A Esperança e o Natal

Daniel Lima

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Esperança é o que nos move. Esperança de que o dia vai ser bom, ou pelo menos melhor que ontem. Esperança de que hoje vou conseguir um emprego, ou pelo menos não vou perder o que tenho. Esperança de que hoje ele vai responder, ou então de que hoje ele não vai se esquecer de mim... Esperança é elemento fundamental de uma vida minimamente saudável. Viver sem esperança deixa de ser viver, torna-se no máximo sobreviver.

Logo no início da humanidade, após a terrível e eternamente trágica escolha de Eva, ela ouviu que o seu descendente pisaria a cabeça da serpente (Gênesis 3.15). Eu imagino que Eva viveu o resto de sua vida à espera dessa bendita semente. Ela pensou ser Caim o pisador de serpentes, ou quem sabe Abel. Talvez, após a decepção da perda dos dois filhos, sua esperança se voltou para Sete, afinal, foi em sua época que se começou a invocar a Deus (Gênesis 4.25-26). A partir de Eva, toda mulher que temia a Deus e conhecia sua história tinha, ainda que temerosa, a esperança de que, quem sabe, seu filho iria pisar a cabeça da serpente e destruir a maldição.

Daqueles que naturalmente não tinham esperança veio o portador da esperança, a linhagem de onde viria eventualmente o pisador de serpentes.

Podemos imaginar as filhas de Eva com a mesma esperança, talvez a esposa de Noé. Certamente Sara teve essa esperança por anos, mesmo diante da crua realidade da esterilidade. Percebemos que, ao longo do tempo, ela começou a se proteger dessa expectativa que, de tão desejada, tornou-se amarga diante de sua incapacidade de gerar filhos. Assim, ela se resignou a ponto de dar risada ao ouvir a promessa do anjo (riso nervoso? Defesa emocional de uma esperança já amortecida? – Gênesis 18.10-14). A promessa foi cumprida. Daqueles que naturalmente não tinham esperança veio o portador da esperança, a linhagem de onde viria eventualmente o pisador de serpentes.

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A linhagem continua e o número de mulheres estéreis, abandonadas, traídas e abusadas é enorme. Das cinco mulheres mencionadas na linhagem de Jesus (Mateus 1), todas eram improváveis: uma era estrangeira, viúva e rejeitada, que acabou adulterando com o próprio sogro. A outra era uma estrangeira e prostituta, que traiu sua cidade em favor do exército invasor. Outra era uma viúva estrangeira, sem herança, sem direito, aparentemente sem esperança. A próxima era uma esposa adúltera e, por fim, uma adolescente virgem. Cada uma delas era improvável. O pisador de serpentes não poderia vir delas, certo?

O mesmo pode ser dito dos homens nessa linhagem: traiçoeiros, enganadores, assassinos, adúlteros. Se puder, pare e leia com atenção Hebreus capítulo 11. Repare como os personagens ali chamados de heróis da fé não eram modelos de santidade e retidão. O que os destacava era sua fé, seu contínuo arrependimento e retorno ao Senhor. Parece que Deus escolhe gente sem qualificação para trazer esperança. Eram um bando de improváveis. E, ainda assim, todos que temiam a Deus ainda esperavam o pisador de serpentes (Hebreus 11.39-40).

Natal é um ponto crucial da história. Natal faz sentido para aqueles que esperavam o pisador de serpentes, aquele que poderia pôr um fim à maldição que pesava sobre nós.

Eu e você conhecemos e celebramos a história do Natal. Como diz o antigo cântico, “pois na história tem o seu lugar”. Uma longa história de improbabilidades, de esterilidade, de rebeldia, de exclusões, que é tecida pelo inquebrável fio do amor e da fidelidade de Deus. E, de forma ainda profundamente, escandalosamente improvável, nasceu o pisador de serpentes, de uma adolescente virgem, parte de um povo oprimido por um império idólatra, cruel e abusivo. Nasce o descendente prometido, pois a história não corria sem rumo ou sem direção, mas conduzida pela poderosa mão daquele que, despindo-se de sua glória, nasce frágil e vulnerável.

Natal é um ponto crucial da história. Natal faz sentido para aqueles que esperavam o pisador de serpentes, aquele que poderia por um fim à maldição que pesava sobre nós (Colossenses 2.13-14).

Ao mesmo tempo, para aqueles que não se apropriaram dessa obra libertadora, o Natal, ao invés de uma época de festas e tradições, é um momento vazio. É terrível e tem consequências eternas rejeitar aquele que foi prometido, o único que pode nos livrar da maldição. É como rejeitar o único remédio que pode trazer cura, ou empurrar a mão que se estende quando você está se afogando. Rejeitar a Jesus é rejeitar o amor da verdade que os poderia salvar (2Tessalonicenses 2.10).

Natal só faz sentido diante da Cruz e do túmulo vazio. Pois o Cristo que veio morreu para pagar nossa dívida e ressuscitou para nos dar o que o pecado havia roubado, a vida eterna. Minha oração é que a esperança celebrada neste Natal seja de uma vida em intimidade e dependência de Deus. Que seja um momento crucial, mas um que nos leve a uma maior profundidade nessa longa história do amor e fidelidade de Deus que se revela em sua redenção.

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Daniel Lima foi pastor de igreja local por mais de 25 anos. Formado em psicologia, mestre em educação cristã e doutor em formação de líderes no Fuller Theological Seminary, EUA. Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida por 5 anos, é autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem 4 filhos, uma neta e vive no Rio Grande do Sul desde 1995.

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