Tempo e a nova realidade

Daniel Lima

Compartilhe: 

Somos criaturas de hábito. Lutamos com algumas circunstâncias até atingirmos um ponto de relativo equilíbrio que nos satisfaça. Uma vez ali, fincamos os pés (ainda que façamos ensaios de avanço) e queremos garantir as conquistas. Com isso nos acostumamos com o status quo, com as coisas como elas são, com nosso jeito de fazer as coisas. Até que o status quo não exista, as coisas como são não sejam e nosso jeito não dê mais jeito!

A mente humana busca repetir o que tem dado certo para poupar energia. E isso é bom. Só não pode nos escravizar e nos impedir de perceber a realidade ao nosso redor. Um lado positivo de toda crise é a revisão de todos os nossos hábitos. Tenho conversado com várias pessoas que descobriram maneiras mais ágeis e fáceis de fazer coisas; modos de trabalhar, conversar e ministrar que não teriam considerado antes da crise.

A mudança mais aguda nestes tempos de quarentena é com relação ao uso do nosso tempo. Não só muitos têm ficado ociosos por falta de oportunidade de trabalho, como muitos que começaram a trabalhar de casa estão descobrindo quanto tempo gastavam em deslocamentos. Como temos usado esse tempo a mais? O modo como lidávamos com o tempo não volta mais. Uma nova forma de lidar com o tempo se faz necessária.

Apesar da enxurrada de recursos cristãos sendo oferecidos, ainda tenho encontrado mais proximidade de Deus em um tempo a sós com um caderno, uma caneta e minha Bíblia.

Muitos têm falado que o mundo não voltará a ser como era. Há algumas mudanças que devem se perpetuar mesmo após a pandemia. Pode haver exagero, mas tenho certeza de que o ambiente de trabalho, o sistema de estudos, algumas relações comerciais e mesmo sociais certamente mudarão. O que você acha que deve ser preservado em sua vida? O que será que vai mudar? E, se mudar, como preservar os absolutos enquanto nos adaptamos?

Eu sou levado a considerar as palavras do apóstolo Paulo em Efésios 5.15-16:

Tenham cuidado com a maneira como vocês vivem; que não seja como insensatos, mas como sábios, aproveitando ao máximo cada oportunidade, porque os dias são maus.

Somos chamados a viver como sábios durante a pandemia e depois desta. Não sabemos ao certo tudo que vai mudar, mas a expressão de Paulo “aproveitando ao máximo cada oportunidade” me inspira e desafia. Deixe-me, com muito temor e tremor, compartilhar alguns princípios para considerarmos enquanto examinamos como aproveitar (e não só lamentar) as mudanças que estão sobre nós:

  • Tempo de trabalho. Paulo nos exorta a termos cuidado, ou seja, não é algo que vai acontecer por acaso, é necessário intencionalidade. Muitos de nós vamos mudar nosso ritmo de trabalho. Com isso, podemos aproveitar e priorizar como vamos usar nosso tempo. Talvez você consiga concentrar seu trabalho mais cedo, ou mais tarde, para investir um período maior em família e com amigos. Vários de nós vamos migrar para o “home office” e não teremos mais o tempo de deslocamento. Enquanto alguns vão aproveitar esse tempo a mais para o que priorizam, outros vão simplesmente trabalhar por mais tempo.

  • Tempo em família e com amigos. Costumávamos reclamar que não tínhamos tempo para conversar em família ou com amigos. As possibilidades virtuais (para quem as tem) têm aberto novas possibilidades. Recentemente me reconectei com um amigo com quem não falava há cerca de 20 anos! Ainda nesta semana recebi um contato de outro amigo que me encorajou tremendamente. Pessoalmente eu sinto falta do encontro cara a cara, mas tenho sido muito abençoado por encontros virtuais. Quero estar aberto e atento a estas novas oportunidades.

  • Tempo com Deus. O motivo mais frequentemente usado para não investir numa vida devocional vibrante é “falta de tempo”. A quarentena tem forçosamente mudado nosso ritmo. Se não formos sábios, em pouco tempo estaremos “correndo” ainda mais. Precisamos explorar e investir em momentos e maneiras de nos conectarmos com Deus. Pessoalmente, apesar da enxurrada de recursos cristãos sendo oferecidos (com a melhor das intenções), ainda tenho encontrado mais proximidade de Deus em um tempo a sós com um caderno, uma caneta e minha Bíblia. Mas a disponibilidade de acesso tem me empurrado a estar permanentemente conectado.

  • Tempo para servir pessoas. Sem dúvida, nada substitui um momento pessoal em que podemos servir alguém presencialmente. No entanto, essas linhas estão ficando cada vez mais difusas. Para a nova geração, um relacionamento virtual é tão significativo quanto um relacionamento presencial, e muitas vezes gera menos ansiedade. De que forma podemos ministrar uns aos outros nos encorajando, ouvindo e compartilhando por meios virtuais? De que forma podemos ultrapassar a barreira do fake e sermos reais na mídia?

Essas são apenas algumas reflexões sobre o tempo. Quero estar pronto a tempo e fora de tempo para compartilhar da esperança que habita em mim (ver 2Timóteo 4.2; 1Pedro 3.15). Minha oração é que você, eu e toda a igreja do Senhor Jesus saiba estar presente neste mundo, mesmo com tantas mudanças.

Compartilhe: 

Daniel Lima foi pastor de igreja local por mais de 25 anos. Formado em psicologia, mestre em educação cristã e doutorando em formação de líderes no Fuller Theological Seminary, EUA. Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida por 5 anos, é autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem 4 filhos, uma neta e vive no Rio Grande do Sul desde 1995.

Veja artigos do autor

Fale ConoscoQuem SomosTermos de usoPrivacidade e Segurança