Um Cântico de Vitória

Norbert Lieth

Para aproveitar melhor este estudo, leia antes 2 Crônicas 20.1-30

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Introdução

Na história da vida de Josafá, a vitória e a derrota são muito próximas. Ele é um exemplo para o constante sobe e desce de Israel, bem como para o vai e vem em nossa vida.

O currículo de Josafá

A carreira de Josafá inicia quando ele assume o reinado judaico como sucessor de seu pai, Asa. Este também tinha dois lados. Um deles era caracterizado pela sua profunda confiança em Deus, o que lhe proporcionou vitórias (cap. 15). O outro lado mostra sua instabilidade e sua transigência. Assim, ele firmou uma aliança com Ben-Hadade, da Síria, sendo que, na sequência, ele sofreu derrotas (cap. 16). Os filhos normalmente assumem alguma coisa de seus pais e foi isso que também aconteceu com Josafá.

No capítulo 17 vemos como Josafá procura a Deus e como o Senhor confirma o seu reinado (v. 4-5). Com ânimo ele eliminou grande parte dos ídolos da área de Judá (v. 6). O grande vácuo criado com isso foi preenchido com um programa de educação e ensino bíblico (v. 7-9). Deus apoia Josafá, dando-lhe proteção, vitória e grandes conquistas em todos os aspectos (v. 10ss).

O capítulo 18 relata como Josafá, no auge do seu poder, torna-se instável e se alia com Acabe, o rei ímpio de Israel. Ele até uniu sua família à de Acabe e sua mulher, a idólatra e maldosa Jezabel, através do casamento de seu filho Jeorão com Atalia, a filha de Acabe (v. 1; 21.6). Essa filha não perdia nenhum pouco em maldade para sua mãe. Ela decidiu, mais tarde, que todos os descendentes reais de Judá deveriam ser mortos. Deus, no entanto, providenciou que um deles (Joás) fosse preservado (2Cr 22.10-12; 21.6-7). Faltou muito pouco para a linhagem genealógica de Jesus ser totalmente eliminada.

Apesar de ser advertido pelo profeta Micaías, Josafá acompanhou Acabe na guerra. Acabe foi ferido mortalmente. Josafá escapou da morte por pouco, porque o Senhor o protegeu (2Cr 18.31).

No capítulo 19 percebemos o retorno à razão do rei Josafá. Ele aceita os conselhos e exortações e novamente se agarra ao Senhor (v. 1-3). Ele investe tempo para viajar através do país para trazer todo o povo de volta ao Senhor, para instituir reformas e para promover a justiça (v. 4-7). Pode-se dizer que, dessa maneira, ele promoveu o Evangelho.

No capítulo 20 a confiança de Josafá é colocada à prova. Os moabitas e os amonitas, juntamente com mais outros, se uniram para lutar contra ele. Quem combate pelo Senhor será combatido. O capítulo 19 encerra com a conclamação de Josafá: “Cumpram seus deveres com coragem, e esteja o Senhor com aqueles que agirem corretamente”. E o capítulo 20 inicia assim: “Depois disso, os moabitas e os amonitas, com alguns dos meunitas, entraram em guerra contra Josafá”. Isso representou uma imensa provação para Josafá. Ele teve medo e, assim, fez o que era correto: “Josafá decidiu consultar o Senhor” (v. 3). Além disso, ele convocou todo o povo de Judá para clamar a Deus, o que ele realmente fez: “... e proclamou um jejum em todo o reino de Judá. Reuniu-se, pois, o povo vindo de todas as cidades de Judá para buscar a ajuda do Senhor” (v. 3-4). Um pouco adiante, lemos: “Todos os homens de Judá, com suas mulheres e seus filhos, até os de colo, estavam ali de pé, diante do Senhor” (v. 13).

O rei Josafá faz uma oração fervorosa; cada palavra estava inspirada de confiança sincera e infantil:

  • Ele traz perante Deus a lembrança da amizade que Ele manteve com Abraão. Josafá se refere à promessa que o Onipotente fez ao Seu amigo, em relação à terra. “Não és tu o nosso Deus, que expulsaste os habitantes desta terra perante Israel, o teu povo, e a deste para sempre aos descendentes do teu amigo Abraão?” (v. 7).
  • Ele se refere à oração que Salomão fez por ocasião da inauguração do Templo: “Eles a têm habitado e nela construíram um santuário em honra ao teu nome, dizendo: ‘Se alguma desgraça nos atingir, seja o castigo da espada, seja a peste, seja a fome, nós nos colocaremos em tua presença diante deste templo, pois ele leva o teu nome, e clamaremos a ti em nossa angústia, e tu nos ouvirás e nos salvarás’” (v. 8-9).
  • Ele declara diante de Deus que os inimigos de Israel questionam seu direito à terra: “Vê agora como estão nos retribuindo, ao virem expulsar-nos da terra que nos deste por herança” (v. 11).
  • Finalmente, Josafá reconhece tanto sua incapacidade como a sua confiança no Senhor: “‘Ó nosso Deus, não irás tu julgá-los? Pois não temos força para enfrentar esse exército imenso que vem nos atacar. Não sabemos o que fazer, mas os nossos olhos se voltam para ti’. Todos os homens de Judá, com suas mulheres e seus filhos, até os de colo, estavam ali em pé, diante do Senhor” (v. 12-13).

O Senhor respondeu imediatamente à oração de Josafá e do povo por sua unanimidade! Ele enviou Sua Palavra: “Então o Espírito do Senhor veio sobre Jaaziel” (v. 14). Os que oravam ficaram animados com a promessa de que o Senhor lutaria por eles: “Assim diz o Senhor a vocês; ‘Não tenham medo nem fiquem desanimados por causa desse exército enorme. Pois a batalha não é de vocês, mas de Deus. Vocês não precisarão lutar nessa batalha. Tomem suas posições, permaneçam firmes e vejam o livramento que o Senhor dará, ó Judá, ó Jerusalém. Não tenham medo nem desanimem. Saiam para enfrentá-los amanhã, e o Senhor estará com vocês’” (v. 15,17).

Seguiu-se uma ampla reunião de adoração: “Josafá prostrou-se com o rosto em terra, e todo o povo de Judá e de Jerusalém prostrou-se em adoração perante o Senhor. Então os levitas descendentes dos coatitas e dos coreítas levantaram-se e louvaram o Senhor, o Deus de Israel, em alta voz” (v. 18-19). Do mesmo modo como haviam clamado ao Senhor anteriormente, agora O adoraram conjuntamente.

Em seguida, eles são incentivados mais uma vez a colocar toda a sua confiança no Senhor e na Sua Palavra: “Tenham fé no Senhor, o seu Deus, e vocês serão sustentados; tenham fé nos profetas do Senhor, e terão a vitória” (v. 20). Ocorreu, então, a mais extraordinária mobilização ou preparação jamais vista. Ao invés de se armarem e planejarem uma estratégia de ataque, eles se prepararam para louvar! “Depois de consultar o povo, Josafá nomeou alguns homens para cantarem ao Senhor e o louvarem pelo esplendor de sua santidade, indo à frente do exército, cantando: ‘Deem graças ao Senhor, pois o seu amor dura para sempre’. Quando começaram a cantar e a entoar louvores, o Senhor preparou emboscadas contra os homens de Amom, de Moabe e dos montes de Seir, que estavam invadindo Judá, e eles foram derrotados” (v. 21-22). A única arma que tinham eram cânticos de júbilo.

Imaginemos a situação: não foram os guerreiros mais treinados, não as unidades de elite, não os melhores blindados e armas de ataque que estiveram à frente. Mas um coro com seu regente! O cântico que cantaram não foi um eletrizante cântico de guerra, mas um cântico de louvor e gratidão para a glória do Senhor! Ao invés de gritos de guerra, ouviu-se um concerto ao ar livre! O que será que passou pela cabeça dos inimigos, e dos que fizeram o relatório da guerra?

Sem pegar em uma só arma conseguiram uma grande vitória, quando os inimigos repentinamente destruíram-se uns aos outros (v. 23-26). Foram necessários três dias para que Israel tomasse os despojos, mas no quarto dia o povo se reuniu novamente para louvar ao Senhor: “No quarto dia eles se reuniram no vale de Beraca, onde louvaram o Senhor. Por isso até hoje esse lugar é chamado vale de Beraca” (v. 26). Depois disso, eles voltaram para Jerusalém e, ao entrarem na cidade, voltaram a cantar cânticos de louvor: “... pois o Senhor os enchera de alegria... Entraram em Jerusalém e foram ao templo do Senhor, ao som de liras, harpas e cornetas. O temor de Deus veio sobre todas as nações, quando souberam como o Senhor havia lutado contra os inimigos de Israel. E o reino de Josafá manteve-se em paz, pois o seu Deus lhe concedeu paz em todas as suas fronteiras” (v. 27-30). Provavelmente nos reinos ao redor havia um sinal de alerta: “Cuidado! Não ataquem os israelitas! Esse povo tem uma arma extraordinária, composta de cânticos de louvor”.

A derrota de Josafá

O que o inimigo externo não conseguiu fazer, o próprio coração fez. Isso não é diferente para nós. Muitas vezes nós mesmos somos nosso maior inimigo. No caso de Josafá, isso começou através de uma aliança: “Posteriormente, Josafá, rei de Judá, fez um tratado com Acazias, rei de Israel, que tinha vida ímpia. Era um tratado para a construção de navios mercantes. Depois de serem construídos os navios em Eziom-Geber, Eliézer, filho de Dodava de Maressa, profetizou contra Josafá, dizendo: ‘Por haver feito um tratado com Acazias, o Senhor destruirá o que você fez’. Assim, os navios naufragaram e não se pôde cumprir o tratado comercial” (v. 35-37).

Josafá já deveria ter aprendido a lição a partir da experiência com Acabe (2Cr 18.1ss), no entanto ele cometeu o mesmo erro novamente, agora com o filho dele. Josafá certamente tinha uma inclinação para fazer amizades com o mundo e assumir compromissos. Com isso, ele naufragou do mesmo modo como aconteceu com seu pai. Assim, ele encerrou sua carreira com uma mancha. Isso não precisaria ter acontecido!

Coração do Lider

Para o nosso aprendizado

O Novo Testamento diz: “Pois tudo o que foi escrito no passado foi escrito para nos ensinar, de forma que, por meio da perseverança e do bom ânimo procedentes das Escrituras, mantenhamos a nossa esperança” (Rm 15.4). Assim podemos extrair lições desses acontecimentos para nossa vida e é o que desejamos fazer, ao vivermos de todo o coração para o Senhor, para a Sua Palavra e para a Sua justiça. Devemos aceitar correções, retornar de caminhos errados para os Seus caminhos e proclamar o Seu Evangelho. Para tanto, podemos incentivar-nos mutuamente, dizendo: “Vamos lá, seja forte!” A resposta para uma decisão de agir não raramente torna-se uma provação, pois estamos num combate: o combate da fé. Nós combatemos e somos combatidos, tanto interna como externamente. Aí aparecem as hostilidades, temos nosso coração mau, e aparecem as limitações psicológicas ou físicas de toda espécie.

Li uma frase digna de destaque em uma publicação: “Um detalhe não consegue ser tão pequeno que o Diabo não consiga encontrar um lugar dentro dele”.9 O Diabo tem um objetivo concreto: desviar-nos do lugar onde Deus colocou nossos pés, conforme lemos em 2Crônicas 20.11: “... expulsar-nos da terra que nos deste por herança”. Visto à luz do Novo Testamento, isso é a nossa abundância em Cristo: nossa posição Nele, o Espírito Santo em nós, as maravilhosas promessas para o futuro, a riqueza da Sua glória, o conhecimento de Cristo, a filiação, a herança, o amor de Deus e tantas coisas mais. O Diabo finalmente não pode nos afastar de nossos bens espirituais, mas mesmo assim ele procurará fazê-lo com todas as forças; ele vai nos tentar, provocar dúvidas, trazer insegurança e nos colocar contra a parede. No entanto, não somente por isso, Deus nos deu o antídoto. É o que indica 2Crônicas 20:

A oração pessoal (v. 6);
A oração em conjunto (v. 13);
Sua Palavra da promessa (v. 15);
A exortação para confiar (v. 20);
O louvor e gratidão ativos (v. 21).

Para cada um desses pontos encontramos um paralelo no Novo Testamento:

  • A oração pessoal: “A oração de um justo é poderosa e eficaz” (Tg 5.16b).
  • A oração em conjunto: “Todos eles se reuniam sempre em oração...” (At 1.14). “Alegrem-se na esperança, sejam pacientes na tribulação, perseverem na oração” (Rm 12.12).
  • Sua Palavra da promessa: “Pois estou convencido de que nem morte nem vida, nem anjos nem demônios, nem o presente nem o futuro, nem quaisquer poderes, nem altura nem profundidade, nem qualquer outra coisa na criação será capaz de nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8.38-39).
  • A exortação para confiar: “Por isso, não abram mão da confiança que vocês têm; ela será ricamente recompensada” (Hb 10.35).
  • O louvor e gratidão ativos: “a fim de que os gentios glorifiquem a Deus por sua misericórdia, como está escrito: ‘Por isso, eu te louvarei entre os gentios; Cantarei louvores ao teu nome’” (Rm 15.9). “... pela oração e súplicas, e com ação de graças, apresentem seus pedidos a Deus” (Fp 4.6).

Quantas vezes acontece que chegamos ao nosso limite e precisamos reconhecer e confessar: “Pois não temos força... Não sabemos o que fazer, mas os nossos olhos se voltam para ti” (v. 12). O precioso de ser filho de Deus é o fato de que podemos estar conscientes de nossa fraqueza, podemos confessar nossa fraqueza, mas também podemos olhar para o Senhor e vivenciar que Ele luta por nós em Sua força: “Não tenham medo nem fiquem desanimados por causa desse exército enorme. Pois a batalha não é de vocês, mas de Deus” (v. 15). — Norbert Lieth

A vida de Josafá nos mostra que há um perigo muito maior do que a tentação externa que nos aborda. Esse perigo é o que provém do próprio coração: o perigo da mornidão e da disposição de brincar com o pecado e de se comprometer com o mundo. Josafá se aliou ao ímpio Acazias (v. 35-36) e isso causou o seu naufrágio: “‘Por haver feito um tratado com Acazias, o Senhor destruirá o que você fez’. Assim, os navios naufragaram e não se pôde cumprir o tratado comercial” (v. 37).

Nós, os que somos filhos de Deus, também somos seriamente exortados a não nos tornarmos amigos do mundo (Tg 4.4) ou manter relacionamentos não espirituais com incrédulos (2Co 6.14-17). Se o fizermos apesar disso, estaremos correndo o mesmo perigo como Josafá, de naufragarmos. A Bíblia nos exorta a manter a fé e a boa consciência e alerta: “Apegue-se à fé e mantenha a consciência limpa, pois alguns rejeitaram deliberadamente a consciência e, como resultado, a fé que tinham naufragou” (1Tm 1.19 – NVT). A boa consciência é jogada ao mar quando abandonamos o chão espiritual, quando se passa para o mundo, faz acordos e inicia relacionamentos não espirituais.

A vida de Josafá começou muito bem – “Ele andou nos caminhos de Asa, seu pai, e não se desviou deles; fez o que o Senhor aprova” (v. 32) – e também poderia ter terminado assim. Ao invés disso, ele atraiu uma mancha: “Posteriormente, Josafá, rei de Judá, fez um tratado com Acazias, rei de Israel, que tinha vida ímpia” (v. 35). Estejamos alertas para não cairmos na mesma armadilha do inimigo!

Norbert Lieth é Diretor da Chamada da Meia-Noite Internacional. Suas mensagens têm como tema central a Palavra Profética. Logo após sua conversão, estudou em nossa Escola Bíblica e ficou no Uruguai até concluí-la. Por alguns anos trabalhou como missionário em nossa Obra na Bolívia e depois iniciou a divulgação da nossa literatura na Venezuela, onde permaneceu até 1985. Nesse ano, voltou à Suíça e é o principal preletor em nossas conferências na Europa. É autor de vários livros publicados em alemão, português e espanhol.

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