Vox Populi, Vox Dei... Será?

Daniel Lima

A fragilidade da democracia e sua incapacidade de nos trazer esperança.

O antigo ditado citado no título acima afirma que a voz do povo é a voz de Deus. Nestes dias que precedem o segundo turno de uma das eleições mais delicadas e tensas de nossa história recente, esta é uma questão digna de ser examinada com muita cautela, ou corremos o risco de engolir a pizza sem tirá-la da caixa... Poucos cristãos hoje concordariam com este ditado; ainda assim, assistimos discussões acaloradas e até mesmo conflitos que indicam que ainda colocamos muita da nossa esperança neste processo. Tenho ouvido ou lido cristãos que este ou aquele homem é a esperança para o povo de Deus em nosso país. Será? Afinal, devemos e podemos ter esperança no processo democrático? Este é o processo que vai levar nosso país a um futuro melhor? O resultado deste pleito, assumindo a idoneidade do processo, será um passo adiante?

É importante destacar a princípio que eu não conheço um modelo melhor do que o processo democrático para um país tão plural. Idealmente, um governo teocrático seria nossa esperança (“Como é feliz a nação que tem o Senhor como Deus” – Salmo 33.12a). Neste cenário teríamos de desenvolver um sistema onde a vontade de Deus, seus princípios de cidadania e de convívio fossem de fato expressos e implementados. No entanto, as experiências históricas mais recentes de um governo teocrático têm se mostrado no mínimo inócuas e, em sua pior versão, catastróficas. Ao tratar do tema durante um discurso na Câmara dos Comuns em 11 de novembro de 1947, o grande líder inglês Winston Churchill afirmou: “Ninguém pretende que a democracia seja perfeita ou sem defeito. Tem-se dito que a democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos”.

Tem-se dito que a democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas.

Considerando esta perspectiva, é evidente que devemos nos comprometer com o processo eleitoral. Não só cumprindo um dever de cidadãos, como também usando os direitos do sistema democrático para manifestar nossa opinião. A questão que carece de nossa atenção é em que medida devemos depositar no processo democrático nossa esperança de um futuro melhor.

Vamos, novamente, examinar o texto bíblico buscando orientação ou, neste caso, relatos que nos permitam abstrair princípios de vida. A primeira narrativa que escolhi é a de Êxodo 16.1-3. O texto descreve que o povo de Israel havia atravessado o mar Vermelho recentemente. Esta passagem pelo mar foi talvez um dos maiores milagres do Antigo Testamento. O povo atravessou a pé seco; no entanto, o exército egípcio se afogou (Êxodo 14). A poderosa mão de Deus demonstrou, acima de qualquer dúvida, seu amor e cuidado por seu povo. Este seria um momento de celebrar, de confiar que o Deus que abriu o mar lhes traria conforto, alimento e proteção. Ainda assim, quando chegam ao deserto de Sim, apenas 45 dias após atravessarem o mar, enquanto enfrentam a dura realidade do deserto, da viagem, o povo declara:

Quem dera a mão do Senhor nos tivesse matado no Egito! Lá nos sentávamos ao redor das panelas de carne e comíamos pão à vontade, mas vocês nos trouxeram a este deserto para fazer morrer de fome toda esta multidão! (Êxodo 16.3)

A rapidez com que o povo mudou de opinião após um milagre tão grande demonstra como a opinião pública pode ser volúvel e, portanto, pouco confiável. Antes de criticá-los eu convido você a se lembrar de como reagimos após receber uma benção de Deus pela qual oramos e ansiamos por um longo tempo. Infelizmente, vejo em minha vida e na vida de outros o quão rápido meu coração se inclina para a ingratidão. Esta característica de mudanças tão rápidas é um dos fatores principais que facilita a manipulação por agentes políticos, grupos de interesse ou pela mídia em geral. Curiosamente, esta facilidade de mudar de opinião não depende do nível econômico ou educacional. Recentemente ouvi de um estudioso europeu que a Europa está se aproximando da possibilidade de um regime totalitário. Seu argumento é que uma vez que a segurança é ameaçada, o povo se amedronta e rapidamente aceita trocar a liberdade pela volta da sensação de segurança. Este é o mesmo modo de pensar que vemos no versículo acima. Uma vez que a libertação da escravidão no Egito trouxe consigo insegurança quanto ao futuro, quanto à alimentação e mesmo quanto à moradia, o povo estava pronto para voltar à escravidão. É importante observar que a opinião pública neste caso era frontalmente não só contra o que haviam pedido nos últimos séculos, mas abertamente contra Deus!

A segunda narrativa que vamos investigar é Marcos 15.6-15:

6Por ocasião da festa, era costume soltar um prisioneiro que o povo pedisse. 7Um homem chamado Barrabás estava na prisão com os rebeldes que haviam cometido assassinato durante uma rebelião. 8A multidão chegou e pediu a Pilatos que lhe fizesse o que costumava fazer. 9“Vocês querem que eu solte o rei dos judeus?”, perguntou Pilatos, 10sabendo que fora por inveja que os chefes dos sacerdotes lhe haviam entregado Jesus. 11Mas os chefes dos sacerdotes incitaram a multidão a pedir que Pilatos, ao contrário, soltasse Barrabás. 12“Então, que farei com aquele a quem vocês chamam rei dos judeus?”, perguntou-lhes Pilatos. 13“Crucifica-o!”, gritaram eles. 14“Por quê? Que crime ele cometeu?”, perguntou Pilatos. Mas eles gritavam ainda mais: “Crucifica-o!” 15Desejando agradar a multidão, Pilatos soltou-lhes Barrabás, mandou açoitar Jesus e o entregou para ser crucificado.

Certamente a morte vicária era o plano de Deus desde a eternidade passada, conforme as muitas profecias do Antigo Testamento. No entanto, é curioso observarmos o processo do julgamento e da condenação de Jesus. Em primeiro lugar, um dos fundamentos do Império Romano, inclusive talvez uma de suas maiores contribuições ao mundo ocidental, é justamente o sistema de justiça romano. Para que o Império pudesse se manter, Roma contava não apenas com sua máquina militar impressionante, mas também com seus muitos aliados. A estes eram oferecidas as vantagens de se viver sob a Pax Romana. O Império Romano começou a ruir quando este compromisso com seu sistema jurídico passou a ser comprometido.

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Pilatos, governador e representante máximo de Roma, aparentemente tentou preservar o processo jurídico e evitar tumultos que prejudicassem a paz de sua província. Tentar manter o equilíbrio entre o que é certo e o que agrada o povo é sempre uma tarefa muito difícil. Já foi dito que o segredo do fracasso é tentar agradar a todos. Ainda assim, mesmo identificando que a motivação dos chefes dos sacerdotes era a inveja e não a justiça (verso 10), Pilatos tenta por um lado preservar a justiça romana e por outro agradar ou apaziguar o povo (verso 15). Seguindo um antigo costume de libertar um preso na época da Páscoa, ele lhes oferece a escolha entre Barrabás e Jesus.

Não existem registros históricos a respeito de Barrabás, exceto de que era culpado de assassinato, provavelmente mesmo de criar tumultos. Seu nome pode significar “o filho do pai” ou “o filho do mestre”. Era um criminoso famoso e não há qualquer menção de que fosse inocente. Aparentemente era um inimigo aberto de Roma. Pilatos pediu então ao povo que escolhesse entre Jesus e um terrorista! Por que então o povo escolheu libertá-lo ao invés de libertar a Cristo? O texto deixa claro que a multidão fez sua escolha incitada pelos sacerdotes. Talvez a maioria dos presentes fosse do partido dos sacerdotes, talvez gritaram sem pensar – multidões são conhecidas por fazerem isso. No entanto, o resultado final foi que escolheram libertar um criminoso e libertar um assassino.

A opinião pública é volúvel e, com muita frequência, incoerente.

Estas e outras narrativas bíblicas, e mesmo tantas outras que conhecemos na história ou pessoalmente, mostram que a opinião pública é volúvel e, com muita frequência, incoerente. Continuo a afirmar que a solução não está em abandonar a democracia, mas compreender sua fragilidade. Como cristãos, nossa esperança não está nesta eleição e me arrisco a dizer que não importa qual candidato vença, todos ficarão decepcionados após algum tempo. Uns por não concordarem com as direções tomadas; outros porque os avanços pretendidos não foram suficientes; e outros ainda porque suas demandas, apesar de prometidas, nem sequer foram consideradas nas ações do futuro governante.

Assim, deixe-me resumir algumas observações e lições que abstraio destas narrativas:

  1. A voz do povo não é a voz de Deus. Aliás, com frequência impressionante é justamente contrária à voz de Deus.

  2. A opinião pública não é coesa, coerente ou sequer duradoura. Pelo contrário, é marcada por ser volúvel e manipulável.

  3. Tentar agradar a todos não é só impossível como também destinado a produzir decisões inconsistentes.

  4. Excetuando os curtos períodos de um governo teocrático saudável, pessoalmente não conheço um sistema melhor (ou menos pior) que o democrático.

  5. Todo cristão deve se envolver no processo democrático sem, no entanto, colocar neste processo ou nos governantes eleitos sua esperança. Como afirma o apóstolo Paulo: “Se trabalhamos e lutamos é porque temos depositado a nossa esperança no Deus vivo, o Salvador de todos os homens, especialmente dos que creem” (1Timóteo 4.10).

Minha sincera oração é que tanto eu como você, e na verdade todo cristão, estejamos envolvidos no processo democrático, mas sem perder de vista aquele que é o Autor e Consumador da nossa fé. Não creio que a democracia nos garanta a realização da vontade de Deus, mas sim que é o melhor processo que este mundo caído tem conseguido para ordenar seu viver. Ainda assim, nossa esperança não está neste processo, mas naquele que está acima de todo nome. Participamos desta vida, mas apontamos nossa esperança no reino que há de vir.

Daniel Lima foi pastor de igreja local por mais de 25 anos. Formado em psicologia, mestre em educação cristã e doutorando em formação de líderes no Fuller Theological Seminary, EUA. Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida por 5 anos, é autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem 4 filhos e vive no Rio Grande do Sul desde 1995.

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