Que tipo de sociedade está sendo construída?

Daniel Lima

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Todo movimento que surge com minorias começa estridente, reclamando o direito de ser ouvido. A princípio pedem liberdade, pedem que não sejam oprimidos e que sejam tratados com dignidade. Infelizmente a história mostra repetidamente que uma vez estabelecidos, estes mesmos movimentos passam a coagir aqueles que pensam diferente e obrigá-los a viver como se concordassem com seus pressupostos. Lamentavelmente isso é em parte verdade na história da cristandade (não confundir com cristianismo: cristandade refere-se à civilização desenvolvida por grupos que se dizem cristãos; cristianismo é o conjunto de doutrinas daqueles que seguem a Cristo). Este começou como um movimento proscrito e perseguido, mas que após alguns séculos passou a perseguir quem não concordava com ele.

O movimento LGBTQ+ começou afirmando direitos e pedindo dignidade. Esperava combater abusos e injustiças. No entanto, uma vez estabelecida esta primeira fase, isso não basta. Há uma agenda que deseja levar todo ser humano a concordar com seus pressupostos. Nesta última terça feira (02/10), foi divulgada uma sentença de um tribunal britânico que concluiu que “a crença em Gênesis 1.27, falta de crença na transexualidade e objeção consciente ao transexualismo em nosso julgamento, é incompatível com a dignidade humana e conflita com os direitos fundamentais de outros”. O caso é de um médico cristão com 30 anos de prática, o doutor David Mackereth, que se recusou a preencher um formulário identificando um paciente biologicamente masculino como mulher. Ele aceitou tratar o paciente por seu nome social e foi gentil em todo o contato, mas se recusou a preencher a ficha com o que considerou uma “óbvia mentira”. Ele destacou que o hospital teria todo o direito de encaminhar o paciente em questão a outro médico. O evento ocorreu em 2018 e resultou em sua demissão. Após meses de batalha jurídica, a corte britânica deu ganho de causa ao hospital e emitiu a sentença mencionada acima.

A decisão aponta para o fato de que estamos caminhando para uma sociedade onde pensar diferente e expressar uma opinião divergente, mesmo com gentileza e respeito, não são mais atitudes aceitáveis e devem ser respondidas com sanções.

O que preocupa é quando uma corte em um país tido como democrático e desenvolvido considera-se capaz de determinar que crença bíblicas são incompatíveis com a dignidade humana. Certamente isso deve levantar questionamentos tanto na área de liberdade de consciência, liberdade de opinião como liberdade religiosa. A decisão de uma corte britânica não deve ser vista como uma conspiração mundial, mas aponta para uma agenda ideológica global. Não creio que este caso será um definidor de decisões futuras, mas aponta para o fato de que estamos caminhando para uma sociedade onde pensar diferente e expressar uma opinião divergente, mesmo com gentileza e respeito, não são mais atitudes aceitáveis e devem ser respondidas com sanções – no caso, a perda de um emprego.

Isso não deveria nos surpreender. Deus nos alerta por meio do profeta Isaías, no capítulo 5, verso 20, ao afirmar: “Ai dos que chamam ao mal bem e ao bem, mal, que fazem das trevas luz e da luz, trevas, do amargo, doce e do doce, amargo!”. O Senhor Jesus também nos fala que no mundo teremos aflições e seremos perseguidos por nossas crenças. Isso tudo parece coisa de estados medievais, mas estão muito mais presentes do que imaginamos. Como reagir diante disso tudo? Uma vez mais Jesus nos instrui por meio de Mateus 10.16-20:

16Eu os estou enviando como ovelhas no meio de lobos. Portanto, sejam astutos como as serpentes e sem malícia como as pombas. 17Tenham cuidado, pois os homens os entregarão aos tribunais e os açoitarão nas sinagogas deles. 18Por minha causa vocês serão levados à presença de governadores e reis como testemunhas a eles e aos gentios. 19Mas, quando os prenderem, não se preocupem quanto ao que dizer, ou como dizê-lo. Naquela hora, será dado o que dizer, 20pois não serão vocês que estarão falando, mas o Espírito do Pai de vocês falará por intermédio de vocês.

Vejo aqui alguns princípios que creio serem fundamentais para todo cristão em qualquer situação de conflito ideológico:

  1. Não confie cegamente na justiça humana. O mais democrático e justo Estado ainda se curvará a ideologias humanas e opostas a Deus.

  2. Nossa força não está na agressividade. Somos ovelhas e não lobos. Infelizmente, alguns cristãos defendendo a causa correta se tornam tão vorazes quanto lobos. Isso é fazer o jogo do mundo.

  3. Devemos ser prudentes e não fazer afirmações descuidadas; ao mesmo tempo, precisamos ser simples e não desenvolver estratégias manipulativas. Isso, mais uma vez, seria fazer o jogo do Diabo.

  4. Seremos chamados a dar razão de nossa fé (1Pedro 3.15-18) e não necessariamente em uma situação de imparcialidade (lembre-se: ovelhas e lobos). Seremos injustiçados e tratados com crueldade.

  5. Ao mesmo tempo, estas são oportunidades para manifestarmos nossa fé diante de pessoas influentes.

  6. E para aqueles que, como eu, temem não saber o que falar, há uma promessa maravilhosa de nosso Deus: “... o Espírito do Pai de vocês falará por intermédio de vocês”.

Congresso 2020

Minha oração pelo nosso irmão David Mackereth é que o consolo do Espírito Santo caminhe com ele e que seu proceder seja irrepreensível nesta batalha que apenas começa. Minha oração pelo mundo é que este se arrependa de seus pecados, rebeldia e arrogância. Minha oração por você e por mim é que sejamos encontrados fiéis em situações de conflito ou confronto, sempre manifestando tanto o amor como a verdade de nosso Senhor Jesus Cristo.

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Daniel Lima foi pastor de igreja local por mais de 25 anos. Formado em psicologia, mestre em educação cristã e doutorando em formação de líderes no Fuller Theological Seminary, EUA. Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida por 5 anos, é autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem 4 filhos e vive no Rio Grande do Sul desde 1995.

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