Como devemos enfrentar a iniquidade?

Daniel Lima

Semana passada, o país foi tomado por pelo menos duas polêmicas que atingiram o mundo evangélico. De um lado nosso presidente compartilhando um ato indecente (perdoem-me os que entendem aquela encenação como arte). Muito embora sua intenção declarada era mostrar sua indignação, o resultado foi um tumulto que obscureceu seu intuito. A segunda polêmica foi a apresentação da escola de samba Gaviões da Fiel em São Paulo, em que um ator vestido de Satanás derrota um ator vestido de Cristo.

Segundo aqueles que realizaram a encenação obscena, o propósito era mesmo chocar, assim como a outra que foi blasfema. Em minha opinião, ambas são lamentáveis e até mesmo repugnantes, mas simplesmente retratam o que nossa sociedade tolera e, em vários momentos, até mesmo apoia. No entanto, por que estamos tão surpresos como cristãos? O que esperávamos de uma festa como o carnaval? Ou ainda mais: será que esses foram os atos que mais ofenderam a Deus? O que dizer sobre a violência contra mulheres, sobre prostituição infantil, sobre abuso de substâncias ou turismo sexual?

Nem por um momento estou tentando diminuir a gravidade do que foi veiculado, seja por nosso presidente, seja em uma passarela de Carnaval. No entanto, me parece que alguns cristãos ainda não se deram conta de que vivemos em uma sociedade não cristã. Nosso povo não é um povo pacífico (62.517 mortes violentas em 2016), não é um povo que valoriza uma vida familiar harmoniosa (221 mil queixas de violência doméstica em 2017), não é um povo que se caracteriza por discrição na área sexual (não vou nem apresentar números...) e, por fim, não é uma sociedade transformada pelo cristianismo. O “cristianismo” brasileiro é superficial, ritual e nominal.

Quando a igreja primitiva invadiu o mundo no primeiro século, aquela cultura se caracterizava pela imoralidade, pela injustiça social, pela falta de proteção de vulneráveis e por um paganismo institucionalizado.

Um dos equívocos da igreja ocidental é crer que de alguma forma nossa sociedade e nossa cultura são cristãs. Com isso usamos argumentos cristãos para tentar conter os abusos da própria sociedade. Houve uma época em que a cultura tinha um certo respeito (ainda que superficial) pelas verdades cristãs, mas este tempo já passou. Hoje vivemos em uma sociedade pagã, em muitos sentidos semelhante ao mundo greco-romano do primeiro século.

Esta perspectiva não deveria nos desanimar, mas indicar o verdadeiro contexto no qual vivemos e lutamos. Quando a igreja primitiva invadiu o mundo no primeiro século, aquela cultura se caracterizava pela imoralidade, pela injustiça social, pela falta de proteção de vulneráveis e por um paganismo institucionalizado. Ainda assim, aquele movimento desorganizado, imaturo e sem recursos “virou o mundo de pernas para o ar”. A confiança da igreja primitiva não estava em seu status perante a sociedade, não estava nas leis ou no respeito por suas instituições. Sua confiança estava no testemunho de vidas transformadas apesar do desprezo, hostilidade e perseguição em que viviam.

Como reagir então a uma sociedade que é hostil à nossa fé? Como apresentamos Cristo diante daqueles que não compartilham – na verdade até se opõe – ao que cremos? Como proclamar nossa fé em meio ao império das trevas? Novamente corremos para a Bíblia buscando orientação. Quando Jesus enviou os doze discípulos em sua primeira viagem missionária, suas palavras foram diretas e contundentes, tanto quanto ao que iriam enfrentar como quanto à instrução oferecida. Em Mateus 10.16-20 lemos:

16Eis que eu os envio como ovelhas para o meio de lobos. Portanto, sejam prudentes como as serpentes e simples como as pombas. 17Tenham cuidado com os homens, porque eles os entregarão aos tribunais e os açoitarão nas suas sinagogas. 18Por minha causa vocês serão levados à presença de governadores e de reis, para lhes servir de testemunho, a eles e aos gentios. 19E, quando entregarem vocês, não se preocupem quanto a como ou o que irão falar, porque, naquela hora, lhes será concedido o que vocês dirão. 20Afinal, não são vocês que estão falando, mas o Espírito do Pai de vocês é quem fala por meio de vocês.

É curioso que a ilustração de Jesus não é a de que somos como valentes cães pastores que enfrentam os lobos pagãos. Sua escolha foi o exemplo de ovelhas, que têm como característica mais conhecida sua mansidão. Sua mansidão não é devido à passividade delas, mas à postura de que sua defesa depende do pastor de suas almas.

O contraste “serpentes x pombas” é muito curioso e instrutivo. A atitude da serpente é descrita como “prudente”. Esta palavra no original é geralmente usada no sentido positivo de cuidado, sabedoria ou discrição. Assim, por um lado devemos ser cuidadosos, sem buscar aparecer ou impressionar por nosso próprio poder. Por outro lado, somos chamados a estar no mundo sem malícia, sem jogo sujo, sem mentiras ou manipulações da verdade.

Apostasia
Quando formos confrontados quanto à nossa fé, quando formos constrangidos a nos manifestar, nosso papel é falar o que o Espírito Santo nos der para falar.

Jesus não esconde que somos vulneráveis e que seremos injustiçados. Ele não esconde que a própria lei será usada contra nós. Ele afirma que a sociedade será hostil contra nós. No entanto, sua ênfase está em nossa postura quando formos levados diante de autoridades. Nesse contexto não devemos nos preocupar com o que dizer, pois nossa vitória não está em argumentos astuciosos. O próprio Espírito Santo falará por nosso intermédio. Quando formos confrontados quanto à nossa fé, quando formos constrangidos a nos manifestar, nosso papel é falar o que o Espírito Santo nos der para falar.

Em resumo:

  1. Não devemos ser combativos, mas cuidadosos e sem malícia, preservando a Palavra de Deus sem hostilidade (ver Filipenses 2.14-16);

  2. A sociedade se voltará contra nós, seremos injustiçados e perseguidos (ver João 16.33);

  3. Nossa resposta deve ser espiritual e não conforme as discussões deste mundo (ver 1Pedro 3.15-16).

Minha oração é que tanto eu como você estejamos prontos a explicar a razão de nossa fé, mas, como instruiu Pedro, fazendo isso com mansidão e respeito. Que sejamos conhecidos pelo Espírito que habita em nós e não por nossa sagacidade e articulação.

Daniel Lima foi pastor de igreja local por mais de 25 anos. Formado em psicologia, mestre em educação cristã e doutorando em formação de líderes no Fuller Theological Seminary, EUA. Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida por 5 anos, é autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem 4 filhos e vive no Rio Grande do Sul desde 1995.

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