Façam o bem àqueles que os odeiam

Bettina Hahne-Waldscheck

Na escuridão da noite síria, nas colinas de Golã, perto da fronteira israelense, os fachos de luz de faroletes esbarram em um grupo de pessoas. Finalmente os soldados israelenses encontraram quem procuravam – e também os homens, mulheres e crianças que esperavam no escuro encontraram nos israelenses o que esperavam. Trata-se de sírios feridos e doentes para quem não existe mais ajuda médica e humanitária naquela região. Os soldados das Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês) levam essas vítimas até uma clínica, onde receberão cuidados. O parceiro dos soldados da IDF é a organização médica cristã Aliança Internacional de Fronteira (FAI, na sigla em inglês), fundada em 2012 com o objetivo de unir assistência médica e cuidados com missão. Com isso iniciou-se, completamente à margem da imprensa mundial, um projeto espetacular e extraordinário em vários sentidos: os cristãos da FAI e o exército israelense instalaram duas clínicas emergenciais – e isso na Síria! Os israelenses providenciam o equipamento médico, alimentação, combustível para os geradores elétricos de emergência e o equipamento técnico médico.

A IDF fornece esse tipo de materiais auxiliares também para outras clínicas na Síria, como por exemplo a uma clínica obstétrica provisória, que recebe aparelhos de ultrassom, incubadoras e outros equipamentos médicos. Antes disso não havia nenhuma clínica ginecológica naquela região, onde vivem 225 000 pessoas. Os militares israelenses também cuidam da segurança da missão dentro da área crítica e provêm a dispendiosa logística, o transporte do pessoal médico da FAI e dos materiais auxiliares e de consumo. “Para nós é um grande privilégio trabalhar em parceria com a IDF”, comenta impressionado Dalton Thomas, fundador e diretor da FAI. “Amamos o povo judeu e as Forças de Defesa Israelenses.” “Queremos ajudar em zonas de conflito negligenciadas por organizações cristãs”, explica Thomas à revista suíça factum. Ele continua: “Nosso trabalho começou entre refugiados sírios na Turquia; depois fomos ao Iraque e para outros países em torno da Síria. Com isso entramos em contato com os militares israelenses. No início de 2017 nos perguntaram se entraríamos numa cooperação com eles para ajudar a Síria”. “Perguntamos à IDF quais seriam as necessidades dos sírios. A resposta: ‘Eles precisam de médicos’.”

Sem merecer a atenção da imprensa mundial, os militares israelenses cooperam com médicos cristãos na operação de hospitais na Síria. São ações humanitárias nas piores condições.

Foi só recentemente que vieram à luz operações humanitárias empreendidas já há cinco anos pela IDF, ocultas ao público. Um exército ajuda o seu inimigo, porque oficialmente a Síria se considera em estado de guerra contra Israel. Ao contrário do Egito e da Jordânia, a Síria recusou-se a celebrar um tratado de paz com Israel. A missão começou como ação ad hoc quando, há alguns anos, sírios feridos foram levados por seus parentes até a fronteira israelense. Eles pediram ajuda aos militares israelenses. Disso desenvolveu-se em 2016 uma grande ajuda humanitária, a “Operation Good Neighbor” [Operação Bom Vizinho].

Os médicos da FAI trabalham sob condições de inimaginável dificuldade; às vezes até em abrigos subterrâneos. Recentemente ajudaram ali dois bebês a vir à luz sob o barulho de um bombardeio aéreo. Nos vídeos encontrados no site da FAI que mostram os médicos em atividade, veem-se em parte imagens brutais de braços e pernas decepados e peitos dilacerados por bombas. Dalton Thomas, fundador e presidente da FAI, informa: “Oferecemos ajuda emergencial, mas nosso principal foco são as famílias. Queremos ajudar principalmente a geração seguinte, bem como as mães que engravidam no meio da guerra. Cremos que Jesus quer nossa presença em lugares difíceis, junto às pessoas – que choremos e nos alegremos com elas. Queremos dizer-lhes que as amamos. Fazemos tudo isso por Jesus, pela Síria e por Israel. Se estabelecermos entre estas duas nações uma atmosfera de respeito, a fronteira de Israel também se tornará mais segura”. Também os israelenses esperam que a Operação Bom Vizinho contribua para criar na Síria um ambiente menos hostil.

Assaf Orion, ex-chefe do planejamento de pessoal na divisão estratégica da IDF, disse ao Jewish News Syndicate (JNS.org): “Esta abordagem humanitária, que já revela seus efeitos, é moralmente correta e proporciona outros resultados palpáveis na medida em que a noção sobre Israel entre seus vizinhos mais próximos na Síria muda. Fato é que nunca houve ataques a Israel provenientes dessas regiões, em contraste com as regiões ocupadas pelo regime”. Um comandante participante também enfatiza que a IDF age movida por um “imperativo moral”. Em 2012, IDF e FAI tinham ao mesmo tempo e independentes um do outro o mesmo objetivo: prestar ajuda humanitária a sírios – até que no início de 2017 eles se encontraram para formar uma parceria.

“Fazemos tudo isso por Jesus, pela Síria e por Israel.”

Um documentário da emissora cristã CBN intitulado “Serving Syrians Alongside the Israeli Army” [Servindo Sírios ao Lado do Exército Israelense], que noticiou pela primeira vez essas campanhas assistenciais, mostra a FAI, com ajuda de militares israelenses, enviando uma equipe médica para um hospital emergencial dentro da Síria. Depois de sete semanas, a doutora americana Sally Parsons retornou dessa campanha. Por que ela foi até lá? Ela explica: “Porque o Senhor nos chama para ir a todas as nações do mundo. Percebi que Deus me dizia que fizesse exatamente isso aqui”. Debbie Dennison, enfermeira emergencial americana, que também entende ter sido chamada por Deus do mesmo modo, complementa: “Gente é gente, não importa se ostenta o rótulo de cristão, muçulmano ou judeu. São mulheres e homens. Todos têm as mesmas necessidades e ferimentos e precisam da mesma solidariedade e amor [...] Fomos como cristãos a uma comunidade que não nos conhecia, que alimenta uma hostilidade histórica contra cristãos, mas bastava expressar amor para sermos recebidos de braços abertos”.

Os 20 profissionais médicos da FAI na Síria, provenientes de diversos países, realizam seu trabalho sem ganhar um centavo. Tratam-se de campanhas de muitos meses ou mais. “Para mim, essas são as pessoas mais espantosas do mundo”, disse Dalton Thomas à revista suíça factum, “porque trabalham num ambiente muito difícil e perigoso. Muitas vezes ocorrem combates em torno deles ou há explosões de bombas. Para mim, esses médicos são heróis. Os habitantes locais os amam.”

Muitas vezes os médicos são confrontados com situações médicas que não correspondem à sua especialidade. Nessas horas, o que ajuda é a oração e a atuação decidida, tal como ocorreu recentemente com uma grávida que precisava de uma cesariana. Sally Parsons relata na CBN: “Baixamos um vídeo do YouTube que mostrava a técnica da cesariana, mas oramos muito mais do que lemos”. Assim inspirada, a dra. Parsons trouxe um bebê saudável ao mundo por meio de incisões cirúrgicas seguras. “É isto que nos mantêm de pé: ver nova vida em meio a uma guerra cruel. É uma bênção incrível.” Pacientes em condições de tratamento demorado são enviados a Israel pela médica. O exército israelense cuida do transporte para hospitais israelenses.

Cristãos e judeus atuam juntos segundo o lema: “Amem os seus inimigos, façam o bem aos que os odeiam” (Lc 6.27).

Segundo a IDF, desde 2012 a Operação Bom Vizinho já prestou assistência médica a mais de 5 000 pessoas. Além de feridos em combate, Israel também cuida de crianças com doenças crônicas que não têm acesso a hospitais, transportando-as de ônibus para hospitais israelenses. O custo é assumido pelo Estado de Israel. Além disso, todas as noites, transportes assistenciais israelenses atravessam a fronteira síria. Os militares israelenses já disponibilizaram mais de 450 000 litros de combustível para aquecedores e geradores elétricos, 40 toneladas de farinha, 225 toneladas de refeições, 12 000 embalagens de alimento para bebês, 1 800 pacotes de fraldas, 12 toneladas de calçados e 55 toneladas de agasalhos. No total, Israel já despendeu vários milhões de dólares em ajuda humanitária para a Síria.

“Não suporto ver como as pessoas além da fronteira sucumbem [...] Para mim, é uma oportunidade para ajudar”, diz o primeiro-oficial médico da Operação Bom Vizinho, o major Sergey, à CBN News em Israel: “Tenho muito orgulho de poder participar, e preciso agradecer à organização FAI por enviar esse pessoal médico altamente profissionalizado para ajudar no lado sírio. Não é fácil”. Danton Thomas comenta a respeito dos militares israelenses: “Nos últimos cinco a seis anos, as forças de defesa israelenses colocaram de lado a política para poderem construir uma boa vizinhança com a Síria. Nossa cooperação com a IDF é um projeto único na história. Nunca antes os militares israelenses trabalharam em parceria com uma organização cristã para ajudar o inimigo com ações de amor ao próximo”. Judeus e cristãos trabalham de mão em mão para ajudar muçulmanos carentes.

Apocalipse

Israel pratica aqui o amor ao inimigo preconizado por Jesus: faz o bem aos que o odeiam. Pode-se observar nas reações dos pacientes que isso move algo neles. Pacientes sírios tratados em hospitais israelenses oferecem à imprensa declarações como esta: “Bem que eu gostaria de poder ficar aqui para sempre”, ou: “A todos os sírios que consideram Israel nosso inimigo: vocês estão errados! Nós amamos Israel! Eu pensava que Israel fosse mau, mas agora vejo que é exatamente o contrário. Dou graças a Deus por ter chegado em tempo a Israel; caso contrário, não estaria mais vivo”. (factum-magazin.ch)

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