“Foi só por brincadeira”

Daniel Lima

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No Brasil, estamos em meio a tensões sociais que giram (alguns diriam extrapolam) o contexto da pandemia e dos erros e acertos de governantes e autoridades. Ouvimos relatos dos mais variados tipos e pelo menos nesta semana tivemos acesso à questionamentos feitos por uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Senado que foi, para dizer o mínimo, grosseira com a convidada. Em meio a tudo isso, uma outra notícia pode ter passado desapercebida. Um médico brasileiro conhecido na mídia (alguns alegam que ele tinha um milhão de seguidores) foi preso no Egito sob acusação de “assédio sexual”.

O caso pode passar sem maiores repercussões pois, como escrevi acima, vivemos em meio a tensões da pandemia, tragédias pessoais e sociais, além das intermináveis discussões e denúncias de teor político-partidário. No entanto, dois elementos no caso merecem nossa atenção: (1) uma ação ofensiva ser chamada de “brincadeira” e (2) a inadequação de comentários com teor sexual.

Certamente há muitos detalhes que poderiam descrever o caso, mas deixe-me alistar um resumo (com o perigo de ser injusto com um ou outro lado). O brasileiro está em uma loja e faz comentários de teor sexual para uma vendedora que fala português com dificuldade. Ele não apenas fez esses comentários, mas os postou na mídia para que outros pudessem “se divertir” com ele. O vídeo foi visto, identificado, denunciado e traduzido para o árabe. Imediatamente a reação de muitos foi de repulsa. O brasileiro rapidamente retirou o vídeo e gravou outro no qual pede desculpas à vendedora. Ela afirma que não se sentia ofendida, no entanto decidiu prosseguir com a queixa de crime contra o ofensor.

A Bíblia é repleta de ensinos contra a promiscuidade em qualquer uma de suas formas.

Primeiro, vamos tratar da alegação de “brincadeira”. Há um critério antigo que afirma que ambos os lados devem se divertir para algo ser considerado uma brincadeira. Ou seja, uma brincadeira em que só um lado se diverte não é brincadeira, é ofensa ou humilhação. Provérbios 26.18-19 afirma: “Como o louco que atira brasas e flechas mortais, assim é o homem que engana o seu próximo e diz: ‘Eu estava só brincando!’”.

Uma afirmação assim procura diminuir a ofensa – sem reconhecer o erro. Aliás, costumeiramente o erro fica com a pessoa que se ofendeu com uma brincadeira. A palavra hebraica usada como “engana” (râmâh) pode ser traduzida como “lançar” ou “atirar”, o que em sentido figurado significa trair, iludir ou conduzir. Na situação em questão, a mulher foi envolvida sem intenção ou permissão. Ela foi “enganada” por um turista rico e famoso que se divertiu a suas custas, além de divulgar sua façanha nas redes sociais. O autor de Provérbios diz que isso é um ato de um louco que causa destruição. Imagino que hoje este médico entende como foi louco.

O segundo aspecto é a adequação de comentários de teor sexual. A cultura brasileira enfatiza e banaliza a sensualidade. Há toda uma exaltação e banalização do corpo e da sexualidade. Para alguns isso é símbolo de liberdade e de não estar sob os controles de padrões morais restritivos. No entanto, esta postura ignora o abuso regular e, por vezes, abertamente aceito do corpo feminino. O Brasil é um dos piores países com relação ao turismo sexual. Esse tipo de turismo traz ao nosso país homens que buscam momentos de prazer sexual sem quaisquer restrições. Inclua-se a aí não só a prostituição como também o abuso de menores de idade. [1]

A Bíblia é repleta de ensinos contra a promiscuidade em qualquer uma de suas formas. Há ainda uma menção direta à questão de piadas de conteúdo imoral em Efésios 5.3-4, em que lemos:

“Entre vocês não deve haver nem sequer menção de imoralidade sexual como também de nenhuma espécie de impureza e de cobiça; pois essas coisas não são próprias para os santos. Não haja obscenidade, nem conversas tolas, nem gracejos imorais, que são inconvenientes, mas, ao invés disso, ação de graças.”

Reparem que a palavra usada para “gracejos imorais” pode ser traduzida por “obscenidades”. Neste sentido, infelizmente tenho ouvido entre homens cristãos piadas de sentido duplo, insinuações obscenas ou de um claro teor sexual. Nossa cultura é alegre e expansiva. Somos dados a piadas e brincadeiras. Um encontro social em que não haja uma brincadeira é raro. No entanto, Paulo adverte que devemos nos manter longe desse tipo de conversa. Nos versos 6-7 do mesmo capítulo, ele alerta:

“Ninguém os engane com palavras tolas, pois é por causa dessas coisas que a ira de Deus vem sobre os que vivem na desobediência. Portanto, não participem com eles dessas coisas.”

Reparem que é contra essas coisas que vem a ira de Deus. Deus é o criador do sexo e do prazer sexual. Contudo, toda vez que – na prática ou mesmo em piadas – uma mulher (ou homem) é diminuída e sua intimidade é exposta por atos ou palavras, a própria imagem de Deus é ofendida.

Não sei o que vai acontecer com esse médico brasileiro. Imagino que ele esteja profundamente arrependido de seus comentários infelizes. Imagino que, mesmo pedindo desculpas, haverá consequências. Mas ele não é culpado sozinho. Toda a nossa cultura, que cultua, enaltece e promove esse tipo de brincadeira, é responsável por tais atitudes. Minha oração, por você e por mim, é que saibamos nos divertir e divertir outros com brincadeiras e piadas – sem ofender, sem diminuir e, em última análise, sem gracejos imorais.

Nota

  1. Juliana Morales, “5 fatos sobre exploração sexual e tráfico de mulheres e crianças no Brasil”, Guia do
    Estudante
    , 23 set. 2020. Disponível em: https://guiadoestudante.abril.com.br/atualidades/5-fatos-sobre-
    exploracao-sexual-e-trafico-de-mulheres-e-criancas-no-brasil/
    .
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Daniel Lima foi pastor de igreja local por mais de 25 anos. Formado em psicologia, mestre em educação cristã e doutor em formação de líderes no Fuller Theological Seminary, EUA. Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida por 5 anos, é autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem 4 filhos, uma neta e vive no Rio Grande do Sul desde 1995.

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