Dores secretas

Daniel Lima

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Todos, ou quase todos, conhecem a história da “Roupa Nova do Rei”. Essa história conta sobre um rei vaidoso sendo enganado por dois indivíduos que afirmam poder costurar uma roupa visível apenas aos inteligentes. Já que tanto o rei como seus conselheiros não queriam ser identificados como não inteligentes, todos fingem admirar a excelente obra dos malandros. No final, após explorarem ao máximo o soberano, eles sugerem que o rei saia com sua roupa nova em um desfile. No entanto, durante o desfile, uma criança observa e comenta o óbvio: “O rei está nu!”.

Guardadas as devidas proporções, vivemos um fenômeno muito semelhante em muitas igrejas evangélicas. Há algo profundamente errado entre o discurso e a vivência do mundo evangélico! Por um lado, existe uma narrativa idealizada, de vitória e de ausência de sofrimento. Essa narrativa exige que líderes, famílias e comunidades desenvolvam uma vida pública condizente com esse discurso. Assim, todos afirmam que estão sempre bem. Afirmam que suas vidas são uma bênção; as famílias vivem na maior harmonia e pecados são ocorrências eventuais, de modo geral superadas e quase sempre do passado.

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Além da evidente mentira ou hipocrisia envolvida, existe um outro efeito que precisamos abordar. É o drama das dores secretas. Ao longo de 30 anos de vida pastoral, convivi com indivíduos e famílias que enfrentavam dores e dramas pessoais profundos. Seja um estado de depressão ou desânimo que persiste, ou decepções (fruto de desvios e surpresas da vida), ou traumas passados, ou mesmo conflitos quase insuperáveis dentro da própria família. Contudo, o que essas pessoas ouviam todo domingo em suas igrejas eram histórias de vitória e relatos de indivíduos e famílias quase perfeitas. Muito rapidamente a mensagem era entendida: a fé precisa ser vivida em vitória – devo esconder meus conflitos e minhas dores. Talvez eu não seja digno ou pelo menos a fé não funcionou para mim, para minha família…

Há algo profundamente errado entre o discurso e a vivência do mundo evangélico!

Essa distorção nega diretamente a essência do evangelho. Jesus afirma claramente que não veio para os sãos, mas para os doentes (Marcos 2.17). Ele não só veio para salvar pecadores, desestruturados e feridos, mas também deixa claro que a vida de um discípulo será difícil (João 16.33; Mateus 8.20). Mais tarde, é o apóstolo Paulo quem expressa essa realidade com maior clareza. Dando um testemunho pessoal, Paulo descreve sua própria situação como alguém que, mesmo salvo, continua lutando com a realidade do pecado e com traumas e dores do passado:

“Para impedir que eu me exaltasse por causa da grandeza dessas revelações, foi-me dado um espinho na carne, um mensageiro de Satanás, para me atormentar. Três vezes roguei ao Senhor que o tirasse de mim. Mas ele me disse: ‘Minha graça é suficiente a você, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza’. Portanto, eu me gloriarei ainda mais alegremente em minhas fraquezas, para que o poder de Cristo repouse em mim.” (2Coríntios 12.7-9)

O poder de cura, transformação ou mesmo o poder da consolação está disponível apenas para aquele que confessa e expõe seus problemas.

Já seria terrível se essa distorção atingisse apenas a essência do evangelho, mas há ainda outro efeito, que é justamente negar seu poder – pois uma situação dolorida que é ocultada não pode ser curada. Assim o indivíduo (ou família) que, pelo temor da rejeição, oculta sua dor está condenado a carregá-la para sempre, pois o poder de cura, transformação ou mesmo o poder da consolação está disponível apenas para aquele que confessa e expõe seus problemas. Conheço uma família cujo filho tem andado longe de Deus em uma área que lhes traz muita vergonha. Eles, para proteger o filho, optaram por ocultar essa luta. Por um lado, têm carregado essa dor sozinhos; por outro, a luta acabou se tornando evidente para muitos. A família, no entanto, continua com suas dores secretas.

 Davi foi usado por Deus para ilustrar a solução divina para situações assim:

“Enquanto eu mantinha escondidos os meus pecados, o meu corpo definhava de tanto gemer. Pois dia e noite a tua mão pesava sobre mim; minhas forças foram-se esgotando como em tempo de seca. Então reconheci diante de ti o meu pecado e não encobri as minhas culpas. Eu disse: ‘Confessarei as minhas transgressões’, ao Senhor, e tu perdoaste a culpa do meu pecado.” (Salmos 32.3-5)

A realidade da graça é incrivelmente atraente, quase boa demais para ser verdade, mas também aterrorizante, pois só tenho acesso à graça ao reconhecer minha necessidade. A graça está disponível, mas preciso atravessar o constrangimento de reconhecer que preciso dela! Ao curar o homem com a mão ressequida, Jesus o convidou a expor sua deficiência (Mateus 12.9-13). Ao conversar com a samaritana, Jesus a levou a reconhecer sua vida promíscua (João 4.16-18). Ao curar a mulher com o corrimento, Jesus pede que ela se apresente (Lucas 8.43-48). 

Precisamos viver o evangelho com maior profundidade em relação às dores e aflições que nos atingem. Precisamos permitir que nossas vidas sejam usadas por Deus como exemplo não só de vitórias, mas de como caminhar em meio à dor. Nesse sentido, talvez o primeiro passo seja, como igrejas locais, criarmos um ambiente onde essas dores podem ser compartilhadas. Um ambiente onde o ferido (ou fracassado, ou doente, ou aflito) pode ser cuidado e amparado. Talvez não gere uma história de sucesso de acordo com os padrões do mundo, mas pode ser uma ilustração viva do que Davi escreveu em Salmos 23.4: “Mesmo quando eu andar por um vale de trevas e morte, não temerei perigo algum, pois tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me protegem”.

Minha oração por você e por mim é que encontremos o ambiente onde possamos confessar nossas dores e sermos curados. Uma comunidade na qual a graça é vivida é algo muito poderoso e atraente.

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Daniel Lima foi pastor de igreja local por mais de 25 anos. Formado em psicologia, mestre em educação cristã e doutor em formação de líderes no Fuller Theological Seminary, EUA. Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida por 5 anos, é autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem 4 filhos, uma neta e vive no Rio Grande do Sul desde 1995.

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