O que a Transfiguração de Jesus Ainda Tem a nos Dizer?

Thomas Lieth

A Transfiguração de Jesus

Lucas 9.23-36: 23Jesus dizia a todos: “Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. 24Pois quem quiser salvar a sua vida a perderá; mas quem perder a sua vida por minha causa, este a salvará. 25Pois que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder-se ou destruir a si mesmo? 26Se alguém se envergonhar de mim e das minhas palavras, o Filho do homem se envergonhará dele quando vier em sua glória e na glória do Pai e dos santos anjos. 27Garanto a vocês que alguns que aqui se acham de modo nenhum experimentarão a morte antes de verem o Reino de Deus”. 28Aproximadamente oito dias depois de dizer essas coisas, Jesus tomou a Pedro, João e Tiago e subiu a um monte para orar. 29Enquanto orava, a aparência de seu rosto se transformou, e suas roupas ficaram alvas e resplandecentes como o brilho de um relâmpago. 30Surgiram dois homens que começaram a conversar com Jesus. Eram Moisés e Elias. 31Apareceram em glorioso esplendor e falavam sobre a partida de Jesus, que estava para se cumprir em Jerusalém. 32Pedro e os seus companheiros estavam dominados pelo sono; acordando subitamente, viram a glória de Jesus e os dois homens que estavam com ele. 33Quando estes iam se retirando, Pedro disse a Jesus: “Mestre, é bom estarmos aqui. Façamos três tendas: uma para ti, uma para Moisés e uma para Elias”. (Ele não sabia o que estava dizendo.) 34Enquanto ele estava falando, uma nuvem apareceu e os envolveu, e eles ficaram com medo ao entrarem na nuvem. 35Dela saiu uma voz que dizia: “Este é o meu Filho, o Escolhido; ouçam-no!” 36Tendo-se ouvido a voz, Jesus ficou só. Os discípulos guardaram isto somente para si; naqueles dias, não contaram a ninguém o que tinham visto.

O evangelista Mateus relata que “seis dias depois” Jesus levou três dos seus discípulos “em particular, a um alto monte” (Mt 17.1). O que havia acontecido seis dias antes? A resposta encontra-se na passagem imediatamente precedente. Relata-se ali que Jesus conversara com seus discípulos sobre as implicações de segui-lo. “Garanto a vocês que alguns dos que aqui se acham não experimentarão a morte antes de verem o Filho do homem vindo em seu Reino” (Mt 16.28).

Esse versículo tem provocado controvérsias. Com efeito, essa declaração do Senhor Jesus não pode referir-se à sua futura volta em poder e glória e também não ao milênio, porque então sua declaração de que alguns não experimentariam a morte até aquele evento seria difícil de explicar. Penso, por isso, que ela se refira antes à transfiguração ocorrida seis dias depois e aos eventos subsequentes. O Senhor Jesus disse algo como: “Falta pouco tempo para o reino de Deus ser apresentado aos seus olhos”. Portanto, não se trata do reino de Deus em poder e glória, mas do reino de Deus que se inicia em Jesus Cristo. Jesus falou do reino de Deus em relação à sua vida e obra na terra, como por exemplo em Lucas 17.21b: “... o Reino de Deus está no meio de vocês”. Ou então como Paulo expressa na carta aos Colossenses: “Pois ele nos resgatou do domínio das trevas e nos transportou para o Reino do seu Filho amado” (1.13). E isso não se refere apenas ao futuro, mas já ao presente. A transfiguração ocorrida pouco depois foi algo como um primeiro passo, uma espécie de aceno de Deus: o reino de Deus está chegando! O Salvador prometido está empreendendo sua marcha triunfante.

No entanto, agora os relatos de Mateus e Marcos, de um lado, diferem daquele de Lucas, do outro, na indicação do número de dias após o qual essa transfiguração ocorreu. É verdade que para o assunto em si isso não importa, mas ainda assim quero comentar o ponto brevemente para esclarecer que não há razão para desconfiarmos das declarações da Bíblia. Mateus e Marcos falam de exatamente seis dias. Já Lucas fala de aproximadamente oito dias. Na interpretação bíblica sempre temos de levar em conta o que é e o que não é dito. Se, por exemplo, minha esposa disser que ontem eu comi macarrão, isso de modo algum significa que eu não tenha também comido batatas. Ou se alguém me perguntar por quanto tempo estarei viajando pela Alemanha em setembro, responderei: “Mais ou menos duas semanas”. Alguém poderá interpretar isso como 14 dias, outro talvez como 10 dias, meus filhos esperam que sejam 16 dias... Lucas fala aqui de aproximadamente oito dias. Portanto, ele não fornece uma indicação exata e, em contraste com Marcos e Mateus, ele talvez não tenha contado apenas os dias entre os dois eventos, mas incluído o dia em que cada um aconteceu. Não podemos saber com toda a precisão, mas não se trata de uma contradição. Não há o que abalar na Palavra de Deus. E se existirem aparentes contradições, é apenas porque não as interpretamos corretamente.

Não é de admirar que Jesus leve justamente Pedro, Tiago e João para o monte, porque esses três discípulos formavam algo como o núcleo duro dos apóstolos. Os três estiveram presentes também em outros eventos, por exemplo no jardim do Getsêmani, quando Jesus se retirou com os três e estes infelizmente adormeceram enquanto o seu Senhor e Mestre lutava em oração. Tudo indica que Tiago, João e Pedro realmente dormiam muito bem, porque dormiram não apenas no Getsêmani, mas também aqui, na transfiguração (Lc 9.32a). Também é interessante notar o simples fato de que Jesus tenha levado companhia para o monte da transfiguração. Afinal, ele também poderia ter ido sozinho. Esse procedimento lembra o princípio do testemunho no Antigo Testamento, segundo o qual uma questão requer duas a três testemunhas (Dt 17.6; 19.15). Penso que Jesus sempre deu valor a isso. Ele praticamente nunca se apresentou sem testemunhas, de modo que sua vida e obra ficaram tão bem documentadas como nenhum outro evento que aconteceu mais de 200 anos atrás.

Assim chegamos ao evento em si: “Ali ele foi transfigurado diante deles. Sua face brilhou como o sol, e suas roupas se tornaram brancas como a luz” (Mt 17.2). As diversas traduções da Bíblia usam termos diferentes para o fenômeno da transfiguração. De qualquer modo, porém, ocorreu ali algo totalmente incomum – eu diria que algo alheio à terra. Apesar disso, porém, aconteceu na terra e diante dos olhos de três testemunhas. Tentemos iluminar um pouco o fenômeno. Até então, Pedro, Tiago e João haviam conhecido Jesus exclusivamente como homem. É certo que Jesus era um homem extraordinário, mas ainda assim um homem. E agora, naquele monte, os discípulos viram pela primeira vez o seu Senhor em sua glória divina. Lucas relata que aquilo aconteceu enquanto Jesus orava. Jesus frequentemente se retirava para buscar o diálogo com o seu Pai celeste. Ele vivia continuamente em íntimo contato com Deus por meio da oração.

Muitos de nós não conseguem mais aproveitar o silêncio e o retiro em oração com Deus.
Muitos de nós não conseguem mais aproveitar o silêncio e o retiro em oração com Deus.

Como já se mencionou, os discípulos haviam adormecido. Seria esse talvez também um problema fundamental para nós, hoje? Não é frequente a fadiga nos acometer quando se trata de ir a uma reunião de oração? Não é comum desviarmos nossa atenção e deixar de orar? Não sendo cansaço, são os nossos pensamentos que de repente fogem por aí, ou é o telefone que toca, ou a correria da vida diária. Creio que muitos de nós – eu inclusive – não conseguimos mais aproveitar o silêncio e o retiro em oração com Deus. Como fica a nossa hora silenciosa com Deus? Quando digo hora silenciosa, não me refiro a leitura bíblica e oração apressadas. O Senhor Jesus quer que oremos. Ele nos convoca claramente a fazê-lo. E como o entristeceu constatar repetidamente que seus discípulos se deixavam vencer pelo sono e eram desviados de orar: “Vocês não puderam vigiar comigo nem por uma hora?” (Mt 26.40). E Jesus sabe o quanto necessitamos da oração: “Vigiem e orem para que não caiam em tentação” (Mt 26.41). Estou convicto de que quanto mais um filho de Deus orar, tanto menos espaço ele dará ao pecado, e quanto mais uma igreja orar, tanto mais poderoso será o seu testemunho. Do outro lado, porém, há alguém que quer impedir justamente isso: o Diabo, que quer sufocar qualquer oração na origem. Por isso é melhor você ir ao culto sem relógio e, mais ainda, sem telefone. Jesus não só ensinou uma oração aos seus discípulos, mas também lhes deu o exemplo por meio da sua própria vida de oração.

Enquanto Jesus orava, sua face passou a brilhar como o sol e suas vestimentas se tornaram claras como a luz. Talvez essa transfiguração também tenha sido uma clara resposta do Pai à oração do seu Filho. Não temos registro daquilo que Jesus orou, mas sabemos sobre o que ele conversou com Moisés e Elias. Isso permite supor que também sua oração tenha tratado do caminho que ele tinha pela frente, mesmo porque Jesus também havia pouco antes confrontado seus discípulos com o primeiro anúncio da sua paixão. Ele vinha preparando seus discípulos – daí também a conversa sobre como segui-lo –, mas Jesus mesmo também precisava de alguém que o preparasse. Quem imagina que o Filho de Deus tenha simplesmente subido à cruz “numa boa” tem uma noção completamente errada. Sua luta em oração no Getsêmani revela muitíssimo sobre isso. Jesus buscava a proximidade do Pai, buscava forças, recursos e confirmação, e exatamente isso é o que ocorreria aqui na presença dos três discípulos. Aliás, foi a única vez antes da sua morte e ressurreição que o Senhor Jesus se manifestou em glória. Ali, na transfiguração, sua face mudou e sua divindade transpareceu majestosamente. Por um momento, Jesus não foi apenas homem, mas pela primeira vez sua natureza divina ficou visível para alguns dos seus discípulos. Para os discípulos, essa transfiguração foi uma amostra do futuro em que veriam o Senhor Jesus em toda a sua glória, tal como se lê em 1João 3.2: “... o veremos como ele é”.

Prosseguindo no texto: “Naquele mesmo momento, apareceram diante deles Moisés e Elias, conversando com Jesus” (Mt 17.3). A transfiguração em si já é extraordinária, mas o acontecimento não para por aí, porque agora também aparecem Moisés e Elias. E como se não bastasse, eles não apenas aparecem, como falam com Jesus. É claro que agora podemos tentar interpretar isso de alguma forma simbólica e dizer que Moisés e Elias constam aí apenas como exemplos e nem apareceram realmente. Muito provavelmente os discípulos apenas foram ofuscados pelo sol por trás. Não! Não precisamos reinterpretar nem humanizar nada. Ali, naquele monte e durante a transfiguração do Senhor Jesus, Moisés e Elias de fato apareceram. Tomemos o relato simplesmente da forma como nos foi transmitido.

Lucas também diz que Moisés e Elias igualmente apareceram glorificados, seja como for que aquilo se tenha apresentado na prática. Fato é que ambos se despediram da terra de forma extraordinária e ambos são considerados no judaísmo como precursores do Messias. A respeito de Moisés consta que Deus mesmo o sepultou e que seu túmulo permanece desconhecido até hoje (Dt 34.5-6). E Judas 9a relata que o arcanjo Miguel teve uma contenda com o Diabo e negociou a respeito do corpo de Moisés. Percebe-se que Deus mesmo exerce autoridade e vigilância sobre o corpo do seu servo Moisés. Tanto mais será fácil para Deus fazer Moisés aparecer glorificado no monte da transfiguração. Elias, por sua vez, foi arrebatado; portanto, Deus mesmo o buscou para junto de si no céu (2Rs 2.11). Tanto o que ocorreu com Moisés e Elias como também a transfiguração são mistérios e uma intervenção pessoal de Deus, que se sobrepõe a todas as leis da natureza e ainda mais à toda lógica humana. Trata-se da atuação visível de Deus em seu Filho.

Moisés e Elias também desempenham um papel significativo na história de Deus e dos homens, de modo que naturalmente existe um motivo para esses dois aparecerem ali e não, por exemplo, Arão e Enoque. O que Moisés representa? Moisés foi aquele a quem Deus entregou as tábuas da lei, e não é sem motivo que no judaísmo os cinco livros de Moisés são chamados de “a Lei”. Moisés é a personificação da lei. E quem representa no judaísmo muito particularmente os profetas? Elias. O único profeta que não morreu, mas foi arrebatado, o profeta que conduziu o povo para longe do culto a Baal e que também é posto em conexão com a volta do Senhor Jesus (cf. Ml 4.5). Portanto, Moisés e Elias representam a lei e os profetas. Tanto a lei como os profetas apontam para o Salvador que viria. Na verdade, a meta por excelência da lei e dos profetas é que o reino de Deus tem seu início em Jesus Cristo.

A transfiguração ilustra o fato de que a antiga aliança foi cancelada porque Jesus cumpriu a lei, e também a profecia atingiu seu alvo com a instituição da nova aliança em Jesus. Agora é a graça que ocupa o centro. Não mais Moisés e Elias, mas apenas Cristo! Ali, durante a transfiguração, Jesus é confirmado por Deus Pai como aquele do qual testificam a lei e os profetas – o Messias, o Salvador do mundo.

Lucas relata do que tratou o diálogo entre Jesus, Moisés e Elias. Eles falaram sobre “a partida de Jesus, que estava para se cumprir em Jerusalém” (Lc 9.31). Tratava-se, portanto, de um cumprimento, a saber: o cumprimento da lei e dos profetas. Tratava-se da missão do Senhor Jesus, daquilo que ainda o aguardava: a luta atroz no Getsêmani, a tortura, o escárnio, a negação, a traição, o abandono por Deus e a crucificação... Sim, tratava-se literalmente de vida e morte! Jesus estava para encarar uma luta que requeria o pleno respaldo do seu Pai. A transfiguração esclarece por um lado que se trata da absoluta vontade de Deus que seu Filho percorra esse caminho e leve a termo o que Deus começou em sua graça e amor aos homens. Por outro lado, Deus quer fortalecer e encorajar o seu Filho por meio daquilo. Por isso, Jesus também pôde testificar aos seus discípulos: “Aproxima-se a hora, e já chegou, quando vocês serão espalhados cada um para a sua casa. Vocês me deixarão sozinho. Mas eu não estou sozinho, pois meu Pai está comigo” (Jo 16.32). Jesus sabe que, mesmo sendo traído por um Judas e negado por um Pedro, seu Pai no céu segura nas mãos as pontas da história da salvação e não o deixará efetivamente só.

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Neste ponto também se diz que Jesus encontrará seu fim terreno em Jerusalém e não, por exemplo, em Nazaré. Por que isso seria importante? Lembro-me aí do dramático evento naquele monte em Nazaré (Lc 4.29-30). Ali a morte de Jesus não era admissível: não naquele lugar, naquele momento e daquele modo. Ele haveria de morrer em Jerusalém, durante a festa da Páscoa e na cruz, conforme predisseram a lei e os profetas (Gl 3.13; Dt 21.23). Jesus sabia disso: ele já havia anunciado sua morte: “Como vocês sabem, estamos a dois dias da Páscoa, e o Filho do homem será entregue para ser crucificado” (Mt 26.2). Prever a morte não é tão difícil, mas dizer quando, onde e exatamente como já requer bem mais. Jesus sabia aonde o seu caminho o conduziria, e a transfiguração foi como uma confirmação de que esta era a única via possível e correta para a reconciliação.

Prosseguindo no nosso texto, no versículo 4: “Então Pedro disse a Jesus: Senhor, é bom estarmos aqui. Se quiseres, farei três tendas: uma para ti, uma para Moisés e outra para Elias”. Reação típica de Pedro: outra vez ele toma ousadamente a iniciativa e, contrariamente a todo o código de obras, ele quer remodelar o monte inteiro. Pedro não se prostra em adoração, como seria adequado naquela situação. Dos outros dois discípulos nem se fala. Obviamente, Pedro quer segurar-se na glória que ele experimenta ali. Ele deseja um paraíso na terra, mas isso nunca deu certo e também não foi prometido.

Até o fim, Pedro e os outros discípulos não entenderam bem a trajetória de sofrimento e salvação do seu Senhor. No entanto, isso não pretende ser uma acusação – creio que também nós, que temos em mãos a Palavra de Deus completa, não entendemos bem o que aconteceu e o que ainda acontecerá. Tal como em outras passagens da Escritura Sagrada, somos confrontados aqui com as debilidades humanas dos seguidores de Jesus. Na verdade, até me alegro com isso, já que me demonstra que não sou o único fracassado. E, acima de tudo, isso nos mostra que o importante não é ser perfeito no discipulado, mas sincero, honesto e fiel. E isso Pedro era. Sua intenção de erigir três tendas lembra muito fortemente práticas religiosas. Não tenho nada contra locais de adoração e de peregrinação, mas quando o que importa é apenas beijar uma pedra, acariciar a face de uma estátua ou quebrar um ramo de oliveira, então aquilo simplesmente está a quilômetros do evangelho. Jesus não quer tendas, mas o nosso coração. Deus não quer veneração de relíquias, mas obediência. Não precisamos ir até a Igreja da Natividade em Belém ou à Igreja do Santo Sepulcro em Jerusalém quando Deus está tão perto de nós. O que Deus quer é uma igreja viva e não uma catedral morta. Deus prefere dez adoradores sinceros em um depósito a 2.000 peregrinos apressados na Igreja do Santo Sepulcro.

Também é interessante notar que os discípulos não reconheceram apenas o Senhor Jesus transfigurado, mas também Moisés e Elias, embora obviamente nunca os tivessem visto. Não havia imagens deles, com certeza não portavam crachá nem uma rosa na lapela. Pedro, porém, nem pergunta quem seriam aquelas duas estranhas figuras, mas imediatamente as identifica como Moisés e Elias. Também aqui podemos sondar e tentar tirar conclusões. Seria possível que realmente nos reconheçamos na glória, que até reconheçamos irmãos que nunca vimos antes? Será que nós também reconheceremos Moisés e Elias? Reconheceremos os nossos parentes crentes? Sim, creio que nos reconheceremos, mas isso não quer dizer que necessariamente saibamos que aquele foi o meu pai e aquela a minha esposa, aquele outro o meu irmão irritante e esse o meu chefe injusto. Na glória seremos uma só grande família. Todos nos relacionaremos mutuamente e, principalmente, não sentiremos falta de nada. Trata-se de um lugar de eterna bem-aventurança (cf. Is 65.17s).

Reconheceremos os nossos parentes crentes? Sim, creio que nos reconheceremos.
Reconheceremos os nossos parentes crentes? Sim, creio que nos reconheceremos.

Em Mateus 17.5 lemos: “Enquanto ele ainda estava falando [Pedro com seu projeto de construção], uma nuvem resplandecente os envolveu...”. Nessa nuvem Deus está presente, que acaba com todas as ideias humanas e religiosas, e toma a palavra. E como já foi antes no batismo do Senhor Jesus, também aqui o Pai enfatiza e confirma sua autoridade e identidade: “Este é o meu Filho amado de quem me agrado. Ouçam-no!”. Isso é exatamente o que o Deus onipotente já havia ordenado de antemão ao povo de Israel por intermédio de Moisés: “O Senhor, o seu Deus, levantará do meio de seus próprios irmãos um profeta como eu; ouçam-no” (Dt 18.15). Por meio da transfiguração confirma-se agora que Jesus Cristo é esse profeta (cf. Jo 6.14). Pedro se equivocou tremendamente quando pensou poder nivelar Jesus, Moisés e Elias por meio da construção de tendas. Deus não disse de dentro da nuvem: “Este é um profeta especial”, mas: “Este é o meu Filho amado”. Em princípio, ainda poucos dias antes o próprio Pedro havia confessado essa posição especial do Senhor Jesus: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16.16).

Em última análise, Jesus não é ninguém menos que o próprio Deus! Tudo o que Deus diz aqui com toda a clareza lembra muito nitidamente as palavras de Deus em Isaías a respeito do Servo de Deus, que personifica o sacrifício sofredor e propiciatório (p.ex. Is 42). Se então encararmos essa via de salvação, também fica claro que o propósito de Pedro em erigir três tendas recebeu aqui uma inequívoca reprovação. Isso volta a demonstrar que Deus não se agrada de religiosidade. Com certeza a intenção de Pedro era boa, mas seu propósito é a via da religião e a necessidade era que Jesus fosse à cruz. É uma situação similar àquela em que Jesus falou da sua morte iminente e o mesmo Pedro disse: “Nunca, Senhor! Isso nunca te acontecerá!”, e Jesus respondeu rispidamente: “Para trás de mim, Satanás!” (Mt 16.22-23). A ida à cruz foi absolutamente necessária e forçosa. Nada deveria impedir Jesus – nem o Diabo, nem os discípulos. Por incrível e incompreensível que pareça, esta foi a irrevogável vontade de Deus, que seu Filho subisse ao madeiro da maldição – por você e por mim.

“Ouçam-no!”. Isto se dirige a todos os homens em todos os tempos e lugares. É a Jesus Cristo que devem ouvir, e somente a ele! Moisés e Elias sabiam que também a sua salvação dependia da paixão do Senhor Jesus. Por mais irracional que possa parecer, Elias e Moisés devem ter desejado acima de tudo que Jesus persistisse em sua ida ao Calvário e que completasse a obra do seu Pai. É que não se trata apenas da sua e da minha salvação, mas daquela do mundo inteiro. Sem a morte do Senhor na cruz, sem o seu sangue derramado e sem a sua ressurreição, também Moisés e Elias teriam ficado presos em seus pecados (cf. Jó 4.17; Rm 3.10). Todo homem precisa de uma morte vicária, e Jesus é esse nosso substituto, também para os homens da antiga aliança (cf. Hb 9.15; Rm 3.25-26). Para remir a nossa culpa, Deus permitiu que seu próprio Filho derramasse seu sangue na cruz. Até então, Deus havia suportado em sua paciência os pecados dos homens, para agora perdoá-los por amor de Jesus e assim demonstrar a sua justiça. Fica assim estabelecido que somente Deus é justo e que só absolverá de sua culpa aquele que crer em Jesus.

No versículo 6 lemos a reação dos discípulos: “Ouvindo isso, os discípulos prostraram-se com o rosto em terra e ficaram aterrorizados”. Ficaram estarrecidos diante da santidade de Deus. Creio que se fôssemos confrontados diretamente com a face de Deus, ou mesmo só com a sua voz, também estremeceríamos em reverência. Quanto mais ela destruirá intimamente o homem que não tiver salvação em Jesus Cristo! O mais duro dos homens se desfará diante da face de Deus e desejará acima de tudo se esconder. Como ficou o apóstolo João quando Deus revelou a ele as coisas futuras? “... ouvi por trás de mim uma voz forte, como de trombeta... Voltei-me para ver quem falava comigo. Voltando-me, vi... entre os candelabros alguém ‘semelhante a um filho de homem’... Sua face era como o sol quando brilha em todo o seu fulgor. Quando o vi, caí aos seus pés como morto” (Ap 1.10-17). João já tinha visto muito ao longo da vida – a transfiguração, a crucificação, o Jesus ressurreto e sua ascensão. O que ainda poderia abalar esse homem? E ainda assim a santidade de Deus o faz cair como morto em reverência. Como são então consoladoras as palavras do Senhor que ele diz a João: “Então ele colocou sua mão direita sobre mim e disse: ‘Não tenha medo’” (Ap 1.17). Talvez naquele momento João tenha lembrado da transfiguração do seu Senhor e Salvador, porque também naquela ocasião Jesus havia encorajado os seus discípulos: “Mas Jesus se aproximou, tocou neles e disse: ‘Levantem-se! Não tenham medo!’” (Mt 17.7).

Em Jesus não precisamos ter medo do Deus capaz de destruir tanto a alma como o corpo no inferno (Mt 10.28). Em Jesus também não precisamos temer o mundo porque nele vencemos o mundo (1Jo 5.4-5). Essa palavra de Jesus é um consolo tanto para a vida presente como esperança para o futuro: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm 8.31).

Com isso chegamos ao último versículo do nosso texto: “E erguendo eles os olhos, não viram mais ninguém a não ser Jesus” (Mt 17.8). Os três discípulos haviam subido o monte com o homem Jesus e ali foram testemunhas da sua divindade. Além disso, apresentaram-se diante deles os representantes máximos da lei judaica e dos profetas – Moisés e Elias. Os discípulos ouviram a assustadora voz de Deus e o testemunho vinculado a ela: “Este é o meu Filho amado de quem me agrado. Ouçam-no!”. Não tiveram coragem de olhar para cima, mas então sentiram as mãos do Senhor Jesus e ouviram sua voz que dizia: “Não tenham medo!”. É a mão cheia da graça de Deus que toca neles, e é seu apelo a confiar nele. Jesus nos permite levantar e até nos possibilita olhar para a face da glória de Deus.

Aqui, na transfiguração, coloca-se literalmente diante dos olhos dos discípulos aquilo que importa: eles não viram mais ninguém além de Jesus. Aonde se dirige o nosso olhar? Que o Senhor nos conceda também jamais perdermos de vista o essencial – a graça em Jesus Cristo tão somente! Amém!

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