Sou responsável pelo que creio?

Daniel Lima

Compartilhe: 

Recentemente tenho tentado fazer contato com amigos com quem caminhei por anos, em geral amigos com quem compartilhei minha fé, minhas dúvidas, meus desafios, medos e vitórias. Para minha grande tristeza, vejo que muitos não estão mais caminhando com Cristo. São homens e mulheres inteligentes, sensatos, em geral honestos e íntegros, mas por alguma razão deixaram a fé. Alguns sofreram terríveis decepções e a deixaram, outros sofreram decepções tão grandes quanto, mas perseveraram nela. Alguns acumularam uma excelente formação acadêmica e concluíram que haviam superado o cristianismo, outros tiveram formação tão brilhante quanto, mas isso os fez aprofundar sua fé. Alguns se perderam em vidas que contrariavam as convicções que afirmavam, e nunca mais voltaram; outros, apesar de desvios, reencontraram seu caminho com Deus.

A pergunta óbvia, e urgentemente prática, é o que aconteceu com cada um? Nossa fé depende das circunstâncias, de uma sofisticação intelectual, de desvios e quedas? Nossa fé depende de leitura bíblica, de bons pastores, de hábitos devocionais rigorosos? Enfim, sou responsável por crer ou crer é algo que me acontece por meio de um ato divino sem nenhuma participação minha?

A palavra grega pisteuo (crer) é usada no evangelho de João 98 vezes (nos outros três evangelhos, juntos, é usada apenas 32 vezes).

Tenho estudado o evangelho de João. Este evangelho se difere dos demais de várias formas. Os outros evangelhos, chamados sinóticos (mesma visão), tratam muito mais de relatos sobre a vida de Jesus, enquanto João trata mais dos discursos de Jesus. Os evangelhos sinóticos têm muitas passagens que descrevem os mesmos eventos. João é o evangelho com mais material único. O público também é diferente, assim como a data em que foi escrito. No entanto, o que mais me chamou a atenção foi a ênfase que João dá ao tema de crer. A palavra grega pisteuo (crer) é usada no evangelho de João 98 vezes (nos outros três evangelhos, juntos, é usada apenas 32 vezes).

O próprio autor declara o propósito de seu evangelho na conhecida passagem de João 20.30-31:

30Jesus realizou na presença dos seus discípulos muitos outros sinais miraculosos, que não estão registrados neste livro. 31Mas estes foram escritos para que vocês creiam que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus e, crendo, tenham vida em seu nome.

Por mais que eu estude e leia a respeito, este verso me leva a uma só conclusão: o livro foi escrito para que eu (e você) creia e, assim, tenha vida. A responsabilidade é claramente minha de ler e crer. Por todo o evangelho a ênfase está no convite para que pessoas creiam em Jesus como Messias e que como consequência venham a gozar de uma relação pessoal com ele com evidentes promessas de vida eterna (João 3.16-18).

Isso não me torna arrogante ou muito menos merecedor pelo fato de crer. Crer é a ação de alguém desesperado que não encontra salvação em si mesmo, não uma conclusão confortável de um erudito após considerar comodamente várias teorias. Eu creio por uma escolha minha diante de minha completa falência em me salvar.

Há uma outra observação fundamental sobre esta questão de fé e responsabilidade. João indica que alguns que tiveram algum nível de fé deixaram de crer posteriormente. Uns deixaram de crer por não aceitarem o sacrífico vicário de Cristo, outros por não aceitarem abrir mão de sua herança religiosa. O exemplo mais evidente talvez seja João 8.30-47. Nesta passagem Jesus está pregando aos judeus. Os versos 30-32 do capítulo 8 dizem:

30Tendo dito essas coisas, muitos creram nele. 31Disse Jesus aos judeus que haviam crido nele: “Se vocês permanecerem firmes na minha palavra, verdadeiramente serão meus discípulos. 32E conhecerão a verdade, e a verdade os libertará”.

Jesus estava falando aos judeus que haviam crido (verso 31), mas, ao mencionar que a verdade os libertaria, teve início uma discussão onde os judeus ficaram indignados por verem sua herança étnica e religiosa negada. A discussão continua, até que lemos nos versos 45-46:

45No entanto, vocês não creem em mim, porque lhes digo a verdade! 46Qual de vocês pode me acusar de algum pecado? Se estou falando a verdade, porque vocês não creem em mim?

Jesus afirma ao final da discussão que eles não criam. É evidente que João está usando o verbo crer de duas formas ou pelo menos em diferentes níveis. Existe um crer que é um compromisso de vida e nos leva a nascer de novo. Este evento não pode ser revogado uma vez que ao nascer de novo somos selados pelo Espírito Santo (Efésios 1.13-14). Há também um crer que é transitório, ou apenas inicial. Não é uma fé autêntica, mas apenas um reconhecimento de fatos sem um comprometimento pessoal (Tiago 2.19).

Tenho percebido no evangelho de João algumas marcas de uma fé genuína, autêntica. Na próxima semana quero compartilhar contigo pelo menos quatro destas características. Minha oração é que, ao olharmos juntos estas características, tanto a minha como a sua fé sejam avaliadas com profundidade e sinceridade. E que o resultado seja uma fé madura, com a qual possamos passar pelas várias provações desta vida exalando o suave aroma de Cristo.

Compartilhe: 

Daniel Lima foi pastor de igreja local por mais de 25 anos. Formado em psicologia, mestre em educação cristã e doutorando em formação de líderes no Fuller Theological Seminary, EUA. Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida por 5 anos, é autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem 4 filhos, uma neta e vive no Rio Grande do Sul desde 1995.

Veja artigos do autor

Fale ConoscoQuem SomosTermos de usoPrivacidade e Segurança