da história. Hoje todo competidor recebe um chip que marca o momento exato em que cruzou a linha de largada e a linha de chegada. Assim mesmo que você largue minutos após o início, seu tempo de corrida será registrado sem nenhum atraso. No entanto, a aglomeração e o empurra-empurra da largada ainda é uma constante. Por que atletas se aglomeram, se apertam e se empurram, quando sabem que o tempo registrado será o chip e não o da ordem de chegada? A única explicação que eu tenho é o que alguns chamam de “mentalidade de manada”. Parece que, quando é dada a largada, eu não quero ficar para trás, e, se tem alguém correndo, eu quero correr também. Se tem alguém acelerando logo na largada, eu tenho que acelerar também. Não é raro um corredor perder a prova por acelerar demais na largada. Ao invés de manter seu ritmo, deixou-se levar pela “mentalidade de manada” e impôs um ritmo que para ele ou ela era insustentável.

Durante estes meses de pandemia, muita coisa mudou em termos de ministério e de ritmo de vida. Estudos têm mostrado que as pessoas têm trabalhado um número maior de horas a partir do home office. A tradicional divisão de trabalho no escritório e lazer com amigos e família foi apagada. Hoje, vida em família e ambiente de trabalho e/ou estudo se misturaram. Horários foram flexibilizados, mas as demandas apenas se intensificaram. O resultado é uma crescente ansiedade. Pesquisadores têm identificado que a síndrome de Burnout cresce assustadoramente no Brasil e no mundo. Segundo o psiquiatra Eduardo Perin, especialista em terapia cognitivo-comportamental pelo Ambulatório de Ansiedade do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo:

“A rotina de trabalho em casa fica muito diferente, porque o trabalho invade a rotina da pessoa e ela acaba trabalhando muito mais do que se estivesse na empresa, misturando o trabalho com a vida pessoal.” [1]

De que modo a “mentalidade de manada” com respeito ao trabalho afeta o nosso dia a dia? De que modo essa mentalidade afeta nosso caminhar com Deus? Talvez a pergunta mais pragmática seja: como descobrir e manter um ritmo devocional em um mundo estressado? Todos nós conhecemos a passagem em que as irmãs Marta e Maria demonstram atitudes diferentes diante de Jesus. Marta, talvez seguindo a mentalidade de manada esperada das mulheres da época, estava atarefada em servir a Jesus, enquanto Maria descobriu um ritmo muito mais saudável do ponto de vista espiritual.

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Muito embora possam existir muitos elementos nessa história, neste artigo quero destacar um deles, que é o descanso sabático que está intimamente ligado ao ritmo que vivemos. Descanso não está diretamente ligado ao cansaço. Surpreso com essa afirmativa? O raciocínio é bem simples. Deus trabalhou por seis dias e descansou no sétimo dia (Gênesis 2.2-3). Sendo que Deus é todo poderoso e, portanto, não se cansa, por que ele descansou no sétimo dia?

A única razão que faz sentido é que o descanso faz parte do ritmo de vida de Deus. Não meramente para recompor as energias (não é o caso dele), mas para aproveitar, para admirar e gozar o que foi feito. Deus tem prazer em sua obra. Ele não só disse que o que havia feito era bom, mas ele se alegrou com o que havia feito. Há uma lição profundamente espiritual nesse descanso sabático. Ao descansar, estou vivendo pelo menos três realidades: (1) confiança no Deus que provê, (2) alegria no que foi feito e (3) foco naquilo que é mais importante.

  1. Confiança no Deus que provê. Na lei dada a Israel, o agricultor deveria deixar a terra descansar no sétimo ano e a promessa de Deus era que ele viveria do excedente da produção do sexto ano (Levítico 25.20-22). Ao descansar, estou declarando que meu sustento vem de Deus e não somente de minhas próprias mãos.

  2. Alegria no resultado do que foi feito. Muitos trabalham enlouquecidamente, buscando um objetivo sem nunca aproveitar os resultados de seu próprio trabalho. Somos chamados a aproveitar das recompensas de nosso trabalho (Eclesiastes 3.13). A mentalidade de querer permanentemente mais é um dos maiores ladrões de nossa alegria e satisfação. Afinal de contas, o quanto é o necessário?

  3. Foco naquilo que é mais importante. Uma pergunta para mantermos sempre presente é se trabalhamos para viver ou se nossa vida é trabalho. Qual é a nossa prioridade? O que realmente nos motiva e nos faz nos dedicarmos? Se a resposta é o acúmulo de bens ou os resultados de nosso trabalho, seremos os mais miseráveis dos homens. Jesus define como prioridade, ou essência da vida, o conhecimento do Senhor e o gozo de sua presença (João 17.3). Ao utilizarmos o descanso, estou também reservando um tempo para manter meus olhos fixos em Jesus (Hebreus 12.2).

Minha oração é que mesmo em um mundo transtornado, mesmo diante das demandas deste período de pandemia, você e eu saibamos reservar um tempo para estar diante de Deus, um tempo de “santa improdutividade” (do ponto de vista humano). Ao descansar no Senhor, estamos investindo naquilo que é mais importante. Conforme disse Jesus a respeito de Maria: “[Ela] escolheu a boa parte, e esta não lhe será tirada” (Lucas 10.42).

Nota

  1. Hysa Conrado, “Após 1 ano de pandemia, síndrome de burnout cresce ainda mais”, R7, 28 fev. 2021. Disponível em: https://noticias.r7.com/saude/apos-1-ano-de-pandemia-sindrome-de-burnout-cresce-ainda-mais-28022021.
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Daniel Lima foi pastor de igreja local por mais de 25 anos. Formado em psicologia, mestre em educação cristã e doutor em formação de líderes no Fuller Theological Seminary, EUA. Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida por 5 anos, é autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem 4 filhos, uma neta e vive no Rio Grande do Sul desde 1995.

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