O normal é crescer!

Daniel Lima

Se o projeto de Deus é nossa transformação à imagem de Cristo, por que tantos cristãos ficam estagnados em seu crescimento? Quais são os passos do crescimento cristão?

Após um início de juventude buscando paz em muitos lugares, esta jovem finalmente se encontrou com Cristo. Seus primeiros meses de caminhada com ele foram de puro entusiasmo. Ela se envolvia em quase qualquer atividade na igreja. Lia muito, buscava ativamente orientações de sua discipuladora e falava constantemente de Jesus. Esse ímpeto ficou evidente e seu compromisso com Jesus era demonstrado em decisões acertadas mesmo diante de situações muito difíceis. Em dado momento, ela começou a exercer liderança em um ministério evangelístico. No entanto, ao tentar recrutar a ajuda de um membro da igreja com muitos anos de caminhada e na terceira geração de cristãos da família, ela ouviu, juntamente com uma recusa, o seguinte: “Não se preocupe, agora você está entusiasmada, mas dentro de algum tempo você estará como todos nós...”.

George Barna, conhecido pesquisador norte-americano, afirma que um cristão norte-americano para de crescer em sua vida espiritual em média após 7 anos. Muito embora esta seja um fato de difícil avaliação, a realidade é que tanto no exemplo da jovem acima, que continuou em seu crescimento, como diante do dado apresentado acima, qualquer observador cuidadoso vai concordar que grande parte dos cristãos não continua crescendo em sua vida cristã de forma perceptível.

É verdade que crescimento na fé é um tema no mínimo delicado. Muitas tentativas de medir crescimento realmente se tornaram meras listas comportamentais, promovendo mais o legalismo do que um incentivo a um crescimento saudável. Diante disso, será legítimo esperar crescimento de cristãos? Esse deveria ser um alvo para todos os cristãos, ou será que crescimento é apenas para os cristãos excepcionais? E, caso a expectativa de crescimento seja algo legítimo e desejável, de que modo a Bíblia nos instrui a esse respeito?

Paulo trata do tema com bastante clareza ao afirmar: “Pois aqueles que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” (Romanos 8.29). Ao tratar novamente do tema da nova aliança, Paulo afirma ainda: “E todos nós, que com a face descoberta contemplamos a glória do Senhor, segundo a sua imagem estamos sendo transformados com glória cada vez maior, a qual vem do Senhor, que é o Espírito” (2Coríntios 3.18). Pelo menos duas realidades são muito evidentes: (1) uma vez salvos, o propósito de Deus para nós é um processo de transformação à semelhança de Cristo; e (2) este processo é contínuo durante toda a vida do cristão nesta terra.

Se o propósito de Deus é nosso crescimento rumo à imagem de Cristo, por que tantos “param de crescer”? O que nos faz estacionar? Como me avaliar e saber se estou crescendo ou estagnado? Existe um padrão de crescimento pelo qual devo ou posso acompanhar meu desenvolvimento espiritual? É legítimo pensar em algo assim?

É na primeira carta do apóstolo João que encontramos um trecho que pode nos servir de orientação para o crescimento. Em 1João 2.12-14 lemos:

Filhinhos, eu escrevo a vocês porque os seus pecados foram perdoados, graças ao nome de Jesus. Pais, eu escrevo a vocês porque conhecem aquele que é desde o princípio. Jovens, eu escrevo a vocês porque venceram o Maligno. Filhinhos, eu escrevi a vocês porque conhecem o Pai. Pais, eu escrevi a vocês porque conhecem aquele que é desde o princípio. Jovens, eu escrevi a vocês, porque são fortes, e em vocês a Palavra de Deus permanece, e vocês venceram o Maligno.

Há uma unanimidade entre estudiosos que essa lista não se refere a idades cronológicas, mas sim a etapas ou estágios de crescimento. Neste artigo, quero tratar com mais cuidado do primeiro estágio, dos filhinhos. No próximo trataremos dos jovens e pais.

Para os filhinhos, aqueles que estão começando sua caminhada cristã, João tem 3 recomendações: (1) seus pecados foram perdoados; (2) conhecem o Pai; e (3) vocês fazem parte de uma família.

Seus pecados foram perdoados...

Essa parece uma verdade muito simples para aqueles que caminham com Cristo e talvez tenham crescido em famílias cristãs, mas, na verdade, é uma afirmação complexa e que embasa o próprio evangelho. Em primeiro lugar, temos o fato do pecado. O ser humano sempre procurou se afastar da questão do pecado. Ao mesmo tempo, praticamente toda cultura tem rituais ou mecanismos de “pagar pelo pecado”. Pecado significa não atender a determinado padrão ou referência. Isso pressupõe que exista uma referência externa ao homem, um padrão ou critério contra o qual o homem se mede e determina que não atingiu o esperado.

Nossa relação com Deus depende de assumirmos que um padrão absoluto existe e que eu não atinjo esse padrão.

Contra esta noção de que há um padrão absoluto já se ergueram muitos pensadores e filósofos. Desde a clássica frase de Protágoras – “O homem é a medida de todas as coisas...” – até o conceito de verdade fluída contemporânea, o homem tem lutado pela afirmação de que não há uma verdade absoluta, especialmente no campo da moral. No entanto, toda sociedade, quando levada ao extremo do relativismo, volta a afirmar que, na prática, há um padrão externo absoluto. O dilema é que, para afirmar que meus pecados foram perdoados, eu primeiro preciso reconhecer que tenho pecados e para isso preciso admitir que há um padrão ou princípios diante dos quais eu não atingi ou me submeti.

Esse é um passo fundamental para que alguém seja cristão, pois nossa relação com Deus depende de assumirmos que um padrão absoluto existe e que eu não atinjo esse padrão. Uma atitude assim deveria levar todo cristão ao quebrantamento como estilo de vida. Isso destoa enormemente da postura tantas vezes arrogante de cristãos que se apresentam como tendo “tudo resolvido” em suas vidas. O efeito de uma postura de quebrantamento contrasta tanto com a hipocrisia dos religiosos como com a arrogância do homem moderno, que afirma não ter pecado.

O primeiro passo não é meramente admitir pecados, mas afirmar que seus pecados foram perdoados. Essa frase introduz um conceito novamente radical: o perdão. O conceito de pecado ao longo da história da humanidade, definido de muitas formas diferentes, não é raro ou estranho, embora sempre resistido. O conceito de perdão, por sua vez, é algo inexistente fora da fé judaico-cristã. Diante dos deuses gregos o homem poderia reconhecer seu pecado e tentar de alguma forma pagar por eles, assumir suas consequências ou ser punido pelos deuses. Caso não houvesse punição, não era devido ao perdão por parte da divindade, mas era por esta ter ignorado a falta ou não ter percebido ela.

O conceito de perdão inclui necessariamente o conceito de relacionamento, mais uma ideia extremamente rara nas muitas expressões teológicas pagãs. Na teologia pagã nórdica, por exemplo, os deuses não querem um relacionamento com as pessoas, eles querem ser honrados e servidos ou então querem se divertir com os humanos, mas não um relacionamento. Perdão, por outro lado, significa uma possibilidade de retomar um relacionamento. No perdão, o ofendido abandona seu direito de revidar a ofensa e abre a possibilidade de retomar o relacionamento. Por isso a conhecida frase: “Eu te perdoo, mas não quero mais te ver...” soa tão falsa. Enquanto não houver uma abertura para o voltar a relacionar-se, não houve perdão, houve ruptura.

Em contrapartida, uma vez compreendido a verdade de que nossos pecados existem e são ofensas contra um Deus perfeito e amoroso, mas podem ser perdoados, podemos viver em completa liberdade. Ao invés da tendência humana de diminuir, esconder ou relativizar pecados, posso livremente admiti-los, pois estes foram perdoados; não apenas ocultos, mas plenamente reconhecidos e perdoados. Essa experiência elimina por um lado a hipocrisia de ocultar pecados como também o desespero e a vergonha de ter de viver com eles.

Conhecem o Pai...

A segunda expressão é mais um conceito fundamentalmente judaico-cristão. O conceito de Deus como Pai, e não apenas Criador, não é apenas desconhecido como também revolucionário. Na maciça maioria das expressões culturais, deus é visto como distante e perigoso. Nas culturas em que se concebia paternidade divina, esta era reservada a reis e sacerdotes. O conceito de ser aceito e adotado pelo Deus do universo ultrapassa em muito a compreensão humana comum.

O texto bíblico que talvez melhor represente esse conceito de paternidade é a famosa parábola do filho perdido, ou filho pródigo (Lucas 15). No caso, um homem tinha dois filhos. Um se rebela e, tomando sua herança, se distancia e gasta tudo. Em sua situação de miséria, ele se dá conta de que estaria muito melhor como servo do pai do que na presente realidade. Ao retornar, na esperança de ser admitido como servo, ele é abraçado e colocado mais uma vez na condição de filho. Ao perceber isso, o filho mais velho se revolta e expressa em suas palavras como também não se percebia como filho: “... todos esses anos tenho trabalhado como um escravo ao teu serviço...” (Lucas 15.29). Este filho se via e vivia como escravo, ainda que na casa do pai.

O conceito de ser aceito e adotado pelo Deus do universo ultrapassa em muito a compreensão humana comum.

Com frequência vemos cristãos que vivem em um destes dois desvios: ou se rebelam e rompem com os padrões do Pai ou se comportam como escravos debaixo de um senhor cruel e exigente. Os primeiros vivem de modo desregrado, sofrendo e causando dores a todos ao seu redor e a Deus. Os segundos vivem de modo sofrido, sem usufruir da relação que têm com o Pai. É somente quando aprendemos a ver Deus como Pai é que podemos viver a vida cristã com liberdade, leveza e prazer.

Vocês fazem parte de uma família

Embora esse conceito não esteja expresso diretamente, ninguém pode negar que as palavras usadas e o contexto apontam para uma nova realidade relacional. O cristão é agora membro da família de Deus (Efésios 2.19). Não só o apóstolo João usa termos familiares (filhinhos, jovens e pais), mas a ênfase no relacionamento com o Pai destaca essa imagem de família. Esse conceito é de novo radicalmente diferente da maioria das religiões pagãs e infelizmente não tão divulgado e compreendido na própria cristandade. Nossas igrejas com frequência se parecem mais com instituições do que com famílias. Existe mais uma sensação de controle do que de pertencimento.

Por isso, talvez, existam tantos hoje no Brasil que se apresentam como ex-evangélicos, ou evangélicos não praticantes. São pessoas que talvez ainda mantenham uma fé cristã, talvez ainda afirmem serem perdoados e que Deus é seu Pai, mas não se conectam com um grupo local de cristãos. Muitos destes foram feridos, outros tantos se recusam a prestar contas, mas o resultado final é que são cristãos (quando o são) que deixam de crescer em sua jornada de fé. Ao se desvincularem com um grupo comprometido, esses cristãos se tornam estagnados em seu crescimento e, com muita probabilidade, reverterão a costumes não cristãos.

Conclusão

Nesta primeira etapa da caminhada cristã, os 3 passos são: primeiro, compreender e tomar posse do perdão de seus pecados. Segundo, compreender e experimentar a realidade de ser filho de Deus; entrar em um relacionamento seguro de filho amado do Pai. Terceiro, assumir que, uma vez cristão, eu faço parte de uma família e é essencial para meu crescimento que eu participe ativamente dela.

Minha oração é que cada cristão faça uma revisão desses passos. Com frequência encontro cristão com anos de caminhada, mas que ainda não aprenderam esses primeiros passos. O resultado nesses casos é a eventual estagnação. Oro para que tanto você como eu possamos aprender as verdades fundamentais dessa etapa, para podermos avançar em tudo aquilo que Deus tem para nós.

Daniel Lima foi pastor de igreja local por mais de 25 anos. Formado em psicologia, mestre em educação cristã e doutorando em formação de líderes no Fuller Theological Seminary, EUA. Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida por 5 anos, é autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem 4 filhos e vive no Rio Grande do Sul desde 1995.

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