O mistério dos manuscritos de Qumran

Alexander Schick

Nunca se saberá por que, afinal, Muhammed edh-Dhib, da tribo beduína dos Tamirés, desceu na primavera de 1947 o barranco na costa ocidental do Mar Morto. Será que ele estava mesmo procurando sua cabra que lhe teria fugido, tentando assustá-la atirando pedras, como ele repetidamente relatou mais tarde? Ou será que ele procurava um esconderijo adequado para o seu contrabando, que naqueles dias os beduínos transportavam da Jordânia para a Palestina? Na verdade, a razão por que atirou suas pedras é irrelevante – o que importa é que com isso ele pôs em movimento uma avalanche que até hoje prende a respiração de pesquisadores do mundo inteiro e também do público em geral.

Quando Muhammed descobriu a cerca de 1,5 km ao norte da antiquíssima ruína de Qumran a abertura particularmente pequena de uma caverna, ele atirou uma pedra também para dentro dela. Aí ouviu o som de um vaso de barro trincando. Naquela caverna ele viu 50 jarros de barro cuidadosamente enfileirados junto à parede. Um daqueles jarros de 60 cm de altura havia se quebrado com a pedra que ele atirara. Teria ele descoberto um tesouro escondido? Mas que decepção! O que ele achou nos jarros foram apenas alguns rolos de couro terrivelmente lambuzados e enegrecidos, que depois ele examinou melhor no seu acampamento. Ninguém dos seus companheiros da tribo sabia o que fazer com os caracteres escritos naqueles velhos rolos. Os beduínos não tinham noção de terem nas mãos um tesouro mais valioso que ouro e prata. Meses depois, eles conseguiram vender seu achado ao arcebispo Atanásio Yeshue Samuel, da comunidade ortodoxa síria. O preço da venda: 92 dólares. Alguns anos depois, o Estado de Israel pagou ao bispo 250.000 dólares por seus rolos! Por meses, o arcebispo tentou descobrir o que, afinal, ele havia comprado, já que ele não conseguia decifrar aquela antiga escrita. Quando, em fevereiro de 1948, ele topou com o jovem estudioso da Bíblia americano Dr. Trever, este reconheceu imediatamente que aqueles rolos constituíam um verdadeiro tesouro bíblico.

O mais longo dos rolos revelou-se uma cópia do livro do profeta Isaías. O formato das letras permitiu deduzir que o rolo deveria ser do primeiro ou segundo século antes de Cristo. Esse rolo representava a mais antiga cópia completa de um livro da Bíblia em hebraico. Cumpria-se assim o sonho de todos os pesquisadores de textos. A datação do manuscrito de Isaías para o Século II a.C. foi confirmada em 1991 e 1994 por meio de ensaios radioativos. Até hoje o chamado grande rolo de Isaías do Mar Morto constitui uma maravilha. Antes dos achados de Qumran, o manuscrito bíblico hebraico completo mais antigo era do Século X depois de Cristo (o chamado Códice de Leningrado). Graças ao grande rolo de Isaías, o texto pôde ser rastreado retrospectivamente em mais de 1.000 anos.

Os massoretas eram eruditos judeus que por séculos foram transmitindo o texto da Bíblia judaica (o Tanach, o nosso Antigo Testamento). Todavia, nunca se teve plena certeza da efetiva confiabilidade do texto impresso usual do Antigo Testamento baseado naqueles textos massoréticos. Compreensivelmente, um processo milenar de transmissão implica numerosos problemas. Quantos copistas teriam repetidamente copiado o texto ao longo dos séculos? Seria possível ter certeza de que os copistas não tivessem cometido erros apesar de todo o cuidado que tomavam? Com esse rolo de Isaías do Século II a.C., tinha-se agora em mãos um livro bíblico completo do Antigo Testamento mais de 1.000 anos anterior aos manuscritos medievais. Um fenômeno maravilhoso! Tornava-se agora possível averiguar de uma vez mais de 1.000 anos de história textual. Mal a descoberta do rolo de Isaías foi divulgada, os jornais escreveram: “Agora se demonstrará que a Bíblia foi mal transmitida. Agora os fundamentos do cristianismo serão abalados.” O rolo de Isaías tornou-se nada menos que o padrão de avaliação da tradição bíblica. Todavia, constatou-se que o texto fora transmitido com extraordinária precisão.

Em alguns casos foi possível recuperar o texto “original” do livro profético. Já fazia tempo que a passagem de Isaías 21.8 representava um problema de grande monta para os tradutores. No texto medieval disponível (o chamado texto massorético), o enunciado é: “E ele gritou, um leão: Estou a postos numa torre de vigia, ó Senhor...” Outra tradução possível seria “E um leão gritou: Estou a postos numa torre de vigia, ó Senhor...” Traduções e revisões posteriores tentaram dar sentido à passagem introduzindo nela um “como”: “E ele gritou como um leão”. Assim fizeram, por exemplo, as Bíblias alemãs de Lutero (edição de 1912), Schlachter e Elberfelder (edição antiga). A dificuldade que os tradutores têm até hoje com essa passagem quando seguem exclusivamente o texto bíblico massorético tradicional clássico aparece na tradução em geral literalmente fiel do professor judeu Tur-Sinai. Ele fornece o seguinte enunciado (explicativo): “Então ele clama: ‘o leão (está solto)! Estou de vigília, Senhor...’”.

De qualquer modo fica bem difícil entender o que aquele leão foi fazer ali, uma vez que antes disso o versículo 6 relata o modo como Deus ordena: “Vá, coloque um vigia de prontidão para que anuncie tudo o que se aproximar” (NVI). O rolo de Isaías de Qumran revelou então que o “leão” surgira por um equívoco de muitos séculos atrás pela troca de posição de consoantes. O rolo de Qumran fornece o texto original: “E aquele que o viu, gritou: Estou sobre uma torre de vigia, ó Senhor...” Uma outra tradução seria: “Então o vidente clamou: Sobre uma torre de vigia...” As diferentes leituras decorrem de uma certa semelhança no hebraico entre as palavras “leão” (‘RYH) e “aquele que viu” (HR’H), tanto na grafia como na pronúncia. A troca entre as duas consoantes transformou o “vidente” em um “leão” surgido totalmente do nada. Como, porém, para os copistas judeus, o texto bíblico é sacrossanto, eles não corrigiram o evidente erro!


O mais longo dos rolos revelou-se uma cópia do livro do profeta Isaías. O formato das letras permitiu deduzir que o rolo deveria ser do primeiro ou segundo século antes de Cristo. Esse rolo representava a mais antiga cópia completa de um livro da Bíblia em hebraico.

Fato é que, em comparação com o texto massorético tradicional, o grande rolo de Isaías de Qumran apresenta mais de 6.000 variantes ortográficas. O sentido do texto raramente muda com isso, mas isso derruba qualquer teoria de algum código bíblico secreto, já que para isso todos os textos precisariam ser idênticos. Uma comparação minuciosa e completa entre o rolo de Qumran e manuscritos medievais revelou a excelência com que o conteúdo do livro do profeta Isaías foi transmitido. As pequenas diferenças textuais (como o leão/vidente) são interessantes para os especialistas que reconstroem o texto “original” da Bíblia. No entanto, em nenhum ponto modificam qualquer declaração básica da mensagem bíblica.

Além desse grande rolo de Isaías, encontrou-se na Caverna 1 mais um manuscrito de Isaías, este em bem pior estado de conservação. Seu texto quase não difere do texto massorético.

Todavia, este não foi o único achado. Até 1956, os beduínos (quase sempre eles) descobriram mais dez cavernas com restos de aproximadamente 1.050 rolos de manuscritos. Infelizmente, porém, em contraste com aqueles da primeira caverna, estes haviam-se desintegrado em dezenas de milhares de fragmentos. Os especialistas tiveram de selecionar e reunir com muito esforço mais de 80.000 fragmentos de rolos. Com esse propósito, a Administração Jordaniana de Antiguidades criou na década de 1950 uma equipe internacional para o estudo dos rolos. A partir dos 80.000 fragmentos foi possível montar 15.000 partes de manuscritos consistentes. Com isso, os especialistas conseguiram identificar cópias de quase todos os livros do Antigo Testamento. Um dos manuscritos continha algo sensacional. Dentre os fragmentos da caverna 4 decifraram-se restos de uma cópia de Samuel do terceiro século a.C. Constatou-se ser a versão que serviu de modelo para a tradução grega do Antigo Testamento, a chamada Septuaginta (LXX).

O texto de Samuel da Septuaginta desde sempre apresentava ligeiras diferenças em relação ao da Bíblia hebraica. Supunha-se que os tradutores, de aproximadamente 200 a.C., tivessem tomado algumas liberdades, mas na verdade é o contrário! Os textos de Qumran comprovam que os tradutores trabalharam de forma muito cuidadosa e conscienciosa. As variações textuais não se devem aos tradutores, mas ao modelo hebraico um pouco diferente. Portanto, nos tempos de Jesus havia diferentes “edições bíblicas”, assim como existem hoje. Antes dos achados de Qumran cria-se que só existia uma única versão da Bíblia hebraica. No entanto, o judaísmo usava várias edições da Bíblia em paralelo.

O mesmo fenômeno aparece nas duas versões de Jeremias. Encontraram-se nove cópias do livro de Jeremias. O manuscrito mais antigo (4QJera) é de aproximadamente 200 a.C., e o mais recente (4QJerc) é do primeiro século depois de Cristo. Esses dois fragmentos aproximam-se muito do texto massorético. A Septuaginta, porém, contém uma versão do livro de Jeremias 13% mais curta. Os fragmentos 4QJerb e 4QJerd reproduzem o texto hebraico na versão mais curta, que também é a de que dispunham os tradutores da Bíblia grega. Portanto, existiram duas versões antigas do livro de Jeremias: uma mais antiga e curta (4QJerb, 4QJerd, Septuaginta) e uma mais longa e tardia (4QJera, 4QJerc, texto massorético).

No total, os textos de Qumran são restos de 1.050 rolos. A maioria dos textos está escrito em hebraico, alguns são aramaicos e alguns poucos estão em grego. Dentre os textos de Qumran, cerca de 150 rolos contêm cópias dos apócrifos (entre eles Tobit, Sirácida e o Salmo 151) e textos pseudepigráficos (entre eles o livro de Enoque e os Salmos 152 a 155). Há também 600 rolos de literatura judaica extrabíblica, até então inédita (p. ex., a Regra da Comunidade, o Comentário de Habacuque, os Rolos do Templo, da Guerra e de Cobre). Cerca de 300 rolos são cópias de livros veterotestamentários (as mais antigas do Séc. III a.C.). As cavernas de Qumran continham todos os livros do Antigo Testamento (exceto Ester). Os livros com maior número de cópias são Deuteronômio (39) e Salmos (39); depois Gênesis (30), Êxodo (30), Isaías (22), Levítico (22), Números (15), Daniel (11) e os 12 profetas menores (13). De todos os outros livros existem menos de 10 cópias. De 1 e 2Crônicas e de Esdras só existe um fragmento de cada.

Todavia, além de rolos de textos bíblicos e das cópias dos textos conhecidos como apócrifos, também se encontraram escritos judaicos até então totalmente desconhecidos. A maioria dos pesquisadores vê nesses escritos o legado dos essênios, um dos grandes partidos religiosos judeus da época “intertestamentária”. Em sua observância da Torá (o Pentateuco) e, em especial, do sábado, os essênios eram ainda mais rigorosos que os fariseus.

Nas últimas décadas apareceu uma verdadeira “avalanche” de livros sobre o tema “Jesus e Qumran”, incluindo mesmo a tese de que o Vaticano esteja impedindo a publicação dos rolos de Qumran, tendo-os declarado como “matéria sigilosa” porque os textos conteriam material sobre Jesus Cristo altamente explosivo para a Igreja Católica: ele não seria o Filho de Deus e o Messias, mas um rabino bem comum, casado com Maria e inclusive tendo descendentes. Todas essas delirantes fantasias supostamente constariam dos textos de Qumran. Essas teses foram disseminadas, lidas e – infelizmente! – também cridas milhões de vezes por meio do escandaloso best-seller anticristão O Código da Vinci (ou Sacrilégio), de Dan Brown.

Quando publicamos nosso livro de resposta: “O verdadeiro sacrilégio”, que desmascarou aquelas teses como puras mentiras, a editora que o publicou foi processada em 250.000 euros. No entanto, a editora de Dan Brown não ganhou o processo judicial contra nós. O livro foi publicado e tornou-se a obra especializada alemã mais bem-sucedida contra o delírio do “Código Da Vinci”. Infelizmente, porém, as escandalosas teses de Dan Brown e o “material sigiloso sobre Jesus” foram vendidos e cridos aos milhões. Ainda assim, suas afirmativas inverídicas não passam de uma mentira aceita milhões de vezes, que enriqueceram bastante os autores. Contudo, nada têm a ver com pesquisa científica séria. Essa literatura pertence à categoria da ficção de baixo nível. Fato é que em nenhum momento o Vaticano teve algo a ver com a publicação dos textos de Qumran, o que desde 1967 é da alçada exclusiva da Autoridade de Antiguidades de Israel. Atualmente todos os textos já foram publicados cientificamente.

Além disso, em 2007 o Museu de Israel publicou na internet todos os rolos de manuscritos em seu poder por meio de uma parceria com o Google, o que inclui o grande rolo de Isaías e o Comentário de Habacuque da Caverna 1. A digitalização custou cinco milhões de dólares ao Google. Além disso, desde 2012 também se podem baixar da internet fotos digitais em alta resolução de vários milhares de fragmentos. Esses fragmentos não pertencem ao Museu de Israel e por isso são apresentados pela Autoridade de Antiguidades de Israel em uma plataforma de internet própria. Esse projeto incrivelmente custoso é cofinanciado pela fundação judaico-americana Leon Levi, com verba de 10 milhões de dólares.


Os achados do Mar Morto são provavelmente o maior acontecimento arqueológico do nosso século. Representam a mais antiga literatura judaica acessível a nós e lançam luz sobre a época em que Jesus viveu. É preciso reconhecer o quanto as raízes da fé cristã são judaicas, mas também a precisão com que os textos bíblicos foram sendo transmitidos ao longo de todos esses séculos.

Inicialmente foram mais de 4.000 escaneamentos de fotos tiradas na década de 1950 para os integrantes da equipe internacional dos rolos de manuscritos. A isso se acrescentaram mais de 1.000 fotos feitas para o projeto de digitalização em um laboratório fotográfico instalado especialmente para esse fim. Em 2014 carregaram-se mais 10.000 e, no dezembro passado, outras 17.000 (!) fotos digitais. Agora qualquer um pode estudar os textos de Qumran nessa biblioteca digital de livre acesso.

A convite de Pnina Shor, conservadora-chefe dos rolos de Qumran, tive recentemente a oportunidade de visitar os laboratórios rigorosamente protegidos da Autoridade de Antiguidades de Israel. Somente cinco conservadoras, originárias da Rússia, têm permissão de trabalhar com aqueles frágeis documentos. Na fase inicial da pesquisa, os fragmentos eram colados uns aos outros com fita adesiva e prensados entre placas de vidro. Segundo os conhecimentos atuais, isso não é conveniente para os fragmentos. Assim, então, as pequenas aparas são limpadas minuciosamente e recebem um tratamento que as conservará pelos próximos séculos. As profissionais que executam esse trabalho há quase 20 anos merecem nosso maior respeito. Com isso, também os preciosos fragmentos dos manuscritos bíblicos permanecerão conservados no futuro.

Os rolos da Caverna 1 (dois rolos de Isaías, o Rolo da Guerra, o Comentário de Habacuque, o Rolo dos Cânticos de Louvor, a Regra da Comunidade e o Apócrifo de Gênesis, bem como o Rolo do Templo, da Caverna 11) foram adquiridos pela Universidade Hebraica, ou seja, o Estado de Israel, e publicados pouco depois. Hoje estão expostos em um edifício próprio do museu, o Santuário do Livro, em Jerusalém. Esse edifício separado do Museu de Israel localiza-se à vista do Knesset, o parlamento israelense, e é uma das atrações para o público. O formato do prédio imita a tampa de um jarro de barro, totalmente branco. A cor pretende simbolizar os donos dos manuscritos, que se autointitulavam “filhos da luz”. Defronte a ele está uma gigantesca pedra preta, que simboliza os “filhos das trevas”. O complexo todo é uma aplicação arquitetônica do Rolo da Guerra, que fala da luta dos filhos da luz contra os filhos das trevas no fim dos tempos.

É complicada a situação jurídica dos achados feitos após a guerra da independência israelense em 1948. Qumran, bem como a parte norte do Mar Morto, encontrava-se então no segmento da Terra Santa sob ocupação jordaniana. Com isso, os achados foram atribuídos à Administração Jordaniana de Antiguidades, que criou a já citada equipe internacional dos manuscritos e passou a processar os achados no Museu Rockefeller (próximo ao conhecido Jardim do Túmulo). Só em 1967 os fragmentos caíram em mãos israelenses como resultado da Guerra dos Seis Dias.

Os achados do Mar Morto são provavelmente o maior acontecimento arqueológico do nosso século. Representam a mais antiga literatura judaica acessível a nós e lançam luz sobre a época em que Jesus viveu. É preciso reconhecer o quanto as raízes da fé cristã são judaicas, mas também a precisão com que os textos bíblicos foram sendo transmitidos ao longo de todos esses séculos. Informações secretas sobre Jesus, Paulo ou os primeiros cristãos não constam em nenhum dos textos de Qumran. Ainda assim, a importância teológica dos textos de Qumran é enorme para a compreensão do Novo Testamento.

Um exemplo: em geral, se supunha que no judaísmo mais antigo, o Messias não teria sido chamado de “Filho de Deus”, enquanto no Novo Testamento esse termo é frequente. Isto seria então influência pagã grega. Aqui a descoberta do texto de Qumran 4Q246 (o fragmento 246 da 4ª caverna de Qumran) impõe uma reconsideração, porque o trecho mais importante desse comentário aramaico do livro de Daniel, de 150 antes (!) de Cristo diz: “Ele será chamado Filho de Deus, e o denominarão de Filho do Altíssimo.” Esse enunciado lembra de perto as palavras do anjo a Maria: “Ele será grande e será chamado Filho do Altíssimo ... e será chamado Santo, Filho de Deus” (Lc 1.32-35). Isso justifica o parecer do Prof. Rainer Riesner: “O fragmento de Qumran 4Q246 mostra que a narrativa lucana do nascimento não é grega pagã, mas judaico-palestina.” Portanto, no mais tardar no Século II a.C. já existia a noção teológica de que o Messias deveria ser Filho de Deus, tal como o Novo Testamento o testifica a respeito do nosso Senhor Jesus Cristo.

Outro exemplo: os textos de Qumran permitem perceber em que medida a mensagem de Jesus era radical e explosiva já naquele tempo. Quando, no Sermão do Monte, o Senhor Jesus desafia a amar o inimigo (Mt 5.44), isto se opunha às ideias da comunidade de Qumran, que até prestava anualmente um juramento de odiar os “filhos das trevas” (Regra da Comunidade). E quando o Senhor Jesus esclarece que o “sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado” (Mc 2.27), isto revela o grande abismo entre ele e os essênios, que no sábado não podiam sequer atender às suas necessidades fisiológicas. Uma comparação dos rolos de Qumran com o Novo Testamento mostra o quanto a mensagem de Jesus a respeito do amor salvador de Deus era nova e libertadora para o seu tempo, assim como é ainda hoje.

Desde o início das pesquisas corre uma apaixonada discussão sobre quem teria habitado Qumran. A maioria dos pesquisadores vê Qumran como um estabelecimento dos essênios, um dos grupos religiosos judaicos descrito nas antigas fontes de Filo, Josefo e Plínio. No entanto, em particular a rede de TV alemã ZDF popularizou em seu programa Terra X a tese de que Qumran teria sido apenas um assentamento agrícola e que os rolos de manuscritos seriam provenientes das bibliotecas de Jerusalém. Assim, os textos e o assentamento nada teriam a ver com os essênios.


O assentamento de Qumran - Três alças de jarros com impressão de selos reais da época de Ezequias mostram que Qumran era habitada entre os Séculos VIII a VI a.C. Era uma das cidades fortificadas da Judeia, identificada como a “Cidade do Sal” em Josué 15.61s. Depois, Qumran passou a ser novamente habitada só a partir de aproximadamente 100 até 4 a.C. Após breve interrupção, ocorreu um segundo assentamento entre 1 e 68 d.C., quando os romanos destruíram Qumran. De 68 até 73 ou talvez até 90 d.C., havia romanos acantonados ali. Após um período de abandono, Qumran foi usada mais uma vez durante a rebelião de Bar Kochba (132-135 d.C.) e, mais tarde, talvez mais uma vez durante a época bizantina.

Os achados, porém, revelam um quadro bem diferente! Os achados cerâmicos de Qumran e a cerâmica das cavernas são idênticos, e as cavernas 7 e 9 são acessíveis apenas mediante travessia do assentamento de Qumran. Portanto, os habitantes de Qumran devem ter sido os donos dos manuscritos escondidos ali. Muitos dos textos de Qumran são bastante críticos em relação ao culto no Templo. Chama atenção a ausência dos livros dos Macabeus, favoráveis aos asmoneus. A escolha do local no deserto remonta a Isaías 40.3, citado duas vezes na Regra da Comunidade: “No deserto preparai o caminho do Senhor!” Em 1996, descobriu-se um fragmento cerâmico com uma inscrição identificando-o como jachad (“comunidade”), uma expressão conhecida dos textos de Qumran. No texto de Qumran 4Q477, um membro da jachad é recriminado por um supervisor. A Regra da Comunidade (1QS) apresenta regras e um catálogo de punições para a convivência de uma comunidade. A alta concentração de banhos rituais, o primeiro aspecto que salta aos olhos de todo visitante, bem como muitos depósitos de ossos de animais enterrados, considerados impuros segundo o Rolo do Templo, mostram que os habitantes cultivavam um marcante interesse em pureza cerimonial. Tudo isso combina muito bem com o que sabemos sobre os essênios.

Em 68 d.C., Qumran foi destruído pelos romanos. Pouco antes, os rolos foram escondidos nas cavernas pelos habitantes. Isto explica que as escavações em Qumran não revelaram manuscritos. Hoje existe uma multiplicidade de modelos interpretativos alternativos sobre a questão de quem teriam sido os habitantes de Qumran. Assim, o assentamento teria sido uma manufatura de rolos de manuscritos com curtume de couro, uma fortaleza, um caravançará, um posto aduaneiro, um armazém, uma propriedade agrícola, uma plantação industrial de tamareiras ou um centro de produção de cerâmica ou de bálsamo e perfume (conforme o Terra-X). Os manuscritos teriam sido levados de Jerusalém para as cavernas quando irrompeu a Guerra Judaica. Essas interpretações foram rejeitadas pelos especialistas porque, por exemplo, os muros do assentamento, de 60 cm de espessura, são estreitos demais para uma instalação militar. Também não existe nenhum sinal de instalações de irrigação, que se deveriam presumir para um aproveitamento agrícola “industrial”. Também não foi possível encontrar nenhum resíduo de tanino, que deveria estar presente num curtume.

Em 2009, as teorias alternativas foram definitivamente refutadas pelo exame da tinta de um fragmento do Rolo dos Cânticos de Louvor (1QH). Na Antiguidade, a tinta tinha de ser preparada imediatamente antes da escrita a partir da mistura de uma bolota de pigmento com água. A análise química dos elementos presentes revelou uma concentração de bromo tão elevada como só se encontra na água das imediações do Mar Morto. Portanto, o Rolo dos Cânticos de Louvor precisa ter sido escrito em Qumran. Além disso, os jarros de cerâmica foram vedados com linho impregnado de betume do Mar Morto. Todavia, nem todos os textos foram escritos em Qumran. Os manuscritos datados de épocas anteriores a 100 a.C. (como p. ex., o grande rolo de Isaías), devem ter sido levados para o assentamento de Qumran como “cópias-mestras” por ocasião da sua fundação. Aliás, parece que também se encontraram fragmentos em Qumran, segundo me confirmou o Prof. James Charlesworth, da Universidade de Princeton. Entrevistas que ele conduziu na década de 1950 com os beduínos participantes das escavações revelaram que se pagava a eles uma diária de 1 dólar. Assim, os beduínos não teriam entregado à administração da escavação os fragmentos de rolos que encontravam, mas eles próprios os teriam vendido por 20 dólares ou mais.

Assim, a melhor interpretação para o assentamento é considerar Qumran como um centro dos essênios, e os manuscritos como o seu legado. Esta é também a opinião do Prof. Rainer Riesner e principalmente do Prof. Claus-Hunno Hunzinger. As novas teorias representam nada mais que opiniões minoritárias no debate científico, ainda que programas como o Terra-X transmitam um quadro diferente.

Quem visitar hoje as ruínas de Qumran junto ao Mar Morto fica entusiasmado com as escavações porque aquele sítio arqueológico faz o visitante regredir diretamente aos tempos do Senhor Jesus. As “pedras começam a clamar” e se consegue adquirir uma percepção da antiga vida judaica na ruína, por exemplo ao contemplar os tanques dos banhos rituais nos quais os essênios tinham de purificar-se várias vezes por dia. Os valiosos rolos do Santuário do Livro são admirados todos os anos por dezenas de milhares de visitantes do museu. Em minha própria amostra transportável sobre Qumran e a Bíblia, que pode ser alugada, comunidades interessadas podem visualizar a importância dos achados com base em réplicas 1:1 (www.bibelausstellung.de). Esse sensacional achado arqueológico lembra de forma marcante a palavra do profeta Isaías (40.8): “A relva murcha e as flores caem, mas a palavra de nosso Deus permanece para sempre”. — Alexander Schick

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