Como andar no escuro?

Daniel Lima

Anos atrás um missionário entre os árabes me contou que no povo onde ele viveu a metáfora para a vida é que caminhamos de costas em direção ao futuro. O raciocínio daquele povo é que conhecemos o passado, mas ignoramos o futuro, então tudo no futuro é surpresa, muito embora se possa ter uma vaga ideia daquilo que vamos viver olhando para o passado. O conceito me pareceu muito interessante. Como ocidentais nossa metáfora é que caminhamos de frente para o futuro, pois este nos trará novas oportunidades e desafios. Este conceito focaliza mais a questão da esperança. Caminhamos rumo ao que esperamos, embora ainda não seja visível. O conceito de caminhar de frente para o futuro traz também um elemento muito presente em nossa cultura, que é o controle. Cultivamos a ideia de que se olharmos para o futuro podemos exercer algum nível de controle sobre o que virá sobre nós.

O problema é que realmente não podemos “ver” o futuro, primeiramente pois o futuro não existe em nossa dimensão temporal. O futuro ainda não aconteceu. Podemos tentar prever, imaginar, analisar e calcular, mas o futuro insiste em permanecer encoberto aos nossos olhos.

Esta semana em minha devocional eu me deparei com uma declaração que me tocou:

Fé é uma maneira de ver [...] Fé não é cega, é justamente o oposto. Fé é uma maneira espiritual de ver aquilo que nossos olhos físicos nunca verão por si só.*

Esta perspectiva é amplamente apoiada na Bíblia. Por exemplo, no famoso texto sobre a fé do capítulo 11 de Hebreus, lemos:

1Ora, a fé é a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos. 2Pois foi por meio dela que os antigos receberam bom testemunho. 3Pela fé entendemos que o universo foi formado pela palavra de Deus, de modo que aquilo que se vê não foi feito do que é visível.

A passagem nos conduz a uma conclusão radical. No verso 1, entendemos que fé é crer sem ver. Jesus indica não só que fé é crer sem ver, mas que na verdade felizes são os que creem sem ver (João 20.29). Este é talvez o elemento com o qual temos maior dificuldade com relação à fé. Para crer temos de acreditar que algo que não vemos existe! É de nossa natureza olhar, tentar obter alguma medida de segurança a partir do que vemos. No verso 3, lemos que aquilo que vemos foi criado a partir do que não vemos. Fé é crer no que não vemos, fé é também crer que o visível foi criado a partir do invisível. Definitivamente, nossa visão é perigosa como avaliador...

No entanto, a pergunta que permanece é: o quanto podemos confiar em nossos olhos? Anos atrás, em um parque de diversões, fui a um brinquedo que simulava um passeio em uma nave espacial. O mecanismo é bem simples: uma tela grande ao seu redor, sua poltrona que se inclina levemente na direção que o filme indica e seu cérebro faz o resto. O passeio foi muito divertido, a “nave” passava por baixo de obstáculos e entrava em túneis apertados, desviando-se bruscamente de paredes, tubos e mesmo naves “inimigas” – tudo em uma velocidade alucinante. A sensação de tensão era genuína, mas em dado momento, meio que para testar minha percepção, eu fechei meus olhos por alguns segundos. A sensação foi decepcionante. Sem ter as imagens atingindo meu cérebro e criando uma sensação de realidade, tudo o que restava era o movimento leve da poltrona. Sem a ilusão dos olhos estas inclinações eram irrelevantes, não enganavam meu cérebro e eu me dava conta que estava confortavelmente sentado em uma poltrona, cercado de pessoas gritando e se divertindo. Eu tornei a abrir os olhos e mais uma vez fui imerso em uma experiência sensorial de que estava em alta velocidade em uma nave espacial... Esta foi muito instrutiva. Aquele brinquedo é construído com a clara intenção de, por alguns momentos, iludir nosso cérebro. E, mesmo sabendo disso, somos iludidos! A sensação mais poderosa naquela ilusão é a visão; o movimento da cadeira apenas facilita a ilusão. No entanto, quando fechamos os olhos, toda a ilusão desaparece.

Nossos olhos nos enganam de muitas formas... Vemos algo e os olhos logo “completam” a sensação determinando que algo é bom ou pelo menos desejável.

Nossos olhos nos enganam de muitas formas... Vemos algo e os olhos logo “completam” a sensação determinando que algo é bom ou pelo menos desejável. Com muita facilidade vemos e entendemos aquilo que se adequa aos nossos pressupostos e rejeitamos aquilo que não se adequa. Isso tem sido muito evidente no uso intenso e contemporâneo das mídias sociais. Neste universo a aparência reina soberana. Importa muito mais o que eu aparento, a sensação que tenho ou que crio do que aquilo que é real. Na verdade, alguns especialistas têm se perguntado o que é real e por que uma sensação não pode também ser considerada real? A questão da realidade é ampla e vamos tratar dela em outro artigo. No entanto, o que nos resta é que temos de cuidar dos nossos olhos, pois com facilidade vemos algumas coisas e rejeitamos outras conforme se encaixam ou contrariam nossas convicções.

Assim, andamos no escuro. Nossos olhos nem sempre são guias confiáveis, mas nossa insegurança, nosso desejo por controle nos faz confiarmos em demasia em nossa visão. E, ao mesmo tempo, tememos o escuro. No escuro perdemos esta sensação de visão que nos é tão preciosa e na qual confiamos tanto. E rapidamente nos sentimos inseguros. Em geral, ao andarmos no escuro andamos com cautela, testando o terreno em que estamos, talvez com as mãos estendidas, ou quem sabe com o auxílio de uma bengala. No entanto, se o local em que estamos é conhecido andamos com muito mais segurança. Instintivamente nos desviamos de móveis e objetos que sabemos estar ali (torcendo para que ninguém os tenha movido...).

Parece que, como cristãos, nos esquecemos de que este mundo jaz no maligno, e que o príncipe deste mundo é o príncipe da mentira.

Parece que, como cristãos, nos esquecemos de que este mundo jaz no maligno, e que o príncipe deste mundo é o príncipe da mentira. Como então confiamos em nossos olhos? Como então buscamos segurança naquilo que vemos? A Palavra nos indica um outro caminho. Paulo, ao tratar do tema de nossa partida, de estarmos para sempre com Deus, escreve: “Porque vivemos por fé, e não pelo que vemos” (2Coríntios 5.7). Mesmo que você hesite em concordar, andamos no escuro, e o futuro nos é desconhecido. Temos segurança de que Deus tem o futuro, nosso futuro, em suas mãos. Mas, ainda assim: como andar com segurança nestas condições? Aqui nos cabe o conselho do Espírito conforme registrado pelo autor do livro aos Hebreus:

Portanto, também nós, uma vez que estamos rodeados por tão grande nuvem de testemunhas, livremo-nos de tudo o que nos atrapalha e do pecado que nos envolve e corramos com perseverança a corrida que nos é proposta, tendo os olhos fitos em Jesus, autor e consumador da nossa fé. Ele, pela alegria que lhe fora proposta, suportou a cruz, desprezando a vergonha, e assentou-se à direita do trono de Deus. (Hebreus 12.1-2)

Deixe-me tentar mostrar quais são os conselhos que eu tiro dessa passagem para os momentos em que o escuro tenta me paralisar:

  1. Estou rodeado de uma grande nuvem de testemunhas. Posso aprender destas testemunhas que caminharam nas mesmas condições que eu. Posso observar como conduziram suas vidas e o resultado delas (ver Hebreus 13.7).

  2. Preciso me livrar daquilo que me atrapalha. Ao longo da vida vamos acumulando muitas coisas que nem sempre são ruins em si, mas que nos atrapalham a andar. São compromissos e vínculos que vamos criando. São promessas que fazemos a outros, a causas ou a nós mesmos. São pesos desnecessários em nossa caminhada. Precisamos nos livrar destes para andar com segurança no escuro.

  3. Precisamos nos livrar do pecado que nos envolve. Estas são tendências pessoais, são convites do mundo ou engano do Diabo, mas cada uma delas quer nos afastar de Deus. Se o que nos atrapalha no ponto acima podem ser coisas inocentes, estas não são. São ações, pensamentos e atitudes que contrariam nosso Senhor. Precisamos continuamente nos examinar e confrontar essas tendências em nosso coração.

  4. Precisamos não só andar no escuro, mas correr! Fomos chamados para realizar obras que Deus preparou de antemão para que andássemos nelas (Efésios 2.10). Cada um de nós tem uma corrida que o Senhor preparou para nós. Um dos efeitos que a escuridão tem sobre nós é nos fazer diminuir o ritmo até pararmos. Não pare de andar, de correr no caminho que Deus preparou para você.

  5. Finalmente chegamos no ponto central desta exortação: “... tendo os olhos fitos em Jesus”. Nossa visão não é má, ela apenas pode ser usada para nos enganar. Por isso o Espírito nos diz para mantermos nossos olhos em Cristo e não nas coisas ao redor. É muito fácil se distrair se olharmos continuamente ao redor. O mundo sempre tem algo de belo (e enganoso) para nos oferecer.

Minha sincera oração é que eu e você cuidemos de nossos olhos e, ao repararmos que estamos no escuro, mantenhamos eles em Cristo Jesus, que pela alegria de ter comunhão conosco suportou a cruz, a vergonha, mas venceu e está hoje assentado nos céus.

* K. R. Anderson e R. D. Reese, Spiritual Mentoring: A Guide for Seeking and Giving Direction (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 1999).

Daniel Lima foi pastor de igreja local por mais de 25 anos. Formado em psicologia, mestre em educação cristã e doutorando em formação de líderes no Fuller Theological Seminary, EUA. Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida por 5 anos, é autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem 4 filhos e vive no Rio Grande do Sul desde 1995.

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