Quando uma geração abusa da próxima...

Daniel Lima

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Naquele que foi talvez o mais trágico evento militar brasileiro, no dia 16 de agosto de 1869 foi travada a Batalha de Acosta Ñu. O que tornou este combate o mais catastrófico de uma longa história de eventos terríveis durante a Guerra do Paraguai foi que nesta batalha o exército paraguaio era composto por cerca de 3.000 meninos entre 9 e 15 anos de idade despreparados, tendo pela frente um contingente de cerca de 20.000 soldados veteranos brasileiros. A tropa foi totalmente dizimada ao final da batalha. Nas palavras do general Dionísio Cerqueira, que participou dos combates:

Foi uma derrota completa. O campo ficou cheio de mortos e feridos do inimigo, entre os quais causavam-nos grande pena, pelo avultado número de soldadinhos, cobertos de sangue [...] não tendo alguns ainda atingido a puberdade.[1]

Por que, como sociedade, usamos crianças e adolescentes para combater em conflitos para os quais não estão nem preparados, nem são adequados? Isso infelizmente não é um problema do passado. Nesta última semana fomos surpreendidos pelo discurso, no mínimo apaixonado, da jovem ambientalista sueca de 16 anos, Greta Thunberg, na Conferência sobre Mudanças Climáticas. Quero usar do máximo de cuidado para não expor ou ridicularizar uma adolescente, a qual, em razão de sua idade, caracteriza-se como vulnerável. No caso de Greta, já diagnosticada com Síndrome de Asperger, que a torna mais insensível a constrangimento social, sua vulnerabilidade é ainda mais aguda. Inúmeras indicações já têm surgido de que há interesses econômicos por trás de sua fala. No entanto, meu tema hoje não é a correção ou não do que ela falou, mas da inadequação de ver uma adolescente confrontando líderes mundiais com tanta hostilidade.

Antes de olhar unicamente para a jovem sueca, devemos lembrar que um fenômeno muito semelhante ocorre há anos no Brasil, onde a apresentadora Maísa Silva manifesta opiniões chocantes e é tida como autoridade, mesmo que tenha apenas 17 anos de idade. É bastante evidente que estas jovens falam porque lhes foi dado oportunidade de falar. E quaisquer erros de postura que tenham são unicamente devido ao fato de que foram projetadas a uma posição para a qual evidentemente não estão preparadas, nem são adequadas. De novo, não estou nem sequer discutindo o conteúdo do que disseram, mas por que usar adolescentes para assumir estas lutas? Onde estão os responsáveis por estas jovens? Quem está ganhando com estas performances?

No capítulo 3 do livro do profeta Isaías é registrado um alerta que Deus está lançando contra o povo de Israel, o qual por sua desobediência será punido com a retirada de recursos e de líderes. Completando este alerta, Deus afirma:

4Porei jovens no governo; irresponsáveis dominarão. 5O povo oprimirá a si mesmo: homem contra homem, cada um contra o seu próximo. O jovem se levantará contra o idoso, o desprezível contra o nobre.

O termo traduzido por jovem neste texto significa alguém sem condições, inexperiente, imaturo, irresponsável. Deus afirma que parte do castigo sobre Israel é que ele terá sobre si líderes inadequados, jovens e inexperientes. Ele afirma ainda mais: que os jovens farão oposição aos idosos. Somente nos momentos mais tristes da história, adolescentes tiveram autoridade sobre idosos (vide por exemplo a história do Khmer Vermelho, regime comunista no Camboja, onde crianças e adolescentes, considerados puros pelo regime, julgavam adultos como inimigos do Estado).

Um dos princípios da fé cristã é o respeito pelos mais velhos. Isso não significa que os mais velhos não erram, mas que a experiência faz diferença.

Não creio que a culpa é dos jovens, mas daqueles que deveriam exercer autoridade e se acovardam, se omitem ou mesmo se aproveitam. Muitos usam crianças e adolescentes como figuras públicas como manobra de propaganda, especialmente em uma era onde existe tanta desconfiança quanto aos adultos e tanta crença na pureza e ingenuidade das crianças e adolescentes. O que vimos no discurso quase histérico de Greta e nas afirmações inconsequentes de Maísa é apenas o que se deveria esperar de uma pessoa ainda em formação quando submetida a pressões gigantescas.

Congresso 2020

Um dos princípios da fé cristã é o respeito pelos mais velhos. Isso não significa que os mais velhos não erram, mas que a experiência faz diferença. Paulo deixa claro que, antes de alguém exercer liderança, é necessário ser provado (1Timóteo 3.10), e que, antes de assumir uma reponsabilidade maior, um líder tem de demonstrar capacidade para cuidar de uma responsabilidade menor (1Timóteo 3.4-5). Que responsabilidade foi assumida e desempenhada a contento que qualifique Greta ou Maísa para ensinar sobre os temas que ensinam? O que as autoriza a fazer afirmações tão ousadas e com tanta paixão?

Ao advertir Timóteo sobre alguns falsos mestres, Paulo afirma a centralidade do amor, conforme Deus, e que alguns “mestres” deixaram este foco e se perderam em discussões vazias. 1Timóteo 1.5-7:

5O objetivo desta instrução é o amor que procede de um coração puro, de uma boa consciência e de uma fé sincera. 6Alguns se desviaram dessas coisas, voltando-se para discussões inúteis, 7querendo ser mestres da lei, quando não compreendem nem o que dizem nem as coisas acerca das quais fazem afirmações tão categóricas.

Minha oração por Greta, Maísa e outros tantos jovens e adolescentes usados por forças muito maiores que eles, é que venham a conhecer a verdade, entreguem-se de coração a Cristo e venham a ser, no tempo correto, tudo aquilo que ele sonhou para suas vidas. Minha oração por você, leitor, e por mim mesmo, é que Deus nos use dentro da esfera de influência que ele tem para nós e que sejamos pais, mães, adultos responsáveis, ouvindo mas protegendo a próxima geração.

Nota

  1. Dionísio Cerqueira, Reminiscências da Campanha do Paraguai (Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1980).
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Daniel Lima foi pastor de igreja local por mais de 25 anos. Formado em psicologia, mestre em educação cristã e doutorando em formação de líderes no Fuller Theological Seminary, EUA. Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida por 5 anos, é autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem 4 filhos e vive no Rio Grande do Sul desde 1995.

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