A fé na esfera pública

Daniel Lima

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Como evangélicos, das mais diferentes denominações e perspectivas doutrinárias, ficamos felizes de ver um pastor evangélico indicado e aprovado para o Supremo Tribunal Federal. O dr. André Mendonça torna-se então o primeiro juiz dessa corte que se declara abertamente evangélico. Para alguns, esse passo significa a igreja evangélica ganhando poder, para outros é meramente uma questão de representatividade. No entanto a sabatina conduzida no Senado trouxe à tona um debate que está longe de ser encerrado. Qual o papel da fé na vida pública?

Em dado momento da sabatina um dos senadores insistiu no posicionamento do candidato caso tivesse de votar sobre casamento homoafetivo. A pergunta em si já é uma distorção, pois juízes do STF não são escolhidos por suas posições, ou pelo menos não deveriam ser. Em resumo, posições pessoais ou morais não fazem parte do critério de escolha. O questionamento, no entanto, visava destacar um conceito que tem sido defendido, para meu espanto pessoal, mesmo por intelectuais cristãos. O conceito é que a fé do indivíduo não deve afetar sua vida pública.

Tenho visto esse conceito defendido, por exemplo, no debate sobre aborto. Quando alguém afirma que crê que a vida tem início na concepção, o outro lado já grita: “Você não pode impor sua fé sobre os outros!”. Essa afirmação é absurda em pelo menos dois níveis: (1) o debate não se trata de impor algo, mas de discutir ideias sobre o que é melhor para a sociedade em que vivemos e (2) os que defendem a legalização do aborto creem que a vida humana tem início mais tarde, portanto também estão defendendo algo que acreditam e, por isso, é matéria de fé.

O conceito de que fé não deve ser expressa na vida pública teve início a partir do Iluminismo e se encontra em prática em alguns países, como a França. A jornada do Iluminismo até hoje começou separando fé e fato, onde fé é matéria da religião e fato é matéria de ciência. Com isso, fé e religião se tornam algo separado da vida da sociedade em geral. O conceito foi evoluindo até que fé se tornou algo privado, de foro íntimo, sendo considerado incorreto até mesmo perguntar sobre a fé de alguém.

O conceito de que fé não deve ser expressa na vida pública teve início a partir do Iluminismo e se encontra em prática em alguns países.

No entanto, como cristãos, podemos separar nossa vida assim? Podemos afirmar que há áreas da vida onde nossa fé não atua ou não tem impacto? Podemos concordar com a frase daquele mesmo senador ao afirmar que, apesar de cristão, “nunca pauto minha vida levando para o lado da religiosidade”? Alguém que nunca pauta sua vida levando para o lado da religiosidade pode ser chamado de cristão?

O famoso teólogo, primeiro-ministro e educador holandês, Abraham Kuyper, afirmou muito acertadamente que “não há um centímetro quadrado deste mundo do qual Cristo não possa dizer: é meu”. Desde o Antigo Testamento, amar a Deus era algo que envolvia a integralidade de sua vida. Isso não significa que um cristão não possa ter uma vida fora do ambiente religioso, mas significa que para ele ou ela, tudo é religioso, tudo é uma questão de fé. Fazer menos que isso é diminuir nosso Deus. 

Na passagem de Colossenses 1.15-20, o apóstolo Paulo apresenta as bases da doutrina de Cristo e podemos obter deste trecho os fundamentos do fato de que nossa fé é abrangente:

Ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação. Pois nele foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele.

Tudo foi criado por ele e para ele. Reparem que mesmo poderes e tronos foram criados por ele. Dessa forma, para os cristãos, até mesmo o estado não é um território onde Deus não tem influência ou onde ele seja proibido. É óbvio que existem leis a serem seguidas e regras humanas a serem obedecidas, mas deixar de lado sua fé ao entrar na vida pública é definitivamente anticristão.

Como cristãos, somos chamados a viver cientes de que a própria existência está no âmbito do poder de Deus.

O versículo 17 afirma que nele tudo subsiste, ou seja, a própria existência repousa em Cristo. Isso significa que fora de Cristo nada existe. Essa verdade não é aceita por aqueles que não o reconhecem como Senhor e isso é um direito deles. No entanto, como cristãos, somos chamados a viver cientes de que a própria existência está no âmbito de seu poder.

Os versos 19 e 20, no entanto, são os que mais diretamente revelam a vontade de Deus e seu propósito para o mundo:

Porque Deus achou por bem que, nele, residisse toda a plenitude e que, havendo feito a paz; pelo sangue da sua cruz, por meio dele, reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, quer sobre a terra, quer nos céus.

Em Cristo habita toda a plenitude, ou seja, uma vez mais não há nada fora do alcance de seu poder. Como cristão, eu sou chamado a no mínimo afirmar seu poder e suas reivindicações, mesmo diante de um mundo incrédulo. E o propósito de Deus é reconciliar nele todas as coisas, ou seja: o mundo, as pessoas, suas instituições, cultura e mesmo ciência estão em conflito com Cristo, por isso tudo precisa ser reconciliado com ele. 

Não sei como nosso irmão vai navegar as turbulentas águas que o aguardam no STF. Muito embora não o conheça, fico temeroso ao ler que ele mesmo afirmou que “na vida a Bíblia, no STF, a constituição”. É de se esperar de um jurista competente que não use de seu cargo na suprema corte para pregar sermões ou dar aula de teologia. Sua argumentação deve se pautar pela constituição. Ao mesmo tempo oro para que ele, assim como eu e você, possamos afirmar nossa fé no Deus soberano aonde quer que ele nos leve.

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Daniel Lima foi pastor de igreja local por mais de 25 anos. Formado em psicologia, mestre em educação cristã e doutor em formação de líderes no Fuller Theological Seminary, EUA. Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida por 5 anos, é autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem 4 filhos, uma neta e vive no Rio Grande do Sul desde 1995.

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