Desânimo: péssimo conselheiro

Daniel Lima

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Todos nós já passamos por isso. Você tem um projeto ou um desejo, ou mesmo um sonho. Você se dedica, acredita que seu alvo é correto, justificado e louvável. Você se esforça, age com retidão quando muitos ao seu redor optam por um caminho mais fácil, com menos sacrifícios. Você investe tempo e energia que poderia ter utilizado em outras coisas. Você acredita além das evidências, não mede esforços, lançando-se nesta jornada de coração acreditando que um dia chegará lá... mas o dia não vem, o sonho fica opaco, os companheiros mudam de foco, suas forças começam a faltar, seu tempo parece passar. Seu coração perde aquela energia inicial. Dúvidas começam a invadir mais e mais a sua mente. Aqueles momentos em que você não está mais dormindo, nem plenamente acordado, agora são povoados por temores e até arrependimentos. Enfim, você se pergunta: “Será que deveria ter escolhido outro caminho?”.

O apóstolo Paulo passou por tal momento de desânimo. Em 2Coríntios 1.8, ele escreve: “Irmãos, não queremos que vocês desconheçam as tribulações que sofremos na província da Ásia, as quais foram muito além da nossa capacidade de suportar, a ponto de perdermos a esperança da própria vida”. O grande profeta Elias passou pela mesma coisa. Lemos em 1Reis 19.4: “Chegou a um pé de giesta, sentou-se debaixo dele e orou, pedindo a morte: ‘Já tive o bastante, Senhor. Tira a minha vida; não sou melhor do que os meus antepassados’”. Mesmo Jesus, Deus e homem, lidou com os efeitos de tensões acumuladas. O evangelista Marcos registra as seguintes palavras de Jesus: “A minha alma está profundamente triste, numa tristeza mortal” (14.34).

O desânimo certamente não é pecado em si. É apenas uma reação emocional às frustrações de vivermos neste mundo que jaz no Maligno. A grande questão é o que fazer quando o desânimo surge em nós.

O desânimo não é pecado em si. A grande questão é o que fazer quando o desânimo surge em nós.

Tomar decisões importantes quando se enfrenta o desânimo certamente não é uma boa ideia. O desânimo afeta nossa perspectiva de vida, roubando o nosso discernimento. Sendo assim, desânimo é um péssimo conselheiro. Vamos olhar um evento na vida de Davi, o homem segundo o coração de Deus. Ele já havia sido ungido (1Samuel 16), já havia matado o maior guerreiro filisteu (1Samuel 17). Ele já havia sido reconhecido pelo povo como um herói (1Samuel 18) e, justamente por isso, Saul procura matá-lo (1Samuel 19–26). No entanto, é no capítulo 27 de 1Samuel que encontramos Davi tomando uma decisão em meio a seu desânimo.

Ele havia acabado de escapar de Saul e demonstrar sua fidelidade a este rei perverso. Lemos no verso 1 do capítulo 27 de 1Samuel: “Algum dia serei morto por Saul. É melhor fugir para a terra dos filisteus. Então Saul desistirá de procurar-me por todo o Israel, e escaparei dele”.

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Unicamente um profundo desânimo pode explicar essa decisão. Davi tinha a promessa de Deus, a unção de Samuel, o reconhecimento do povo e o evidente fracasso de Saul como líder espiritual da nação. Deus o havia salvado em inúmeras situações, mas sua conclusão é: “Algum dia Saul vai me matar”. Esse pensamento é fruto de um profundo (e compreensível) desânimo.

Provavelmente não foi a primeira vez que Davi havia pensado assim. Por certo esse pensamento já havia cruzado sua mente. Por isso ele fugia e confiava nas promessas de Deus. No entanto, desta vez, ao se sentir desanimado, ele tomou uma decisão. E a decisão só pode ser entendida como ridícula (para nós que não estamos sob as mesmas pressões): “Vou fugir para os filisteus”! Esse era o povo que ele havia combatido durante toda a sua vida. Ele havia matado muitos filisteus. Para tornar a decisão ainda pior, ele se dirige a Gate, terra natal de seu maior inimigo – Golias. Somente uma mente transtornada pode mudar de direção desta forma. Em um momento ele é fiel e confia nas promessas do Senhor; no momento seguinte, ele abandona Israel e se muda para o campo inimigo.

Permanecer em Cristo, mesmo no desânimo, trará crescimento, convicções e esperança renovadas.

Esse é um exemplo do resultado de uma decisão tomada em um momento de desânimo. O sentimento é compreensível, e a decisão certamente foi tola, como os próximos capítulos do livro de 1Samuel registram. Deixe-me tentar alistar algumas lições que podemos tirar da história:

  1. Nunca esqueça daquilo que Deus prometeu, mesmo que as circunstâncias sejam totalmente adversas. Importa lembrar que Deus cumpre suas promessas, mas não tem nenhum compromisso com nossos desejos ou aquilo que achamos que ele prometeu;

  2. Quando se der conta de que está desanimado, não é hora de tomar grandes decisões. É hora de buscar a Deus, aguardar um estado mental e emocional mais equilibrado e, só então, decidir o que fazer;

  3. Quando for tomar uma decisão, Deus nunca contraria a Palavra dele. Mesmo que o rumo não esteja claro, passar para o lado do inimigo nunca é a direção de Deus – é a direção do Diabo;

  4. Uma decisão errada em geral nos leva a outras decisões erradas. O custo de abandonar o caminho de Deus é muito superior ao alívio de curta duração que podemos experimentar ao começar a caminhar por ali;

  5. O desânimo costuma vir logo antes de uma grande vitória de Deus em sua vida. Permanecer em Cristo, mesmo no desânimo, trará crescimento, convicções e esperança renovadas.

Minha oração é que, nestes dias tão sombrios, com tanta confusão e notícias trágicas, possamos – mesmo em meio à escuridão – manter o rumo que Deus nos apontou, sabendo que nele está o nosso socorro!

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Daniel Lima foi pastor de igreja local por mais de 25 anos. Formado em psicologia, mestre em educação cristã e doutor em formação de líderes no Fuller Theological Seminary, EUA. Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida por 5 anos, é autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem 4 filhos, uma neta e vive no Rio Grande do Sul desde 1995.

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