Firme em Meio às Turbulências

Ernesto Kraft

É preciso lidar bem com crises e frustrações para não ficar amargurado. Infelizmente isso acontece com muitas pessoas, inclusive cristãos: os problemas são mal resolvidos e eles saem dessas experiências amargurados e ressentidos.

Turbulências são comuns na vida. É o que nos aflige quando ocorrem infortúnios que nos perturbam. Elas podem causar desânimo e até amargura, levando-nos a culpar Deus pela nossa desgraça. Um exemplo disso na Bíblia é Noemi (Rt 1.19-21). O nome dela significa “amável”, e durante uma parte de sua vida ela de fato foi amável. Mas ela ficou amargurada depois de certas experiências, a ponto de pedir que as pessoas começassem a chamá-la de Mara (isto é, “amarga”).

Há muitos crentes que aparentemente estão muito bem. É o que expressam quando os cumprimentamos e conversamos com eles. No entanto, por dentro há muitos problemas. Um exemplo foi Pedro, o pescador que se tornou discípulo de Jesus. Imagino-o à beira do mar, lavando suas redes (Lc 5.2). Talvez as pessoas passassem e cumprimentassem: “E aí, Pedro, como estão as coisas?”. “Está tudo bem, tudo ótimo!” Por fora, aparentemente estava tudo normal, mas, por dentro, estava frustrado e cansado, pois tinha trabalhado a noite inteira sem apanhar um único peixinho que fosse. Assim acontece também na nossa vida.

O capítulo 7 do livro do profeta Miqueias, apesar de escrito 800 anos de Cristo, começa trazendo nos primeiros versículos uma descrição que parece falar dos dias atuais, de problemas que nós também temos.

Miqueias lamentava as circunstâncias da sua época, e nós estamos na mesma posição. Ele menciona frustrações, injustiças, brigas, etc. Em determinado momento até parece que está falando do nosso governo pagando propinas para conseguir o que deseja... A descrição do verso 6 aparece até em um alerta de Jesus (Mt 10.21) aos seus discípulos: “O filho despreza o pai, a filha se rebela contra a mãe, a nora, contra a sogra; os inimigos do homem são os seus próprios familiares”. Era com isso que seus seguidores se defrontariam ao obedecer a Deus.

Crises, frustrações, brigas – não é esta uma descrição muito precisa dos nossos dias?

Frustrações

Muitas pessoas aparentam estar bem, parecendo não ter frustrações ou outros problemas. Abraão, por exemplo, um cara “nota dez”, estava muito bem. Por quê? Ele tinha conquistado uma vitória fantástica sobre os reis que tinham sequestrado seu sobrinho Ló e sua família, com mulheres e escravos. Abraão conseguiu pegar tudo de volta. A vida estava ótima, ao menos por fora. Mas Deus sabia o quanto ele estava frustrado por dentro. Duas vezes Abraão expressou sua descrença em relação às promessas que Deus lhe dera. Em Gênesis 15.2-3, ele pergunta: “‘Ó soberano Senhor, que me darás, se continuo sem filhos e o herdeiro do que possuo é Eliézer de Damasco?’ E acrescentou: ‘Tu não me deste filho algum! Um servo da minha casa será o meu herdeiro!’”.

Saíra vitorioso da luta contra aqueles reis, mas por dentro estava tão frustrado e em crise como muitas outras pessoas – inclusive nós. Ele foi bem direto em sua queixa a Deus: “Senhor, não acredito mais que vais cumprir a tua promessa”. Amargurado, apontou para seu servo. É comum que pessoas em crise se comparem com outros e achem que com o outro está tudo bem, sentindo-se assim esquecidas e abandonadas. Abraão tinha desistido. Tinha certeza de que Deus se esquecera de dar a ele um herdeiro.

Pedro aceitou jogar novamente as redes ao mar baseado apenas na palavra de Jesus. O resultado acaba sendo surpreendente.

Você já passou por isso? Esperou muito, orou mais ainda, tomou providências, tentou de tudo, e nada? Então você desiste. Joga tudo para cima e descarta completamente a possibilidade de aquilo ainda acontecer na sua vida.

Em meio a essa frustração, Deus fala com Abraão: “Saia da sua tenda, Abraão. Saia e olhe para cima!”. Em Miqueias 7.7, depois de relacionar todos os problemas e injustiças, o profeta diz: “Mas, quanto a mim, ficarei atento ao Senhor”. É aqui que começa a solução.

Por quê? Fechado nas quatro paredes da sua tenda, os pensamentos de Abraão estavam girando em falso, sempre em torno do mesmo tema. Estava atolado na sua crise e não via mais nada à sua frente. Mas Deus lhe fornece uma mudança de perspectiva: “Olhe para o céu e conte as estrelas”. E isso por acaso é possível? Mas o que a Bíblia diz sobre o nosso Deus? “Quem é comparável a ti, ó Deus?” (Mq 7.18a) É a esse Deus que servimos: um Deus que conta as estrelas e as chama pelo nome (Sl 147.4)!

Ao olhar para cima, Abraão poderia constatar que as estrelas estavam todas lá – nenhuma faltava! Ao olhar para cima, Abraão foi capaz de começar a acreditar novamente e com isso saiu do poço de frustração em que estava. Ele voltou a se apoiar na promessa de Deus. Que seja assim também na sua vida. Olhe para cima! Olhar para as circunstâncias realmente pode gerar frustração. Olhar para o próximo decepciona. Olhar para si mesmo traz tristeza, afinal nos conhecemos muito bem. Mas olhar para Deus traz consolo, encorajamento para continuar e não desistir.

Crises, frustrações, brigas – não é esta uma descrição muito precisa dos nossos dias?

Pedro enfrentou uma situação parecida. Jesus quis saber se eles tinham pescado alguma coisa, mas Pedro e seus colegas não tinham nada para apresentar. Você também está se sentindo assim? Como se nada na sua vida funcionasse? Você não tem nada para mostrar ou oferecer?

Mas Jesus mandou que tentassem de novo, e Pedro aceitou o desafio baseado apenas na palavra de Jesus. O resultado acaba sendo surpreendente.

Injustiças

Mas há também as injustiças. Em Miqueias 7.3 lemos: “Com as mãos prontas para fazer o mal o governante exige presentes, o juiz aceita suborno [ou propina], os poderosos impõem o que querem; todos tramam em conjunto”. Você já sofreu injustiças?

Veja o exemplo de José. Ele passou por coisas terríveis: foi odiado e rejeitado pelos irmãos, que acabaram por vendê-lo como escravo. Arrastado para o Egito, ele foi preso lá por causa das mentiras de uma mulher. Você já passou por isso? Ser injustiçado por causa de uma pessoa mentirosa? O chefe dos copeiros, a quem ele ajudara na prisão, logo se esqueceu dele e não o apoiou, como prometera. José tinha motivos para ficar amargurado e culpar a Deus, como Noemi fez. Mas a Bíblia conta que a atitude de José foi outra. Ele conseguiu sair vitorioso de sua luta. Gênesis 50.20 conta o que José pensava sobre todas estas dificuldades enfrentadas: “Vocês planejaram o mal contra mim, mas Deus o tornou em bem, para que hoje fosse preservada a vida de muitos”. Ele não se vingou dos irmãos quando teve oportunidade para isso, mas, por se manter ao lado de Deus, venceu as dificuldades.

Outro exemplo é o apóstolo Paulo. Durante toda a sua vida ele serviu a Deus com toda dedicação. Mas, quando precisou de apoio, todas as pessoas que tinham sido ajudadas por ele o abandonaram (2Tm 4.16). Imagine um pastor que serve uma igreja a vida inteira e, na necessidade, acaba sendo abandonado e esquecido pelos membros a quem tanto se dedicou. Será que Paulo ficou amargurado e desistiu de servir a Deus, pensando que não valia a pena? Que nada! Seu testemunho foi: “Mas o Senhor permaneceu ao meu lado e me deu forças...” (2Tm 4.17a).

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Para superar as injustiças, realmente precisamos de Deus na nossa vida. José saiu vitorioso porque aceitou sua situação como algo que estava no controle de Deus. Ele andava sempre com Deus. É muito fácil falar, mas é muito difícil passar por isso. Já pensou em como você cuida dos seus filhos e investe neles? E se depois eles se mostrarem mal-agradecidos? Na verdade, essa é a nossa situação diante de Deus. Tratamos Deus dessa forma, em vez de lhe entregarmos nossa vida e sermos gratos pelo seu cuidado.

Onde está o seu Deus?

Muitas vezes a dificuldade não para por aí. Podemos ainda ser obrigados a ouvir a zombaria de outros. Ou então as próprias circunstâncias parecem caçoar e dizer: “Onde está o seu Deus?” Fico imaginando a situação de Maria e Marta: o irmão estava doente e elas mandaram chamar Jesus para ajudar. Elas devem ter ficado frustradas com a atitude de Jesus, que não apareceu para curar Lázaro, o qual acabou morrendo! Talvez você esteja aqui com o mesmo sentimento: “Orei, esperei em Jesus, mas nada aconteceu. As coisas estão até piorando!”. Quando Jesus finalmente apareceu, elas desabafaram: “Senhor, se estivesses aqui meu irmão não teria morrido...”. “O Senhor chegou atrasado! Agora ele até já está cheirando mal! E agora?” (cf. Jo 11.32,39). Mas Jesus mostrou que havia um propósito em tudo isso, ao dizer: “Estou contente por não ter chegado aqui a tempo, agora vocês vão conseguir crer” (cf. Jo 11.15). Então mostrou que é maior até do que a morte. Jesus resolveu este problema, e também pode resolver a sua dificuldade, ainda que também já esteja cheirando mal. Ele faz isso para nos ajudar a crer cada vez mais, para aumentar a nossa fé.

Miqueias expressa isso ao dizer que Deus vai mostrar as suas maravilhas a ponto de envergonhar as nações, fazendo com que elas voltem para Deus, com temor (Mq 7.16-17). Se o seu problema é grande e insolúvel, aguente firme. A forma certa de lidar com ele é confiar em Deus, entregá-lo a ele, pois ele vai cumprir suas promessas de cuidar de nós. — Ernesto Kraft

Ernesto Kraft é alemão; casado com Elvira, com quem tem três filhos. Ele e sua esposa são missionários desde 1975 e desenvolvem um ministério específico de evangelização através de folhetos e cursos bíblicos por correspondência. Realizou diversos seminários sobre Escatologia em igrejas de São Paulo, e representa a Chamada da Meia-Noite distribuindo a literatura em São Paulo.

Ernesto Kraft será um dos preletores do 19º Congresso Internacional Sobre a Palavra Profética — 18 a 21 de Outubro de 2017 | Águas de Lindóia | SP
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