As Coisas Acabam em Pizza?

Daniel Lima

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Uma das expressões mais conhecidas hoje no Brasil é o “tudo acabou em pizza”. Pessoalmente, eu amo pizza, mas fico engasgado com a expressão pelo que ela representa. Essa expressão ficou nacionalmente famosa em uma discussão política em 1992, durante o processo de impeachment do presidente Collor. Seu significado é uma dura acusação à tendência brasileira de acomodação e impunidade quando poderosos são ameaçados.

Como brasileiros, odiamos o conflito, somos culturalmente afeitos à aparente gentileza, a “livrar a cara” evitando constrangimentos, a preservar relacionamentos e “amizades”. Inclusive porque estas podem ser úteis e necessárias em breve... Não somos bondosos ou gentis de verdade (basta ver os índices de criminalidade e violência doméstica). Gostamos, isso sim, de manter as aparências, de evitar o confronto, de preservar uma paz, ainda que apenas superficial.

Isso faz com que sejamos muito abertos, mesmo como povo evangélico, à doutrina herética do universalismo. Universalismo, em resumo, defende que, no final, todos serão salvos, ninguém será enviado ao inferno ou excluído do céu. Na verdade, essa doutrina resiste à própria ideia de inferno e não poucos esforços foram feitos para fundamentar essa heresia. O argumento mais comum é: “Como pode um Deus de amor condenar alguém à uma eternidade de sofrimento?”. Talvez o livro recente de maior projeção sobre o tema é O Amor Vence, do ex-pastor americano Rob Bell. Mas não precisamos ir longe: há vários pastores brasileiros que tem ou omitido qualquer menção ao inferno, ou promovido a ideia de que todos serão salvos, ainda que para isso tenham de “atualizar” a Bíblia. Historicamente, a posição universalista está associada a pensadores que negam a divindade de Cristo, os milagres e, obviamente, a morte substitutiva.

A doutrina do inferno ou da punição eterna e consciente daqueles que não confiam em Jesus Cristo é realmente difícil de “engolir”.

De qualquer forma, a doutrina do inferno ou da punição eterna e consciente daqueles que não confiam em Jesus Cristo é realmente difícil de “engolir”. O famoso teólogo inglês C. S. Lewis escreveu:

“Não existe doutrina no cristianismo que eu gostasse mais de remover do que esta, se tivesse esse poder. Mas ela tem o pleno apoio das Escrituras e, especialmente, das próprias palavras de Nosso Senhor; foi sempre mantida pela cristandade; e está fundamentada na razão”.[1]

Essa resistência, embora justificada por nossa miopia espiritual, é curiosa, pois Jesus foi quem mais falou sobre o inferno. Na verdade, ele falou mais do inferno do que todos os outros autores bíblicos juntos (por exemplo, Mateus 10.28). Os argumentos de que punição eterna é injusta ou desproporcional, ou mesmo sem sentido, ignoram, talvez propositalmente, o fato de que estamos sob a ira de Deus. Conforme João 3.36: “Quem crê no Filho tem a vida eterna; já quem rejeita o Filho não verá a vida, mas a ira de Deus permanece sobre ele”.

“Quem crê no Filho tem a vida eterna; já quem rejeita o Filho não verá a vida, mas a ira de Deus permanece sobre ele”. (João 3.36)

Dentre os muitos textos nos Evangelhos (a grande maioria) e o livro de Apocalipse, a segunda carta de Paulo aos Tessalonicenses afirma com grande ênfase a realidade do inferno:

“Ele punirá os que não conhecem a Deus e os que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus. Eles sofrerão a pena de destruição eterna, a separação da presença do Senhor e da majestade do seu poder.” (2Tessalonicenses 1.8-9)

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Há pelo menos quatro características que merecem ser destacadas: (1) punição, (2) destruição, (3) eternidade e (4) separação. 

  1. Por punição, entendemos a justiça de Deus em castigar nosso pecado. A realidade é que somos culpados de nossos pecados e já havíamos sido avisados de que, para Deus, as coisas não acabam em pizza, mas devem ter consequências – neste caso, punição (Marcos 9.42-48 e Hebreus 10.26-31).

  2. Por destruição, entendemos a seriedade e rigor dessa punição (Mateus 7.13-14 e Apocalipse 21.8). O conceito de destruição gerou em alguns pensadores a teoria do aniquilacionismo, ou seja, de que aqueles que morrem sem Cristo deixarão de existir. Embora trouxesse algum alívio (afinal, deixar de existir é melhor ou “menos pior” do que sofrer eternamente, não?), esse pensamento não se alinha com outras passagens.

  3. Por eternidade – ou seja, não deixar de existir – entendemos que a punição será contínua, para sempre. O primeiro argumento é que somos seres destinados à eternidade e a punição eterna não visa pagar nossos pecados, mas é o destino que nos cabe ao nos declararmos inimigos de Deus (Mateus 25.46 e Apocalipse 20.10).

  4. Por fim, entendemos que a separação significa o afastamento eterno do próprio Deus. Sendo ele a própria vida, o afastamento eterno dele pode ser entendido como a morte eterna (Mateus 25.41 e Apocalipse 22.14-15).

Nossa mente luta em aceitar algumas realidades bíblicas fartamente estabelecidas. Minha oração, no entanto, é que nem nossa “gentileza brasileira”, nem o desejo de ser “agradável”, nos faça evitar o ensino dessa dura realidade. Afinal, para aqueles que não confiam em Jesus Cristo como seu Senhor e Salvador, as coisas não acabam em pizza.

 

Nota

  1.  C. S. Lewis, O Problema do Sofrimento (Guarulhos, SP: Editora Vida, 2006), p. 85.

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Daniel Lima (D.Min., Fuller Theological Seminary) serviu como pastor em igrejas locais por mais de 25 anos. Também formado em psicologia com mestrado em educação cristã, Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida (SBPV) por cinco anos. É autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem quatro filhos, dois netos e vive no Rio Grande do Sul desde 1995. Ele estará presente no 25º Congresso Internacional Sobre a Palavra Profética, organizado pela Chamada.

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