Como reagir às expectativas que as pessoas têm de mim

Daniel Lima

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Seres humanos foram criados para viver em relacionamentos e para demonstrar a criatividade e a beleza de Deus. Devido à Queda, a dinâmica, a magia dos relacionamentos foi profunda e radicalmente afetada. A relação com o outro deveria expressar nossa parceria em servir ao Criador, deveria servir de apoio em nossa comunhão com o Pai, deveria, enfim, promover a beleza da imagem daquele que nos criou. No entanto, esta capacidade de viver em relacionamentos talvez se tornou nossa pior “cadeia” após a Queda.

Uma adolescente usa roupas desconfortáveis para fazer parte da turma. Uma jovem mãe se constrange, pois seu corpo não voltou à forma que tinha antes da gravidez. Um homem procura apresentar um padrão de vida superior ao que realmente tem, para que seus amigos não o considerem um fracassado. Uma jovem solteira sofre, pois a maioria de suas amigas já se casaram. Um homem idoso se deprime, pois, chegando à determinada idade, percebe que nunca atingirá o que esperavam dele.

Algumas destas frustrações podem ser fruto de decisões erradas, mas a maioria é fruto de expectativas que assumimos. Pense comigo como a opinião dos outros afeta nosso modo de viver. Desde a roupa que usamos, passando por escolhas que fazemos até quem nós acreditamos que somos, as opiniões dos outros afetam nossas vidas. Anos atrás ouvi de um amigo uma frase que tem ajudado a me libertar: “Se soubéssemos o quão pouco tempo os outros passam pensando sobre nós, não ficaríamos tão preocupados com o que eles pensam de nós”. A seguinte charge, bastante conhecida, é apropriada neste momento.

Sim, somos seres sociais e ao longo da vida desenvolvemos relações com pessoas importantes para nós. Queremos agradar estas pessoas, queremos que elas gostem de nós. Acredito que isso faz parte da nossa essência. A escravidão começa quando, ao invés de compartilharmos nossa vida com os outros, nós moldamos nossa vida para agradar o outro. Com isso distorcemos quem Deus nos fez, violamos nossas escolhas e negamos nossa identidade, atribuindo a outros o poder de determinar quem devemos ser, o que devemos fazer, como devemos viver.

A proposta cristã não é meramente resistir às expectativas que outros colocam sobre nós. A mensagem da cruz é de negar-se a si mesmo, tomar a cruz e seguir (Lucas 9.23). Há muita sabedoria em ouvir o que outros esperam de nós. O problema está em passar a fazer da aprovação dos outros o nosso critério de vida. Temos apenas um Senhor – não podemos ter outros. Nosso critério de certo e errado tem de ser Deus ou então estamos dando passos largos em direção à idolatria.

Nosso critério de certo e errado tem de ser Deus ou então estamos dando passos largos em direção à idolatria.

Como lidar com as expectativas que pessoas lançam sobre nós? Como a Bíblia nos instrui a conviver com estas demandas? O verso em Provérbios 29.25 nos oferece um roteiro para enfrentarmos estas expectativas que podem nos dominar: “Quem teme o homem cai em armadilhas, mas quem confia no Senhor está seguro”.

Deus, Israel e Jerusalém

O verso está escrito no estilo do paralelismo hebraico. A primeira frase afirma que temer ao homem leva a armadilhas; a segunda frase faz o contraste afirmando que confiar no Senhor traz segurança. O poder das expectativas está em suas falsas promessas. Quando percebo que alguém espera algo de mim, eu me esforço para realizar isso na expectativa de que a pessoa, ou fique feliz comigo, ou pense bem de mim, ou me admire. Minha felicidade ou bem-estar emocional está ligado à resposta que a outra pessoa vai dar. Por isso a Bíblia chama essa postura de “temor a homens”.

No entanto, esperar afirmação de pessoas é como cavar um buraco na areia da praia. Por mais que eu tire areia, as ondas sempre preencherão o buraco novamente. É uma tarefa sem fim. Pessoas nunca vão preencher o vazio em nossos corações. Só Deus pode fazer isso. Por isso o versículo de Provérbios segue adiante e afirma que estaremos seguros se colocarmos nossa dependência em Deus – mesmo que desagrademos a outros. Deus não se agrada de nós devido à nossa justiça, mas apesar da nossa injustiça. Em Romanos 5.8, lemos:

Mas Deus demonstra seu amor por nós: Cristo morreu em nosso favor quando ainda éramos pecadores.

Em minha relação com Deus, eu sou aceito, não corro o risco de ser rejeitado, desprezado ou condenado. Não dependo de ser percebido, aprovado ou admirado pelas pessoas (por mais que eu deseje tudo isso). Deus já fez isso tudo por mim.

Como reagir, então, às expectativas que as pessoas têm de mim? Eu quero atendê-las tanto quanto possível, mas reconheço que:

  1. Não vou conseguir agradar a todos;

  2. Não devo abandonar o que eu creio para agradar a todos;

  3. Meu valor pessoal não está na opinião que as pessoas têm de mim;

  4. Meu valor pessoal está naquele que me amou e deu sua vida por mim.

Minha oração é que possamos ser livres para amar, justamente por não depender da aprovação daqueles que nos cercam – mesmo daqueles a quem amamos.

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Daniel Lima foi pastor de igreja local por mais de 25 anos. Formado em psicologia, mestre em educação cristã e doutorando em formação de líderes no Fuller Theological Seminary, EUA. Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida por 5 anos, é autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem 4 filhos, uma neta e vive no Rio Grande do Sul desde 1995.

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