Como Reagir Quando Somos Acusados Injustamente

Daniel Lima

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No começo deste mês, um pastor, representando um colégio confessional evangélico, foi, em fato inédito, intimado a depor como investigado por declarações de que “a Bíblia Sagrada, a Palavra de Deus declara que homem é homem, mulher é mulher, menino é menino, menina é menina” [1]. Para muitos de nós não foi surpresa, visto que esperávamos algo assim há bastante tempo. Aparentemente o depoimento foi muito bem acolhido e o próprio pastor declarou que foi bem tratado. Ainda assim, é um primeiro ataque oficial ao ensino e entendimento cristãos da Bíblia. Dificilmente este caso vai avançar, mas consiste em uma tentativa de criar um precedente para caracterizar crenças religiosas como “crime de opinião”.

Como escrevi acima, isso não deveria constituir surpresa. Jesus deixou amplamente claro que seríamos levados a tribunais, odiados e atacados por amor a ele (Mateus 10.16-25). Que ninguém se engane: ensinar a integridade do texto bíblico sem adaptações ou “atualizações” é uma consequência direta de nosso amor pelo Mestre. Em outras palavras, não posso afirmar amar a Jesus e ao mesmo tempo duvidar de suas palavras registradas na Bíblia. O fato é que seguir a Jesus significa desagradar a pessoas, ainda que estejamos amando a estas mesmas pessoas. O conhecido pastor Tim Keller escreveu recentemente “Jesus não era um cara legal. Você não crucifica ‘caras legais’, você crucifica ameaças”. Não é possível ser um cara legal e seguir a Jesus ao mesmo tempo. Nossa fé em Jesus se baseia na crença de um Deus soberano e amoroso que, no entanto, confronta muitas concepções de vida.

Nossa bendita esperança não pode ser uma desculpa para não representarmos o Senhor Jesus diante do mundo.

O que deveria nos surpreender é como alguns cristãos têm reagido a estas perseguições. Por um lado, alguns se escondem e tentam ignorar o mundo orando para que o Senhor Jesus retorne logo (amém!). Contudo, nossa bendita esperança não pode ser uma desculpa para não representarmos o Senhor Jesus diante do mundo. Por outro lado, alguns cristãos reagem com ira e hostilidade contra grupos que atacam nossa fé. Ao ouvi-los, sou forçado a concordar com o conteúdo, mas lamentar pela forma de se expressar que praticamente nega suas palavras.

Vamos examinar de perto a passagem de Mateus 10.16-20 e investigar como devemos reagir ao sermos injustiçados:

“Eu os estou enviando como ovelhas no meio de lobos. Portanto, sejam astutos como as serpentes e sem malícia como as pombas. Tenham cuidado, pois os homens os entregarão aos tribunais e os açoitarão nas sinagogas deles. Por minha causa vocês serão levados à presença de governadores e reis como testemunhas a eles e aos gentios. Mas, quando os prenderem, não se preocupem quanto ao que dizer, ou como dizê-lo. Naquela hora, será dado o que dizer, pois não serão vocês que estarão falando, mas o Espírito do Pai de vocês falará por intermédio de vocês.”

É muito revelador que nosso Senhor tenha escolhido a ovelha para representar o cristão. Não somos comparados com águias ou leões, mas com ovelhas. Talvez a característica mais conhecida das ovelhas é sua mansidão e passividade. Ninguém consegue imaginar uma ovelha atacando, rosnando e tentando morder um lobo; afinal, tal postura é característica do lobo e não da ovelha. No entanto, alguns cristãos infelizmente têm tentado vencer os “lobos” lutando como lobos.

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A próxima comparação tem gerado muita controvérsia: astutos como serpentes e sem malícia como pombas. Para nós a serpente está sempre ligada à traição, ao mal. Esse certamente não é o sentido do uso de Jesus na passagem. Ele não nos diria para sermos maus ou traiçoeiros. Tendo trabalhado voluntariamente por alguns anos no Instituto Butantan, em São Paulo, posso dizer que serpentes não são traiçoeiras, mas animais que em geral preferem não se expor para evitar ataques de predadores. Por causa de seus hábitos, podem ser tidas como cuidadosas ou prudentes. O que Jesus está nos instruindo é justamente a não sair procurando conflitos ou “comprando briga”, mas sendo cuidadosos para, sempre que possível, manter a paz com todos (Romanos 12.18). Por isso a instrução seguinte – “sem malícia como as pombas” – não é conflituosa, mas complementa a primeira instrução. Somos chamados a sermos simples e não ardilosos ou desnecessariamente complexos; somos chamados a sermos transparentes e diretos em nosso discurso.

Por fim, a passagem nos chama a descansar quando formos levados diante de autoridades. O Espírito Santo vai nos dar o que devemos falar. Ser levado diante de uma autoridade como investigado com certeza não é algo confortável. Como cristão, no entanto, somos chamados a aproveitar essas oportunidades. Dessa forma, esses ataques, além de já previstos, devem ser encarados como parte do nosso chamado de discípulos de Cristo. Deixe-me resumir:

  1. Nossa estratégia é representar nosso Senhor Jesus e não partir para um conflito com as armas do mundo (2Coríntios 10.3-5; Efésios 6.12).

  2. Devemos ser cuidadosos para não criar conflitos desnecessários. Ao mesmo tempo devemos ser claros e diretos em nosso testemunho (1Coríntios 2.1-5).

  3. Devemos aproveitar as oportunidades nas quais somos confrontados não para nos defender, mas para proclamar o Senhor em quem cremos (1Pedro 3.13-17).

Minha oração, por você e por mim, é que sejamos encontrados fiéis nos desafios que nos são apresentados. Que nossas palavras e que nossas atitudes proclamem o Autor e Consumador da nossa fé (Hebreus 12.2).

Nota

  1. Tiago Chagas, “Pastor Jorge Linhares intimado pelo MP por dirigir escola cristã que rejeita ideologia de gênero”, Gospel+, 3 ago. 2021. Disponível em: https://noticias.gospelmais.com.br/jorge-linhares-intimado-rejeitar-ideologia-genero-148325.html

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Daniel Lima foi pastor de igreja local por mais de 25 anos. Formado em psicologia, mestre em educação cristã e doutor em formação de líderes no Fuller Theological Seminary, EUA. Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida por 5 anos, é autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem 4 filhos, uma neta e vive no Rio Grande do Sul desde 1995.

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