O que fazer quando a paixão se foi?

Daniel Lima

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Somos seres sociais. Como seres humanos fomos criados e, ainda que tenha havido a Queda, nossa natureza é gregária. Um sinal certo de desajuste é quando um ser humano opta pelo isolamento social. Devido a este fato, todos temos acumulado amigos e pessoas por quem temos afeto. Em alguns momentos podemos chamá-los de “companheiros de caminhada”. Tive companheiros no período que participei do movimento escoteiro, tive companheiros quando joguei rugbi, fiz amigos no colégio, nas faculdades e nos locais onde trabalhei. Um privilégio de uma vida mais longa é poder olhar para trás e lembrar destes amigos e companheiros. São momentos felizes, embora nostálgicos.

Ultimamente tenho pensado nos companheiros que ficaram para trás. Alguns simplesmente tomaram outro rumo – o dia nos separou. Outros foram afastados por tragédias. De um modo geral, tenho pensado naqueles amigos que em determinado período seguiram a Jesus junto comigo. Por um lado, agradeço pelos que permanecem no mesmo rumo, batalhando por uma caminhada íntima com Deus; por outro, lamento por aqueles que deixaram este caminho e assumiram outros rumos, outros valores, outros estilos de vida.

Há algum tempo eu escrevi uma série de artigos sobre terminar bem. Nesta série eu procurei apresentar o que entendo que sejam hábitos de pessoas que terminaram bem suas vidas. Transformei estes hábitos em um código pessoal. São princípios balizadores da minha vida. Hoje gostaria de comentar sobre um dos princípios que parece ter feito muita diferença entre os amigos que continuam seguindo a Deus daqueles que fizeram outras opções. Quero falar de paixão por Deus.

Lendo Moisés, Vendo Jesus

Alguns já me disseram que paixão não deveria ser usada para com Deus, que é algo muito efêmero, algo muito passageiro. Respeito a opinião, mas não me imagino vivendo com Ana Paula, minha esposa, sem paixão. Meu relacionamento com ela não se baseia em paixão, mas este é um componente essencial. Há momentos em que a vida faz com que essa paixão diminua e fique quase que apagada. Nestes momentos eu aprendi que o melhor remédio é investir nos pequenos atos de amor, pequenos gestos de carinho e de atenção, mesmo sem que a paixão esteja presente. Então busco coisas como preparar um café a mais, perguntar como foi seu dia e realmente parar para ouvir. Não são estes atos que mantém o amor, mas o amor que, usando destes atos, reacende o afeto, o carinho. Na verdade, esses atos me fazem lembrar do afeto, do prazer de estar juntos, da cumplicidade, do tempo de jornada juntos.

Não são os pequenos atos de amor que trazem de volta o afeto; eles apenas trazem à memória o amor e o afeto que já existe.

O mesmo acontece em minha relação com Deus. Há dias em que meu coração está cheio da presença de Deus. Sinto paixão e afeto por ele. Reflito sobre sua graça e seu cuidado e fico sinceramente emocionado. No entanto, há dias de sequidão, em que as verdades mais profundas parecem não mover minhas emoções. Nestes dias eu já aprendi que faço o mesmo que faço em meu casamento. Busco pequenos gestos de amor e intimidade com meu Deus. Paro para ler a Bíblia com um pouco mais de atenção, falo com pessoas mencionando mais o que ele tem feito por mim, reflito mais em quem ele é, realizo atos de amor para com outros. E, assim como no meu casamento, o afeto renasce, as emoções de pertencimento, de cuidado e de gratidão ressurgem. Eu volto a me emocionar com as grandes e profundas verdades bíblicas.

Não sei como você tem lidado com seus dias de sequidão. Me parece que essa foi uma característica daqueles que deixaram de seguir a Jesus. Ao invés de lutar para retomar um relacionamento vivo com Deus, eles simplesmente se deixaram tomar pela sequidão destes dias. Alguns me disseram que as verdades primeiramente deixaram de ser sentidas, e depois deixaram de ser cridas. Talvez este seja o que Paulo descreveu em 1Timóteo 1.19 quando diz que alguns, tendo rejeitado a boa consciência, “naufragaram na fé”. Também me lembro de Jeremias diante da destruição de Jerusalém (certamente um tempo de sequidão espiritual), onde ele, enquanto se lembra das desgraças e tragédias que o cercam, escreve inspirado pelo Espírito Santo:

Todavia, lembro-me também do que pode dar-me esperança: Graças ao grande amor do Senhor é que não somos consumidos, pois as suas misericórdias são inesgotáveis. Renovam-se cada manhã; grande é a sua fidelidade! Digo a mim mesmo: A minha porção é o Senhor; portanto, nele porei a minha esperança. O Senhor é bom para com aqueles cuja esperança está nele, para com aqueles que o buscam; é bom esperar tranquilo pela salvação do Senhor. (Lamentações 3.21-26)

Não são os pequenos atos de amor que trazem de volta o afeto; eles apenas trazem à memória o amor e o afeto que já existe. Eu oro para que a realidade e as emoções do amor de Deus sejam manifestas na sua e na minha vida. Eu oro para que, nos momentos em que sua fé não trouxer emoção ou paixão, você cultive a fé na qual acredita – ao invés de se entregar a esses sentimentos. Minha oração é que você e eu digamos como Paulo, que escreveu no final da vida:

Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé. Agora me está reservada a coroa da justiça, que o Senhor, justo Juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amam a sua vinda. (2Timóteo 4.7-8)

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Daniel Lima foi pastor de igreja local por mais de 25 anos. Formado em psicologia, mestre em educação cristã e doutorando em formação de líderes no Fuller Theological Seminary, EUA. Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida por 5 anos, é autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem 4 filhos, uma neta e vive no Rio Grande do Sul desde 1995.

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