Longevidade Humana: Longa, Breve e Futura?

Wilfred Hahn

Economistas e analistas das pensões em todo o mundo estão rangendo os dentes. Como serão cuidadas as pessoas de todo o mundo que irão se aposentar no presente e no futuro? Uma “perfeita tempestade” está exercendo forte pressão sobre os sistemas financeiros mundiais já debilitados. Não poderia haver mais fatores que contribuíssem para essa “tempestade” ao mesmo tempo. O que exatamente está acontecendo? E será que a Bíblia tem alguma coisa a dizer sobre esse assunto?

Primeiramente, a situação que está se desenrolando no presente momento não deveria, de fato, ser novidade. Ela trata de dados demográficos. Afinal: “demografia é destino”. Este ditado reflete o fato de que mudar os índices de natalidade e de longevidade (a duração da vida) pode ter um impacto de longa duração sobre as sociedades, abrangendo meio século ou mais. Os índices de natalidade têm despencado ao redor do mundo desde meados da década de 1960, uma tendência que agora se estende à maioria das nações. Ao mesmo tempo, a maior parte dos países está experimentando uma longevidade cada vez maior, isto é, agora as pessoas têm vida mais longa do que tinham antes.

Parece um problema de “economia” e é popularmente tratado como tal. Mas isto seria errado. Na verdade, as rápidas mudanças demográficas que o mundo está testemunhando são mais uma função de “mudança de valores” do que qualquer outra coisa. Vamos tentar explicar isto.

Quando uma crise se torna amplamente reconhecida, geralmente já é tarde demais para se dar uma resposta.

Este autor tem publicado muitas advertências relativas ao iminente impacto futuro das mudanças demográficas desde o início da década de 1990. Aquele futuro chegou. Como diz o ditado: as galinhas já subiram no poleiro. Desta forma, chegou o momento em que a crise se tornou evidente para a maioria das pessoas. Isto vem desencadeando uma resposta desesperada. As pessoas estão lutando para economizar, visando seus anos de aposentadoria, a fim de obterem uma renda financeira suficiente. Mas, como quase sempre acontece, quando uma crise se torna amplamente reconhecida, geralmente já é tarde demais para se dar uma resposta.

O que exatamente está acontecendo? Uma mistura de cinco fatores principais está pondo em ebulição o florescer demográfico e o dilema da aposentadoria.

1. Taxa de Fertilidade em Queda. A taxa de fertilidade mundial (o número de nascimentos por mulher), de nações do terceiro mundo até as desenvolvidas, tem despencado nos últimos cinquenta anos. É um fenômeno global que chega ao ponto em que grupos de imigrantes em nações tais como a Alemanha têm, de fato, índices de natalidade mais baixos do que os grupos domésticos. Há muitas razões para esse despencar (mas não teremos espaço aqui para revisar todos eles). A principal consequência desse acontecimento é que as populações estão envelhecendo.

2. Aumento da Urbanização. A respeito da desaceleração dos índices de natalidade, Stratfor diz: “[...] O processo é, essencialmente, irreversível”. Por quê? Eles afirmam que é principalmente uma questão de urbanização. “[…] Em uma sociedade urbana madura, o valor econômico das crianças diminui. Na verdade, as crianças passam de instrumentos de produção a objetos de consumo maciço.”1

3. Longevidade Estendida. Um fenômeno sem precedentes que está varrendo o mundo atualmente é que as pessoas estão vivendo mais. Nunca antes houve um boom mundial de longevidade. Na verdade, atuários (analistas que calculam as tendências da mortalidade) têm provado consistentemente estar errados pelas últimas duas décadas. As pessoas continuam a viver mais do que é esperado. Portanto, os fundos de pensão descobriram que têm um passivo maior (futuros pagamentos de pensão que eles têm que fazer) do que originalmente haviam pensado.

4. Desaceleração da Produtividade. Alguns analistas têm afirmado que o mundo testemunharia um enorme boom de produtividade. Desta forma, menos pessoas poderiam gerar as rendas que fossem necessárias para a manutenção de um estilo de vida razoável de aposentadoria para os idosos. Em vez disso, o oposto é evidente. As taxas de crescimento da produtividade têm caído em todo o mundo nos anos recentes.

5. Redução da Renda dos Investimentos. Dado o impacto deflacionário de uma população em envelhecimento, os níveis da taxa de juros têm caído. Os bancos centrais em todo o mundo têm respondido à desaceleração do crescimento econômico cortando as taxas de juros e deixando-as as mais baixas dos últimos 5.000 anos. Isto virtualmente garante que a renda de futuros investimentos será baixa.

Quão significativas são essas tendências? Considere que nunca antes na história mundial os cinco fatores acima descritos ocorreram ao mesmo tempo. Nunca antes na história um boom da população mundial foi seguido por um fracasso populacional.

Citando um relatório feito por Fabius Maximus (um respeitado site de pesquisa política), o futuro impacto será destruidor. A citação é a seguinte: “A 2ª geração após a presente terá apenas 40% do tamanho da atual. A 4ª geração terá apenas 15% dela. Estes são números surpreendentes. As piores pandemias em grande escala mataram de 1/4 a 1/3 da população afetada. Apenas as mais graves infligiram um dano como esse”.

Não pode haver dúvida: a escala dessas tendências é sem precedentes. As pressões financeiras e sociais resultantes sobre o mundo são verdadeiramente profundas.

Hoje, vivemos em sociedades onde se tornou (em alguns casos) proibitivamente caro para se criarem os filhos. Filhos são considerados abusivamente onerosos para serem criados.

Os analistas podem argumentar a respeito das causas com teorias matemáticas e econômicas, como se isoladas da realidade de que se trata de um mundo “humano”. As crises são a consequência das escolhas de valores que a humanidade tem feito. É ali que encontramos as causas finais, e não nos movimentos das estrelas, na matemática ou na economia. As consequências de “escolhas humanas” não podem ser deixadas de lado e delas não dá para escapar. “Não se deixem enganar: de Deus não se zomba. Pois o que o homem semear isso também colherá” (Gl 6.7).

Já hoje, vivemos em sociedades onde se tornou (em alguns casos) proibitivamente caro para se criarem os filhos. Filhos são considerados abusivamente onerosos para serem criados. De acordo com vários estudos, ter filhos aumenta em muito a probabilidade da falência pessoal (mais provavelmente para famílias com apenas um dos pais). Agora vivemos em uma época de “pós-familismo”.

A Perversa Sabedoria da Idade

Assim é a sabedoria do atual período humano (Antropoceno). Espera-se que os mercados financeiros apresentem benefícios seguros de aposentadoria em vez de fazerem encolher as famílias e a fertilidade. Impossível. A biologia e a morfologia (os projetos físicos de criaturas e seres humanos que Deus fez) são ridicularizadas. As feministas se iram contra a “evolução” por lhes ter dado os órgãos reprodutivos. Criar filhos é algo que agora é considerado como uma carreira da casta inferior. As famílias são consideradas modalidades fluidas. As pessoas não se atrevem a negar que a orientação sexual e a educação infantil devem ser totalmente independentes da biologia.

Novamente, como é que a óbvia canalização física das diferenças genéticas masculinas e femininas ousa ditar a orientação sexual? Poucos param para pensar que a Teoria da Evolução não dá apoio para a ideia de que a homossexualidade ou o feminismo podem ter origem genética. Se desse, então teria sido um gene que teria se tornado extinto ao longo dos supostos milênios do processo evolutivo, uma vez que teria sido, na maior parte, um gene não-perpetuador.

As disposições e os valores implícitos nas tendências acima mencionadas têm um papel causal nos desafios demográficos atuais do mundo. Pelo menos em parte, dão origem a ele. Enquanto é maravilhoso que a longevidade esteja aumentando e que a qualidade de vida dos idosos esteja em geral melhorando, os índices de natalidade em declínio têm consequências graves das quais não podemos escapar.

Enquanto é maravilhoso que a longevidade esteja aumentando, os índices de natalidade em declínio têm consequências graves.

Deus permite que a humanidade (e cada um de nós, individualmente) faça suas escolhas. Podemos escolher o bem ou o mal, ou definir a moralidade da forma que desejarmos. Mas Deus tem a última palavra. Como nós já identificamos, demografia é destino. Esse destino está próximo. O julgamento virá.

O Anti-Familismo na História

Implosões populacionais voluntárias (ou seja, não associadas a pandemias ou guerras) já aconteceram antes, embora não na escala global como acontecem hoje. Aristocratas romanos, por exemplo, finalmente se tornaram tão relutantes em aceitar os encargos de serem chefes da família que César Augusto sentiu-se obrigado a cobrar altos “impostos de solteiro”, ou então punir aqueles que permanecessem solteiros e sem filhos.

Políbio, o historiador grego, escreve sobre o povo de Hellas, do século III a.C. (em Histórias, sua obra abrange o período de 264-146 a.C. com grandes detalhes): “[...] O povo de Hellas havia entrado pelo falso caminho da ostentação, da avareza e da preguiça, desta forma ficando relutante quanto a se casar ou aqueles que se casavam não queriam criar os filhos nascidos deles. A maioria só estava disposta a criar no máximo um ou dois filhos, para deixá-los ricos e para mimá-los durante sua infância. Como consequência de tudo isto, a maldade foi se espalhando rapidamente antes que fosse notada”.

O que Políbio descreve está acontecendo hoje em nível global.

A Longevidade na Bíblia

Durante todo o curso da história humana, haverá duas catástrofes globais nas quais a longevidade terá sido envolvida. O primeiro importante choque de longevidade ocorreu no início da história do mundo. Após o Dilúvio, a expectativa de vida começou a encurtar significativamente para aqueles que nasceram daí em diante. Até o momento do Dilúvio, a expectativa média de vida, de acordo com a Bíblia, era em torno de 930 anos. Então, um colapso na “longevidade” ocorreu.

Contudo, o decréscimo da longevidade no período pós-diluviano teve uma grave consequência. Todos os patriarcas, que teriam conhecido Noé e teriam ouvido diretamente dele e de outros a história verbal, morreram durante um período muito curto de 200 anos. Para ser preciso, onze gerações morreram dentro de um período de dois séculos. Considere que, durante o tempo de vida de Abraão, oito gerações morreram. Imagine você mesmo que, durante seu tempo de vida, oito gerações de grandiosos, importantes, excepcionais ancestrais morram.

Houve repercussões desastrosas. A humanidade tinha caído rapidamente por causa da perversidade e do pecado. Somente um pouco mais de um século após a morte de Noé, Ninrode já estava ocupado buscando empreendimentos humanistas. Deus precisou dispersar os cidadãos de Babel, que tinham a intenção de fazer um nome para si mesmos: “Assim nosso nome será famoso” (Gn 11.4). Desta forma, os planos de Ninrode foram frustrados por um tempo.

Com tão poucos reconhecendo o Criador, Jeová decidiu chamar um povo para Si mesmo; um que seria uma luz para o mundo... Seu Servo Israel (Is 44). Por isso, Ele escolheu Abrão, um homem de fé, e chamou um povo, a saber, os hebreus, para ser uma luz para o mundo.

Pensamentos para Reflexão

Certa vez, Oswald Spengler, o historiador e filósofo alemão, observou: “Quando o pensamento comum de um povo altamente refinado começa a considerar ‘ter filhos’ como uma questão de prós e contras, o grande momento da virada chegou”. Esse ponto certamente chegou para a maior parte das nações desenvolvidas. A tendência não será revertida, uma vez que o ponto de retorno já passou.

As sociedades patriarcais (que têm provido a estabilidade societária há milênios) estão debaixo de ataques. As taxas de fertilidade são difíceis de mudar, como muitos governos já perceberam. As tendências sociais que produzem essa mudança – tais como contraceptivos, feminismo, materialismo, narcisismo (amor próprio), humanismo, etc. – continuam a fazer as coisas piorarem. Os contraceptivos masculinos (pílulas anticoncepcionais para homens) são outro incremento que irá debilitar os índices de natalidade.

Olhando adiante, poucos economistas dão a atribuição adequada ao papel que a duração da vida, que vai aumentando cada vez mais, tem no boom da prosperidade e da riqueza financeira/material que vem sendo gerada nos últimos dois séculos. Agora que as tendências demográficas passadas estão sendo revertidas, eles estão embasbacados e frustrados. Os fazedores de políticas, mesmo que se esforcem ao máximo para manipular as taxas de juros e o dinheiro, não conseguem superar as influências da crescente longevidade e da baixa fertilidade.

Qual é a solução? Até o momento presente, supostas respostas apresentadas pela criação de riquezas coletivas em todo o mundo são inteiramente fraudulentas. Fazendo assim, eles poderão ser bem-sucedidos em adiar os dias finais. Mas que dia será esse quando ele vier! Quanto mais as consequências são adiadas, mais a perversão aumenta e mais cataclísmico fica o resultado final.

Deus interveio nos dias de Noé e de Abraão. Ele fará o mesmo novamente no futuro, como a Bíblia claramente des­creve. — Wilfred Hahn

Nota

  1. “Population Decline and the Great Economic Reversal” (O Declínio da População e a Grande Inversão Econômica), George Friedman, Stratfor, 17 de fevereiro de 2015.
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