Trump e seu "negócio do século"

Johannes Gerloff

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Quem estava preocupado com a solução de dois Estados ou temia que o “negócio do século” de Trump impossibilitaria as negociações israelense-palestinas, pode se tranquilizar. Nem Trump nem Netanyahu parecem enxergar alguma alternativa para a solução de dois Estados. E as ideias de Trump, recebidas tão entusiasticamente por Netanyahu, não serão aplicáveis sem negociações diretas com os palestinos.

Todavia, as maiores incógnitas da nova equação consistem naquilo que se deva entender por “Estado” e se os palestinos estarão dispostos a sentar à mesa com os israelenses.

Em dezembro de 2017, “o presidente americano mais amigo de Israel em todos os tempos” reconheceu Jerusalém como capital do Estado de Israel. Em maio de 2018, a embaixada americana foi transferida para lá. Em março de 2019, Trump reconheceu a anexação das Colinas de Golã pelo Estado judeu. E agora, em janeiro de 2020, ele confirmou a legalidade da reivindicação israelense pela Judeia e pela Samaria.

Prosperidade por meio da paz

O documento intitulado Peace to Prosperity [Paz para a prosperidade] abrange 181 páginas. A ideia básica é que deverão existir dois Estados. Nesse contexto, a segurança de Israel teria máxima prioridade. Em princípio, o “negócio do século” de Trump admite a situação atual como realidade, reconhece-a e consolida-a legalmente.

Propõe-se que os Estados Unidos reconheçam os assentamentos de Israel na Margem Ocidental e sua soberania sobre a maior parte de Jerusalém. Israel poderia anexar todos os assentamentos e o vale do Jordão. Numerosas pequenas comunidades israelenses ficariam cercadas por território palestino como “enclaves”, mas estariam sob domínio israelense.

Em troca, Israel congelará por quatro anos todas as novas atividades de assentamento. Durante esse período, seria negociado um Estado palestino. Segundo as ideias de Trump, Israel cederia aproximadamente 70% da Judeia e da Samaria. O mapa anexo ao “negócio do século” de Trump inclui grandes enclaves palestinos no Neguebe ocidental, que até agora são território israelense e constituem uma área maior que a própria Faixa de Gaza.

Estradas, pontes, túneis

Um complexo sistema de estradas, fronteiras, pontes e túneis possibilitaria ampla liberdade de movimento tanto a israelenses como a palestinos. Quem se desloca hoje pela margem ocidental do Jordão já convive amplamente com essa realidade.

Uma novidade real será um túnel de 34 quilômetros de extensão que ligará o monte Hebrom com a Faixa de Gaza. Em termos de extensão, esse túnel estaria mundialmente em sétimo lugar. Somente a China, a Coreia do Sul, a França, a Grã-Bretanha, o Japão e a Suíça têm túneis mais extensos.

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Os críticos contestam que todas as estradas de ligação palestinas, bem como as fronteiras desse Estado palestino seriam inteiramente controladas por Israel.

Jerusalém indivisa como capital de duas nações

Jerusalém seria a capital de Israel. Como capital do “Estado da Palestina” funcionariam as partes de Jerusalém Oriental que já agora se localizam além da “barreira de segurança” israelense.

Além disso, os palestinos teriam acesso aos portos israelenses de Asdode e Haifa, bem como poderiam utilizar o porto jordaniano de Ácaba, no mar Vermelho. Israel e a Jordânia deverão facultar aos palestinos a construção de um centro de lazer e bem-estar junto ao mar Morto. Um comitê elaboraria um mapa detalhado como base para as negociações.

Dessa maneira, os planejadores de Trump prometem no mínimo duplicar o produto interno bruto (PIB) palestino num prazo de dez anos, criando mais de um milhão de empregos palestinos, reduzindo a taxa de desemprego entre os palestinos para um percentual de um dígito e diminuindo a taxa de pobreza em 50%.

No entanto, diante de todos esses “estímulos”, ergue-se também uma advertência. Trump adverte (sem meias palavras) os palestinos de que seu plano seria a última chance para a obtenção de um Estado próprio.

Reações...

Netanyahu, o premiê israelense interino, comparou entusiasticamente o dia da publicação do “negócio do século” de Trump com o dia da declaração de independência do Estado de Israel, em 14 de maio de 1948. Naquela ocasião, o presidente americano Truman foi o primeiro chefe de Estado a reconhecer o Estado de Israel. Da mesma forma, Trump teria agora em 28 de janeiro de 2020 reconhecido a soberania do Estado de Israel sobre regiões da Judeia e da Samaria, “decisivas para a nossa segurança e centrais para a nossa herança”.

Mahmoud Abbas: “Trump! Jerusalém não está à venda! Nossos direitos não são negociáveis! Sua manobra conspiratória não passará!”.

O ministro da Defesa de Israel, Naftali Bennett, anunciou ter nomeado uma equipe especial para promover a anexação dos assentamentos judaicos na Judeia e na Samaria, o vale do Jordão e a região em torno da parte norte do mar Morto.

... dos israelenses

O Conselho de Yesha (organização dos conselhos municipais de assentamentos judaicos na Cisjordânia) manifestou-se contrariamente. Steven Pruzansky opinou que “não há motivo para otimismo no Oriente Médio até que venha o Messias”. Segundo esse rabino religioso nacionalista, nenhuma geração teria o direito de comprometer as fronteiras da terra de Israel definidas pelo próprio Criador. E quanto a Netanyahu: “Quem poderia imaginar que ele anunciaria ao lado de um presidente americano na Casa Branca sua disposição de negociar sobre 70% da Margem Ocidental – e ainda chamar isso de ‘dia histórico’?”.

Observadores criticam na mídia a ausência de citação dos escritos acusatórios de Netanyahu. Além disso, o agendamento da coletiva de imprensa teria sido posicionado de maneira suspeitamente vantajosa em relação às eleições tanto israelenses como americanas.

O jornal israelense Haaretz, da esquerda liberal, observou que “o plano de Trump sem dúvida é a proposta de paz mais pró-israelense jamais apresentada”, mas ao mesmo tempo também a “pior oferta jamais feita aos palestinos”.

Entretanto, parece haver unanimidade entre os observadores de todos os matizes de que não haveria lugar para otimismo e que o “negócio do século” de Trump seria “natimorto”.

... dos palestinos

Manifestações já ocorreram na Faixa de Gaza no dia anterior à declaração de Trump. Ali o “negócio do século” de Trump foi chamado de “liquidação da causa palestina”. Imediatamente após a apresentação conjunta do presidente americano e do premiê israelense publicaram-se relatos nos quais se mostraram palestinos nas ruas de Ramala queimando retratos das duas autoridades.

Em princípio, o Hamas e a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) são radicalmente inimigos entre si. Agora, porém, seus representantes se revelaram enfaticamente unânimes tanto em Gaza como na Margem Ocidental. O presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas, recusa há anos qualquer contato com a equipe de Trump. Depois do pronunciamento deste, ele pegou no telefone para se coordenar com Ismail Haniya, o líder do Hamas.

“Trump! Jerusalém não está à venda! Nossos direitos não são negociáveis! Sua manobra conspiratória não passará!”, anunciou o presidente da ANP, e: “Trump e Netanyahu proclamaram a ‘bofetada do século’. Responderemos com bofetadas”. Ele, que é o herdeiro de Yasser Arafat, possuindo 84 anos e conhecido entre o povo como “Abu Mazen”, também opinou: “Nenhuma criança palestina, seja muçulmana ou cristã, jamais poderá aceitar algo assim [...] Dizemos mil vezes mais: não, não, não!”.

Ao final do discurso de Abbas, ocorreram conflitos nos acessos às áreas palestinas em Belém, Ramala e Jerusalém. Dúzias de jovens palestinos protagonizaram combates de rua com forças de segurança israelenses. Até a data da redação deste artigo, o crescente vermelho palestino contabilizou doze feridos.

... dos árabes, dos europeus e do Irã

Os embaixadores dos Emirados Árabes Unidos, de Bahrein e de Omã assistiram calados, mas visíveis em toda parte, ao anúncio do “negócio do século” por Trump. O ministério do exterior saudita anunciou seu apoio a negociações diretas entre palestinos e israelenses sob moderação americana. Todas as divergências deveriam ser resolvidas por meio de negociações.

A Grã-Bretanha aprovou o plano de Trump. A França prometeu “estudá-lo minuciosamente” e ao mesmo tempo enfatizou a necessidade de uma solução do conflito israelense-árabe por meio de dois Estados.

Do Irã ouviu-se que a proposta de Trump seria “a alta traição do século”. E o longo braço de Teerã no Levante – o Hezbollah no Líbano – interpretou-o como uma tentativa de “extinguir os direitos do povo palestino”.

Raro realismo

Entre todas as iniciativas de paz vindas do exterior, a proposta do governo Trump para a resolução do conflito palestino-israelense definitivamente é aquela que mais se aproxima da realidade do que seja viável. No passado, sempre foram “expectativas irrealistas e exigências inalcançáveis” o que fizeram submergir em algum caos sangrento as negociações diplomáticas.

A principal manchete dos mais recentes desdobramentos não é “EUA permitem a Israel anexar a Margem Ocidental”, mas que a absoluta maioria da direita israelense está disposta a ceder aos palestinos 70% das regiões em litígio. A maior parte da direita israelense abriu mão do sonho de uma terra de Israel intacta.

Mesmo um Donald Trump, com respaldo de todo o mundo evangélico da América, sinalizou com um Estado para os palestinos. O fato de que, para judeus e cristãos crentes na Bíblia, é um problema ceder qualquer parte da Terra Prometida a alguma autoridade não-judia, fragmentando assim a terra cujo proprietário é o próprio Deus vivo, é outra história. No cenário político de 2020, a questão não é mais se deveria sequer existir um Estado palestino ao lado de Israel, mas apenas qual seria o preço a pagar por isso.

A principal manchete dos mais recentes desdobramentos não é “EUA permitem a Israel anexar a Margem Ocidental”, mas que a absoluta maioria da direita israelense está disposta a ceder aos palestinos 70% das regiões em litígio.

Certo é que Trump e Netanyahu oferecem aos palestinos a possibilidade de encarar a realidade e de aceitá-la ao aplicar à autonomia palestina o rótulo de “Estado”. Isso poderá não agradar aos palestinos e aos seus companheiros ideológicos. Entretanto, quem quer exigir mais do que isso para o lado palestino teria de explicar o paradeiro do seu senso de realidade.

“Terra por paz” é impraticável

Para Israel, a receita de “terra por paz” revelou-se impraticável. Hoje o Estado judeu sofre ameaças de mísseis ou até ataques regulares deles a partir de praticamente todas as regiões que em alguma ocasião tenha cedido a não-judeus.

A mundialmente crescente “judeofobia” com todos os seus matizes, desde uma teologia antijudaica, passando pelo antissemitismo clássico fundamentado em racismo, até o antissionismo que se dirige contra as formas de expressão política do povo judeu, não permite esperar que as condições mudem fundamentalmente para esse povo. Mesmo os melhores “amigos de Israel” no Ocidente admitem de fato ser condição inalterável ou ignoram propositadamente que grande parte dos vizinhos muçulmanos de Israel, entre os quais muitos palestinos, exigem não só um fim do Estado judeu, mas determinaram por escrito como meta final a aniquilação mundial do povo judeu.

Desconhecimento, incoerência, ingenuidade

Quer se goste ou não, permanece o fato de que a proposta de Trump a favor de “paz para a prosperidade” é a mais próxima da realidade que a diplomacia ocidental tem a oferecer há mais de um século para a região. Ao mesmo tempo, também esse plano de pacificação mais recente revela as típicas características das instruções de procedimento ocidentais para os participantes diretos no conflito do Oriente Médio: desconhecimento, incoerência e ingenuidade.

Por exemplo, quando se declara que “o status dos locais sagrados” deverá “ser preservado”: “Em especial, o status no monte do Templo / Haram al-Sharif deveria ser preservado ininterruptamente”. No entanto, o parágrafo seguinte diz: “Pessoas de todas as expressões de fé deveriam poder orar no monte do Templo / Haram al-Sharif...”.

Diante de tais declarações, cabe perguntar: acaso os especialistas em Oriente Médio de Trump não sabem que um nos mais importantes acordos tácitos sobre o status quo no monte do Templo é justamente que ali nem judeus nem outros não-muçulmanos podem orar? O próprio premiê Benjamin Netanyahu confirmou essa condição em 2015.

A proposta de Trump é a mais próxima da realidade que a diplomacia ocidental tem a oferecer há mais de um século para a região.

Se agora subitamente “pessoas de todas as expressões de fé” poderão “orar no Monte do Templo”, isso corresponderia perfeitamente às noções de valor ocidentais e, com certeza, aos padrões éticos que o Estado de Israel assumiu para si mesmo. No entanto, também representaria uma alteração maciça do status quo, contra a qual os palestinos e talvez todo o mundo islâmico reagiriam com indignação.

Retorno aos padrões de valor ocidentais

De certo modo, o “negócio do século” de Trump também registra em outro ponto uma reversão da política ocidental para o Oriente Médio e um retorno aos valores ocidentais: ele é até agora a primeira e única proposta de solução do conflito israelense-palestino que não requer alguma limpeza étnica.

Todo aquele que classifica como “racistas” certas considerações – como por exemplo a cessão do triângulo árabe e o Wadi Ara de Israel para um futuro Estado palestino – deveria examinar melhor a matéria. Essas regiões são diretamente contíguas às áreas palestinas. A população que lá reside entende-se como “palestina”, empenha-se publicamente contra o “Estado sionista de Israel” e se percebe, tanto histórica, culturalmente e principalmente no aspecto religioso, mais ligada aos palestinos que “aos judeus”.

Mesmo um Avigdor Lieberman, que pela primeira vez propôs discutir essa ideia, não pretendia de modo nenhum uma “limpeza étnica” na qual quem quer que fosse seria expulso da sua terra natal ou até perderia seus bens. O que ele propôs foi um deslocamento de fronteiras que transferiria essa população da área de soberania do tão detestado Estado judeu para a soberania de um desejado Estado palestino. Como contrapartida, assentamentos ocupados por leais cidadãos do Estado de Israel seriam transferidos ao Estado de Israel.

Se o “negócio do século” de Trump grandiosamente anunciado vai mudar alguma coisa, dependerá em última análise da questão primordial de israelenses e palestinos estarem dispostos a dialogar, de conduzir sua vida juntos e de aceitar positivamente a existência e, principalmente, o direito à existência da outra parte.

Um sinal promissor é que o “dia da ira” determinado pela liderança palestina unida não pôde ser efetivado. Um estímulo poderia ser o fato de os palestinos liderados pela OLP e o Hamas terem cada vez menos respaldo e ainda menos beneplácito no mundo árabe e islâmico.

Johannes Gerloff
Jerusalém, Israel

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Johannes Gerloff é teólogo, jornalista, palestrante e autor. Vive com sua família em Jerusalém e é correspondente do Oriente Médio há quase duas décadas. Seu objetivo é ajudar as pessoas a entender melhor o que está acontecendo dentro e ao redor de Israel.

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