A quem servimos

Daniel Lima

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Vivemos tempos de desconstrução de ideias, conceitos e valores antigos. Alguns devem mesmo cair, pois evidenciam distorções que vão diretamente contra o evangelho, como o machismo e o racismo. No entanto, parece que a onda revisionista não para aí. Como é característico do ser humano, movimentos que começam com boas intenções são logo “raptados” por interesses escusos e agendas perversas.

Um dos conceitos que tem sido desvirtuados é a expressão “lugar de fala”. A expressão foi lançada para defender que determinadas pessoas precisam ser ouvidas em suas opiniões e reinvindicações. No entanto, a expressão tem sido usada para interromper o diálogo, para cessar o debate. Assim, em várias discussões sobre aborto eu tenho ouvido que homens não devem falar ou manifestar suas opiniões. Por não passar pela gravidez, o homem “não tem lugar de fala” nessa discussão. Essa é uma distorção grosseira e mal-intencionada onde, teoricamente, para defender a liberdade de expressão, algumas pessoas perdem o direito de se manifestar.

Esse tema, assim como outros, se baseia em um princípio humanista de que cada um sabe o que é melhor para si mesmo. Nesse sentido surge uma desconfiança de quase qualquer tipo de autoridade. Como cristãos, sabemos que a decisão de Adão e Eva de tomar para si o direito de decidir o certo e o errado foi a própria origem da Queda. Ao tomar e comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal (Gênesis 3), a humanidade assumiu esse direito, estabeleceu sua autonomia. Esse anseio pela autodeterminação tem chegado a todos os aspectos da vida humana. É o pensamento basilar de quem defende o aborto, de quem defende sexo irresponsável e de quem defende práticas que contrariam os limites estabelecidos por Deus.

Pastores e líderes têm se tornado cada vez mais secretários executivos, limitados a cumprir a vontade da maioria.

No campo da liderança cristã, seja em igrejas, seja em outras comunidades, percebe-se a mesma tendência. Pastores e líderes têm se tornado cada vez mais secretários executivos, limitados a cumprir a vontade da maioria. Copiando a máxima humanista, Vox populi, vox Dei (a voz do povo é a voz de Deus), o papel desses homens e mulheres é mais levar adiante decisões escolhidas pela maioria do que indicar rumos apontados por Deus. O argumento desse desvio é justamente a ideia de serviço. Ou seja, o líder cristão é apenas um servo, portanto seu papel é cumprir a vontade do povo que lidera.

Há algumas semanas, eu escrevi o artigo “Um reino de cabeça pra baixo”. Nesse artigo, tratei do mandamento de Cristo de sermos servos e como isso desafia a concepção moderna de sucesso (Marcos 10.42-45). Examinei ali os primeiros versos da passagem conhecida como “lava-pés” (João 13). Nessa passagem fica claro que Jesus serviu por amor e por estar seguro tanto de quem era como de sua origem e propósito.

A passagem continua e há muito para aprendermos sobre a quem servimos. Servimos a Deus ou as pessoas? É óbvio que servimos os dois e que não há espaço na comunidade cristã para líderes autoritários e dominadores (1Pedro 5.1-5). O texto que quero destacar é João 13.5-10:

“Em seguida Jesus pôs água numa bacia e começou a lavar os pés dos discípulos e a enxugá-los com a toalha com que estava cingido. Quando se aproximou de Simão Pedro, este lhe perguntou: ‘Vai lavar os meus pés, Senhor?’ Jesus respondeu: ‘O que eu faço você não compreende agora, mas vai entender depois.’ Então Pedro disse: ‘O senhor nunca lavará os meus pés!’ Ao que Jesus respondeu: ‘Se eu não lavar, você não terá parte comigo.’ Então Pedro lhe pediu: ‘Senhor, não somente os pés, mas também as mãos e a cabeça.’ Jesus respondeu: ‘Quem já se banhou não precisa lavar nada, a não ser os pés, pois, quanto ao mais, está todo limpo. E vocês estão limpos, mas não todos.’”

 Quero destacar algumas verdades em meio a essa história tão rica. É importante observar que Pedro, com seu temperamento impulsivo, ainda não entendeu plenamente seu papel diante do Mestre. Ele ainda quer determinar como Jesus deve proceder. Se Jesus fizesse a vontade de seu discípulo, este perderia a benção da lição sendo ensinada. Na verdade, Pedro não tinha condições de avaliar a situação (v. 7). Não é raro que, em determinada situação, a pessoa sendo servida não tenha plena compreensão do que necessita ou do que precisa ser feito. Se o líder se submeter a ela, deixará de servir a essa pessoa.

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Jesus continua gentilmente em seu propósito ao afirmar que Pedro “vai entender depois”. Em outras palavras, Jesus tinha clareza de seu chamado e do que fazia naquela situação específica. Ele, por meio de sua comunhão com o Pai, tinha um mandato divino. Deixar de cumpri-lo seria deixar de servir a Deus.

Não é raro que, em determinada situação, a pessoa sendo servida não tenha plena compreensão do que necessita ou do que precisa ser feito. Se o líder se submeter a ela, deixará de servir a essa pessoa.

Em um sentido muito claro, o propósito de Jesus era ministrar a seus discípulos (até o dia de hoje) deixando lições fundamentais. Ao rejeitar o papel de servir a vontade de Pedro, Jesus serviu a este mesmo Pedro, pois estava em sintonia com o Pai.

Em resumo, a quem servimos? Servimos a Deus, servindo pessoas. Servir pessoas sem um compromisso essencial de servir a Deus é tornar-se, na melhor das hipóteses, um demagogo e, na pior, um manipulador. Minha oração é que, em qualquer dimensão de liderança, você e eu tenhamos muito claro o compromisso de servir primeiro a Deus e, dirigido por ele, motivado por ele e orientado por ele, servirmos às pessoas que nos foram confiadas.

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Daniel Lima (D.Min., Fuller Theological Seminary) serviu como pastor em igrejas locais por mais de 25 anos. Também formado em psicologia com mestrado em educação cristã, Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida (SBPV) por cinco anos. É autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem quatro filhos, dois netos e vive no Rio Grande do Sul desde 1995. Ele estará presente no 25º Congresso Internacional Sobre a Palavra Profética, organizado pela Chamada.

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