Em quem ou no que acreditar?

Daniel Lima

O primeiro turno das eleições passou. Agora começam os primeiros movimentos políticos visando o segundo turno. Um dos elementos mais surpreendentes nestas situações é como lidamos com a mídia social. Devo confessar que sou um forasteiro no mundo digital, talvez por isso admito também um profundo senso de impotência. Notícias se acumulam com uma velocidade alucinante. Acusações e contra-acusações. Posts obviamente mentirosos, de ambos os lados, colocados ali por pessoas que conheço e que, em circunstâncias normais, são pessoas razoáveis, sensatas e equilibradas. Fica muito difícil de saber em que acreditar e, consequentemente, em quem acreditar.

Neste quadro há um outro aspecto tanto ou mais surpreendente. Por força da lei, todo candidato deve apresentar um plano de governo. São documentos genéricos, mas que devem apresentar linhas gerais daquilo que os candidatos pretendem fazer. Tomei o tempo de ler vários deles. Devo dizer que foi trabalho árduo, foram muitas páginas com várias afirmações ousadas e soluções, a meu ver, fantasiosas. Sendo peças de campanha política, é óbvio que devem ser lidas com o devido cuidado e uma boa dose de desconfiança. Ainda assim, são declarações daquilo que os candidatos afirmam que pretendem fazer. São como cartas de intenções. O que tem me chocado é que muitos apoiadores, inclusive os mais ardorosos, de ambos os lados não leram estas propostas. Conversei um tempo atrás com um jovem inteligente, articulado e especialmente passional. Na época eu lhe perguntei se ele havia lido um destes documentos do seu partido com mais de 300 páginas. Ele, com extremo descaso, afirmou que não e que nem precisava ler... pois acreditava em seu candidato.

É possível acreditar tanto em uma pessoa, que, não importa o que ela diga, eu ainda lhe consagro minha lealdade? Por outro lado, é possível acreditar tanto naquilo que uma pessoa diz, que, não importa sua história, o que ela tem feito, eu ainda assim continuo a seguir seu discurso? Há, no campo da antropologia, um livro clássico escrito por Eric Hoffer (1898-1983) em que ele descreve movimentos de massa e o que ele chama de “true believer”. Estas são pessoas que, uma vez escolhido o foco de sua confiança, ou de seu ódio, desligam a mente e se recusam a ler, ouvir, analisar e ponderar. Na verdade, seu significado está em participar passionalmente de uma causa. Elas rejeitam com ardor a imparcialidade, pois é justamente no alinhamento radical (amando seu candidato ou partido e odiando o inimigo) que elas encontram sentido de vida. Mais do que as possíveis consequências desastrosas de suas escolhas, “true believers” temem estar errados.

Antes de lançarmos olhares de desprezo aos “true believers”, é preciso lembrar em primeiro lugar que um indivíduo nesta condição nunca se reconhece como tal. Em segundo lugar, basta lembrar da Alemanha na década de 1930 ou dos Estados Unidos na década de 1960 para entender que pessoas cultas e, em condições normais, bastante razoáveis podem, sim, se tornar massa de manobra. Cabe a nós mais uma autocrítica e autoanálise criteriosa do que nos apegarmos à soberba da certeza absoluta nestes pantanosos campos da política.

Como podemos, enquanto seguidores de Jesus, lidar com estes tempos tempestuosos? Como podemos discernir, em meio a tanta propaganda e tanta paixão mal informada, em que acreditar; ou melhor, em quem acreditar? Recentemente eu me deparei com uma passagem que me levou a refletir sobre este tema. Trata-se do curto relato de João 4.46-53:

Mais uma vez ele visitou Caná da Galileia, onde tinha transformado água em vinho. E havia ali um oficial do rei, cujo filho estava doente em Cafarnaum. Quando ele ouviu falar que Jesus tinha chegado à Galileia, vindo da Judeia, procurou-o e suplicou-lhe que fosse curar seu filho, que estava à beira da morte. Disse-lhe Jesus: “Se vocês não virem sinais e maravilhas, nunca crerão”. O oficial do rei disse: “Senhor, vem, antes que o meu filho morra!”. Jesus respondeu: “Pode ir. O seu filho continuará vivo”. O homem confiou na palavra de Jesus e partiu. Estando ele ainda a caminho, seus servos vieram ao seu encontro com notícias de que o menino estava vivo. Quando perguntou a que horas o seu filho tinha melhorado, eles lhe disseram: “A febre o deixou ontem, à uma hora da tarde”. Então o pai constatou que aquela fora exatamente a hora em que Jesus lhe dissera: “O seu filho continuará vivo”. Assim, creram ele e todos os de sua casa.

A história é bem simples. Um homem pediu a Jesus para curar seu filho, pois estava sem esperança de salvá-lo com os métodos que havia usado. Jesus lhe diz que seu filho já foi curado, ele crê, vai para casa e percebe que seu filho foi curado exatamente na hora em que conversou com Jesus. Com esta constatação o homem e sua família passam a crer em Jesus. Apesar da simplicidade do relato, há alguns princípios interessantes de se observar. Este homem creu na palavra de Jesus e, uma vez tendo verificado sua eficácia, creu em Jesus. Este processo parece simplista, mas talvez nos dê uma dica de um método para decidir no que e em quem acreditar.

Certamente já abundavam rumores (fake news) sobre Jesus. Os fariseus o acusavam de herege e blasfemo, os saduceus de agitador e revolucionário, os habitantes de Judá suspeitavam dele por ser nazareno e os galileus duvidavam dele por ser da região. Ele curava no sábado e se misturava com pessoas de má fama. Era um mestre, mas fazia coisas inesperadas e inconvenientes. Suas histórias eram cativantes, mas quase sempre surpreendiam os ouvintes. No entanto, em seu desespero este homem vai a Jesus e lhe apresenta sua necessidade, sua queixa, seu pedido. Jesus confronta a incredulidade dele e do povo, mas ele, usando da prerrogativa dos desesperados, continua insistindo para que Jesus venha com ele. Diante de uma fé tão sincera, tão sem opções, ele afirma que o filho estava curado. E então, e não perca este ponto, este homem simplesmente creu na palavra de Jesus. É bem provável que ele ainda não cria que Jesus era o Messias. Não acreditava que Jesus era o Filho de Deus. Talvez tivesse aquela vaga esperança, aquele sonho que empurramos para o lado pois parece ser bom demais para ser verdade. Como todo pai diante da impotência de cuidar de um filho, contra toda esperança, ele apenas se agarrou à palavra de Jesus. Em meio aos rumores contrários ele foi verificar se realmente a palavra dele havia se cumprido. Ao receber a notícia, talvez precisando de mais provas, ele ainda investiga a hora em que o filho havia melhorado. Confirmando o inegável fato de que foi no exato momento que recebera a palavra, ele e toda sua casa passaram a crer em Jesus.

Calendários 2019

Há um outro exemplo marcante de crer antes de ver. Raabe era uma prostituta em Jericó. Ela não tinha muitas informações, apenas rumores do que os inimigos de Israel diziam. Ela nunca havia visto um judeu, nunca tinha lido as Escrituras, não possuía muitas informações sobre o Deus de Israel. No entanto, ela afirma:

Sei que o Senhor deu a vocês esta terra... temos ouvido como o Senhor secou as águas do mar Vermelho perante vocês quando saíram do Egito, e o que vocês fizeram a leste do Jordão com Seom e Ogue, os dois reis amorreus que aniquilaram... pois o Senhor, o seu Deus, é Deus em cima nos céus e embaixo na terra (Josué 2.9-11).

Ela só tinha ouvido rumores, mas percebia seu povo assustado e chegou rapidamente a uma conclusão: é melhor me arriscar com este Deus, mesmo sem conhecê-lo, do que continuar confiando em meu povo. Com certeza não faltavam rumores deste Deus temível que havia destruído outros povos. No entanto, ela acreditou no que ouviu e concluiu: “Jurem-me pelo Senhor que, assim como eu fui bondosa com vocês, vocês também serão bondosos com a minha família” (Josué 2.12). Ela pede então um sinal seguro, mostrando que sua fé ainda é experimental – ela ainda precisa de garantias. Com certeza, após ser salva juntamente com sua família da destruição da cidade, ela passa a crer no Deus de Israel.

Crer em palavras de homens é perigoso. Não importa o quanto queiramos que algo seja verdade, a realidade tem esta teimosa maneira de nos chocar, despedaçando nossos sonhos e fantasias. No entanto, na escolha de um político precisamos deixar de lado a paixão, as conclusões absolutas, as certezas baseadas em rumores. Precisamos ouvir as palavras que cada candidato está falando e comparar com a realidade. Promessas são fáceis, especialmente em tempos de campanha. Cuidado com paixões e com as manipulações às quais estamos sempre sujeitos. De um modo mais profundo, minha oração é que as palavras de Deus ganhem mais espaço em nossos corações do que as promessas de qualquer político. Ele tem se mostrado fiel, já os políticos...

Daniel Lima foi pastor de igreja local por mais de 25 anos. Formado em psicologia, mestre em educação cristã e doutorando em formação de líderes no Fuller Theological Seminary, EUA. Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida por 5 anos, é autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem 4 filhos e vive no Rio Grande do Sul desde 1995.

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